
Neste projeto, o diretor Ricardo Ribeiro parte de alguns desafios consideráveis. O primeiro deles provém da decisão de se concentrar em dois casos extremos para pensar o Brasil na totalidade. O que justifica uma cidade como Timbó (SC) ter votado 90% em Jair Bolsonaro nas eleições de 2022, enquanto Guaribas (PI) votou 90% em Lula? No que diz respeito à própria metodologia, seria legítimo se apropriar de duas raridades para explicar o funcionamento médio de um mecanismo? Poderíamos analisar o melhor e o pior filmes da história para pensar o cinema em geral? O maior sucesso, e o maior fracasso de todos os tempos, seriam capazes de abarcar a complexidade do audiovisual? O olhar exclusivo ao primeiro time da tabela, e ao lanterninha do Brasileirão, permitiriam discutir o atual estado do futebol?
Segundo, o pressuposto de igualdade entre as partes pode ser contestado. Afinal, como atribuir peso e atenção equivalentes aos campos de direita e esquerda, partindo de um olhar obviamente progressista? Não seria ilusória a tentativa de abarcar com relativo equilíbrio as metades de uma disputa, quando se pende assumidamente a uma delas? Em terceiro lugar, o retrato dos casos mais radicais do Brasil não penderiam à caricatura — uma louvação às políticas sociais do governo Lula, por um lado, contra a defesa do armamentismo, e dos slogans de Deus, família e propriedade de Bolsonaro, por outro? Em quarto lugar, o que extrair destes casos para além da simples constatação de sua existência? Ou seja, o que oferecer, em termos de reflexão, que supere o aviso de nossa óbvia polarização?
Depois de uma dúzia de documentários visando um hipotético espectador do futuro, ansioso por compreender os turbulentos anos 2013-2026, este longa-metragem aparenta se dirigir ao público do presente.
Norte Sul Esquerda Direita se esquiva relativamente bem destas armadilhas. Ao invés de nos alertar a respeito da situação política, como se não a conhecêssemos previamente, prefere investigar a realidade de ambas as cidades. Concentra-se na seca e na pobreza histórica da localidade piauiense, e no passado colonial, de raízes europeias, do polo catarinense. Foca-se no sonho de crescimento destes cidadãos nordestinos, em busca de melhores condições de vida, em paralelo ao receio de perder uma riqueza que estimam sua por direito, por parte dos sulistas. (O sonho de enriquecer versus o medo de empobrecer). Os primeiros se norteiam por um otimismo — o apego pelo território que desejam ver preservado e aprimorado —, e os segundos, pela paranoia e pavor do outro — o apreço pela localidade provém, neste caso, da fobia de uma invasão ou descaracterização.
Aos poucos, estes campos começam a se atritar por meio da montagem. Os orgulhosos descendentes de alemães, cujos familiares receberam terras quando chegaram ao Brasil, recusam veementemente qualquer projeto social que transmita comida, renda ou mesmo terras ao povo. Enquanto, para os habitantes de Guaribas, o Bolsa Família representa “um suplemento”, para os empresários de Timbó, o programa incentivaria “o pobre a fazer mais filhos”. O lado norte efetua demandas muito palpáveis e cotidianas, tais quais comida, saneamento básico, ensino e trabalho; enquanto o lado sul se projeta em sonhos romantizados da religião e da pátria. A direção jamais contesta falas, nem demonstra, via edição, trilha sonora ou fotografia, qualquer indignação com os discursos alheios. Prefere demonstrar contida apreensão através da música tensa, por exemplo. Por isso escuta, com bastante atenção, o fazendeiro defendendo o fuzilamento de membros do MST.
