Nowhere To Lay My Eyes (2026)

O livro de contos de Hong Sang-soo

Uma jovem cineasta visita a mãe, e conhece pela primeira vez o companheiro dela. A família não se reunia há muitos anos, razão pela qual a matriarca desconhecia as experiências audiovisuais da filha, ao passo que esta ignorava a existência da filha do padrasto (uma mulher de sua idade, divorciada e depressiva), vivendo na casa da família. Junto do irmão, relembram o passado — a vocação para o piano, abandonada por Sang-hee (Kim Min-hee), o senso de organização do irmão mais novo (Shin Seok-ho). Em paralelo, descobrem os planos da mãe de deixar a pensão que comanda sob os cuidados de Sang-hee, trazendo-a de volta à cidade. Afinal, se ela faz filmes para o próprio prazer, sem um contrato específico, não precisa ficar em Seul, e pode materializá-los igualmente na Ilha de Jeju.

Talvez todos estes pequenos contos audiovisuais, assumidamente caseiros e modestos, componham uma forma de coletânea própria.

Dia após dia, os familiares se encontram. Sentam-se à mesa, almoçam, conversam. Destacam banalidades — o sofá confortável, a senha de entrada da porta —, mescladas a questionamentos existenciais. “Como você vive, sabendo que a eternidade não existe?”, ao que a interlocutora responde que a eternidade seria, antes de tudo, uma palavra sequer. Por isso, não há motivos para ter medo. (Ao fundo, uma tempestade se anuncia). O aspecto cotidiano, avesso às reviravoltas e ao espetáculo, domina Nowhere to Lay My Eyes. Ele representa uma nova investida do sul-coreano Hong Sang-soo em um cinema de impressionante economia de linguagem e de meios de produção.

Por isso, o cineasta assina, como de costume, a direção, o roteiro, a produção, a montagem, a direção de arte, a fotografia e a trilha sonora. Opera a própria câmera na mão, assumindo a imagem tremida e a baixa resolução do aparelho digital. Aceita os ruídos altíssimos dos talheres à mesa, assim como o forte barulho do vento, que se sobrepõe às falas. Abraça o acaso, estimando que o cinema precisa se moldar ao mundo, nunca o contrário. Ao invés de diversos planos e cenas, escolhe os zooms in e out, agressivos, reenquadrando dentro de uma única tomada, e reduzindo o escopo da filmagem. Conforme os quatro protagonistas conversam, ele posiciona o dispositivo confortavelmente fixo à frente do grupo. Deixa, em seguida, que compartilhem suas amenidades.

O resultado se assemelha bastante a um conto, caso pensado enquanto estrutura literária. O foco na pequena história, o final que abre caminhos ao invés de encerrá-los, a predominância de símbolos e metáforas em detrimento de fatos nos permitem pensar no trabalho de grandes contistas e cronistas. Aos atores, solicita-se um trabalho de presença e capacidade de responder ao acaso — é claro que não se trata de um estilo muito controlado e ensaiado por parte do diretor. Aos poucos, Sang-soo retira todos os ornamentos e figuras do bom gosto associadas a um projeto profissional. Dispensa o foco, o valor de produção de grandes paisagens, o refinamento de falas, e sobretudo, o senso de propósito das narrativas tradicionais. O autor nunca parece elaborar suas tramas para transmitir nenhuma mensagem específica. Contempla um dia qualquer, com a mesma atenção que ofereceria a qualquer outro dia destes personagens.

Certo, este procedimento está longe de representar uma novidade — mesmo para Sang-soo. O cineasta tem brincado com variações desta estética em pelo menos dez filmes, efetuados na velocidade espantosa de dois ou três longas-metragens por ano. Devido ao porte modestíssimo da criação, consegue filmar e finalizar em tempo recorde, contando com a própria esposa, a grande atriz Kim Min-hee, no papel principal novamente, além de outros atores frequentes (a exemplo de Kwon Hae-hyo). Os motivos se repetem: reuniões familiares, encontros do acaso em praças e parques, pequenos cineastas independentes e sem reconhecimento. Geralmente, as falas desembocam em almoços regados a álcool e confissões acaloradas. Um discreto senso de humor permeia estas narrativas tão semelhantes.

Por esta razão, tantos críticos e cinéfilos começam a temer pela produção de um autor que aparenta se repetir. (Ou esta seria apenas o exercício esperado de seu traço autoral, como sugerem alguns?). Mais do que isso, Sang-soo não demonstra qualquer forma de risco, de atrito, de ousadia em relação ao formato desenvolvido para si próprio. Multiplica as propostas similares e agradáveis, sempre acolhidas com entusiasmo pelos principais festivais mundo afora. (Nowhere to Lay My Eyes venceu o prêmio de direção, de atuação e prêmio ecumênico no Festival de Locarno). Se ele está contente com este ritmo de realização, e os maiores eventos também estariam, qual seria a necessidade de mudar, correto? 

Talvez todos estes pequenos contos audiovisuais, assumidamente caseiros e modestos, componham uma forma de coletânea própria. Não buscam se diferenciar entre si, mas dialogar uns com os outros. De fato, os personagens principais desta obra poderiam facilmente conviver com os protagonistas de O que a Natureza te Conta, Na Água, Em Nossos Dias, A Romancista e o seu Filme, e assim por diante. Constituem, em última instância, peças de uma única construção. Parte deste empreendimento se traduz numa minúcia da realização, ou seja, um aperfeiçoamento da tarefa que Song-soo atribuiu a si mesmo. 

Ora, outra parte se aproxima do senso de domesticação, da ausência de surpresas ou de encantamento. Qualquer grande diretor perde sua potência quando desperta no espectador a impressão de que podemos antecipar exatamente o tipo de imagem, narrativa, personagem e pensamento cinematográfico que encontraremos durante a sessão. Afinal, já vimos este filme antes, ou pelo menos, alguns filmes muito próximos dele, forjados pelo mesmo autor. O quanto de nossa apreciação cinéfila deseja que o exímio realizador continue fazendo exatamente aquilo que nos agradava até então; e o quanto anseia por algum risco e ousadia? Alguma fricção com o mundo, e com seus traços consagrados? O conforto soa, afinal, como um inimigo da criatividade no cinema.

Nowhere To Lay My Eyes (2026)
6
Nota 6/10

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