The History of Concrete (2026)

Guia dos curiosos

título original (ano)
The History of Concrete (2026)
país
EUA
linguagem
Documentário
duração
101 minutos
direção
John Wilson
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

Você sabia que uma empresa funerária se especializa em recortar a pele dos entes falecidos, preservando as tatuagens em quadros para os parentes e cônjuges? Você sabia que uma piscina pública demora exatas 25,5 horas para limpar sua água em caso de diarreia de um frequentador? Sabia que uma maratona voltada ao público asiático consiste em dar 5 mil voltas em torno do mesmo quarteirão, durante longos dias? Sabia que as cidades acolhedoras dos filmes natalinos da Hallmark são construídas num pequeno estúdio? Sabia que Kim Kardashian foi eleita “homem do ano” pela revista GQ, e organizou um grande jantar de celebração ao lado de Jacob Elordi?

Estas são algumas das incontáveis curiosidades apresentadas em The History of Concrete. O diretor John Wilson, acostumado aos pequenos vídeos caseiros, elaborados com uma câmera amadora na mão, por meio de sons e luzes naturais, consagra-se a uma espécie de brincadeira audiovisual. O título pressupõe uma obra austera e curiosa: quem pagaria o ingresso para assistir a 100 minutos a respeito da história do concreto? Ora, a premissa transparece uma falso motivo, mero ponto de partida para o cineasta conduzir sua trama por onde bem entender. Constitui um desafio a si próprio: uma espécie de filme impossível, uma obra divertida motivada por algo de aparência tediosa, e uma reflexão pretensamente etérea e existencial decorrente de algo que se presume, bem… concreto. 

O olhar se volta a qualquer aspecto ligeiro, leve, lúdico avistado pelo artista. Ele perde o foco sempre que se depara com alguma distração inesperada pelas ruas.

Logo, o olhar ao concreto nos Estados Unidos (sua composição, durabilidade, preço, importância) representa a oportunidade de flanar pelas cidades. O documentário proporciona, de fato, um vasto panorama da indústria dedicada a este material. Entretanto, foge a qualquer discurso específico a respeito (em defesa, ataque, ou investigando alternativas). Em decorrência desta constatação inicial (o uso massivo do elemento na construção das cidades), encontra a oportunidade de observar as pessoas, as ruas, os pequenos acontecimentos e ironias do cotidiano. Esta câmera-diário se delicia com um adesivo aplicado sobre o banner de uma bela mulher; com os peixinhos colocados na poça d’água formada por um vazamento; com a menor rua dos Estados Unidos, e com o ponto mais alto de Ohio (estranhamente, nem tão alto assim).

Em outras palavras, o olhar se volta a qualquer aspecto ligeiro, leve, lúdico avistado pelo artista. Embora lance, aqui e acolá, considerações acerca da memória e da permanência (via arte, tatuagem, tradições), perde o foco sempre que se depara com alguma distração inesperada pelas ruas. Veja, um porão alagado! Um cachorrinho sentado sobre as costas do seu dono! Um monte de chiclete colado ao chão! Uma gincana de construtores civis! Um cantor de ópera no meio da rua! Wilson faz prova de uma capacidade de concentração digna de uma criança, ou melhor, de um adolescente viciado em vídeos curtos na Internet. A narrativa se estrutura por meio de uma livre associação de ideias, estimando que qualquer acontecimento inesperado merece um lugar nesta sucessão de slides dedicados ao dia a dia de Nova York.

De fato, The History of Concrete constitui uma forma de cinema que jamais poderia ter existido vinte anos atrás, antes da ascensão dos vídeos curtos na Internet, das redes sociais, do império da autoimagem e das câmeras portáteis. Ele decorre desta ideia (tão democrática quanto utópica) de que tudo pode virar um filme, e tudo se presta a uma nova criação — sem hierarquias. De maneira autocondescendente, Wilson testa este conceito, registrando, a esmo, quaisquer estímulos que lhe interessem na paisagem ao redor. Ora, grandes diretores já extraíram considerações belíssimas e politicamente assertivas a respeito de tais contemplações (Frederick Wiseman e Chris Marker que o digam). Em contrapartida, estamos na era dos Reels, do imperativo do humor, e do sarcasmo como meio e finalidade.

Por isso, é difícil identificar ao certo o que Wilson teria a transmitir a partir de seu périplo autocentrado pelo concreto nos Estados Unidos. Ele se converte, sem sombra de dúvida, no único protagonista real desta iniciativa — atualizado a cartilha do documentário em primeira pessoa consagrado por Morgan Spurlock e Michael Moore, por exemplo. O grande diferencial, neste caso, seria a ausência de discurso político evidente a partir das observações. Moore revestia-se de uma armadura quixotesca no intuito de combater os moinhos do regime Bush. Spurlock fazia do próprio corpo um campo de batalha contra as redes de fast food. Já o diretor da série How to With John Wilson limita-se a uma forma mais inofensiva de apropriação do espaço urbano. Troca a ferocidade dos antecessores por um eterno sorriso de canto de boca, como se assistíssemos a 100 minutos de vídeos de gatinhos e influenciadores no TikTok. (O cansaço após a sessão é equivalente a tal experiência).

“Sem algo para criticar, um documentarista fica de mãos atadas”. A confissão do autor — que obviamente conduz a própria narrativa numa voz off ininterrupta — soa curiosa, diante do panorama oferecido pela narrativa. Ele estimaria oferecer, através desta colagem pueril, uma visão realmente crítica dos Estados Unidos? Mesmo num discurso que nunca critica nenhuma instituição, político ou empresa? Um ponto que vista que jamais analisa o crescimento deste concreto, ou as alternativas ao mesmo? E ainda evita avaliar impactos diretos na natureza e na paisagem? É claro que Wilson interessa-se a um parque somente a partir do momento que Tony Hawk ameaça construir, ali, uma grande pista de skate, gerando indignação dos moradores. O autor volta-se somente àquilo que possa gerar espetáculo, sorriso ou alguma forma de comoção. 

Em suma, o documentário busca significar uma provocação em si próprio, uma iniciativa retórica. Procura ser um filme sobre o nada, ou um filme sobre todas as coisas — propostas antagônicas que, neste caso, se equivalem. O diretor jamais parte destas observações para chegar a algum argumento específico. Os passeios constituem meio e finalidade, fechando-se sobre si próprios. O que os filmes natalinos da Hallmark, o músico casado com uma juíza e o ritual de corrida teriam em comum? Nada, para além da vontade de Wilson em costurá-los numa única jornada. Ele insiste que existe, ali, uma reflexão profunda a respeito da permanência e da efemeridade nas sociedades contemporâneas. Mas talvez a discussão esteja soterrada pelo desejo vaidoso de construir uma obra instagramável. 

The History of Concrete (2026)
4
Nota 4/10

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