Assim, o documentário evita o tom inflamado. Pelo contrário, sustenta um teor melancólico, da ordem da observação. Passa muito tempo junto às terras secas do Piauí, assim como nas festas típicas da cultura alemã, regadas a cerveja e ornadas com trajes típicos. Neste processo, recorre a materiais de arquivos, nunca nomeados nem localizados por letreiros. Inicialmente, os trechos do clássico Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, aparentam sugerir que nada mudou — Guaribas continuaria bastante pobre, com poucos recursos, e habituada às mesmas práticas de subsistência. Entretanto, aos poucos, estes registros demarcam a mudança significativa entre a pobreza extrema e as melhorias que permitem aos cidadãos locais o acesso à educação e ao controle da mortalidade infantil. Encontram-se longe do índice de desenvolvimento de outras partes do país, porém percebem o evidente salto na qualidade de vida, graças, segundo uma mulher, ao “papai Lula”.
O discurso também implementa palavras assertivas para determinar o pensamento sulista. Saindo de uma possível “neutralidade” inicial frente aos dois campos, o filme incorpora os depoimentos de uma pesquisadora que considera a ideologia dominante em Timbó como herdeira do fascismo, nazismo, e afeita ao armamentismo e à escravidão. O diretor relembra o espectador das práticas legalizadas de caça a indígenas, no passado, e de uma crença na superioridade da raça para legitimar as condições de vida confortáveis. Estima-se mérito por tal modo de vida — logo, se possuem recursos, isso seria uma prova de seu sucesso (econômico, político e ideológico). Ricardo Ribeiro expõe com clareza este complexo patriotismo que veste camisetas verde e amarelas enquanto despreza parte considerável do próprio país, se sente europeu e venera a política norte-americana.
O roteiro também incorpora fatores determinantes para investigar o Brasil de 2026: a ascensão das redes sociais e da desinformação via Internet; a ilusão belicosa que nos leva a pegar em armas contra a diferença; a tentativa de golpe de estado em 2023; as eleições apertadas de 2022 e 2018. O longa-metragem jamais simplifica a situação para abordá-la, nem busca oferecer soluções fáceis à macropolítica nacional. Não apresenta vilões nem heróis, e tampouco cai na tentação de ridicularizar o outro lado para defender o seu. Uma parte da indignação que o filme desperta provém justamente da banalidade com que os personagens sulistas proferem atrocidades supremacistas. Curiosamente, a naturalização do racismo e da xenofobia jamais provoca uma estética do asco, por parte da direção — o cineasta prefere que o espectador tire as suas próprias conclusões. Devemos escutar com respeito a barbárie? Manter a polidez e o decoro durante falas racistas?


Norte Sul Esquerda Direita levantaria alguns questionamentos pontuais. Às vezes, a captação sonora é deficiente, dificultando bastante a compreensão de algumas falas — caso em que as legendas se fazem necessárias. A escolha por uma única especialista, responsável por pontuar todo o racismo inerente ao pensamento sulista, soa redutora. O argumento ganharia força e nuances caso se multiplicasse em novas vozes e pontos de vista. Alguns símbolos, tais quais a bandeira do Brasil rasgada, resultam óbvios demais para um projeto que visa, precisamente, fugir de obviedades dos dois lados. Já a explanação de objetivos no início (“Uma indagação: o que duas votações tão diferentes entre si podem explicar sobre o Brasil?”) se filia à onda crescente de projetos didáticos, que sublinham ao público exatamente o que procuram (como se isso não fosse suficientemente claro pelas próprias imagens e sons).
Ressalvas, à parte, a obra funciona enquanto belo ponto de partida para uma discussão política capaz de ultrapassar o campo moral, assim como a descrição do óbvio. Depois de uma dúzia de documentários visando um hipotético espectador do futuro, ansioso por compreender os turbulentos anos 2013-2026, este longa-metragem aparenta se dirigir ao público do presente. Nunca nos toma por maus alunos, nem por espectadores alienados dos problemas que nos cercam. Existe um respeito fundamental nesta forma de comunicação. Talvez o discurso não ofereça nenhum argumento propriamente inovador ou provocador, entretanto, estabelece as bases para que elocubrações mais profundas decorram desta introdução. Serve de porta de entrada para, em um momento posterior, se compreender o abismo em que nos metemos.




