Roma Elastica (2026)

Caos blasé

título original (ano)
Roma Elastica (2026)
país
França, Itália
gênero
Drama, Fantasia, Comédua
duração
107 minutos
direção
Bertrand Mandico
elenco
Marion Cotillard, Noémie Merlant, Martina Scrinzi, Isabella Ferrari, Maurizio Lombardi, Milutin Dapcevic, Tea Falco, Zlatko Buric, Ornella Muti, Franco Nero
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

Roma Elastica é um destes projetos difíceis de descrever, e também de analisar. Por um lado, ele soa extenso e extenuante. Incontáveis personagens desfilam por dezenas de cenários, nesta trama a respeito de um filme-dentro-do-filme. A quantidade de espaços, objetos, figurinos e figurantes desperta a impressão de uma obra luxuosa, do tipo que pode ornar diversos cenários e locações para serem utilizados durante míseros segundos cada um. Posto que o luxo depende da ostentação e do desperdício — o pressuposto de ter mais do que se pode utilizar —, o longa-metragem parte de uma imagem-gadget, mirabolante e histriônica em si própria. 

Logo, símbolos, objetos e atores famosos (Ornella Muti, Franco Nero) surgem brevemente em cena porque o diretor Bertrand Mandico pode, ou seja, pela suntuosidade de contar com eles, embora extraia pouco de suas participações. Ele também traz Marion Cotillard, Noémie Merlant, Isabella Ferrari e outros nomes de provocar inveja a qualquer produção francesa ou italiana — para requisitar então que interpretem uma caricatura da caricatura de profissionais audiovisuais. Logo, esta não seria uma questão de atuar bem ou mal, e sim de exagerar de propósito — caso em que o grotesco tenta passar por uma qualidade autocondescendente. Sim, os personagens e situações são ridículos, mas este seria o objetivo assumido — e, portanto, um valor, certo? Retoricamente, o discurso se blinda de críticas por assumir, via metalinguagem, suas inconsistências.

Há problemas reais na indústria do cinema, embora eles passem longe deste desfile de mortos-vivos maquiados para um ensaio de grife.

Um fiapo de trama costura as ações. Eddie (Marion Cotillard) representa o protótipo da atriz em crise. Sabemos disso porque as pessoas mencionam sua decadência a cada par de diálogos, apesar de a obra jamais construir seu apogeu, muito menos o seu declínio. Acusam-na de ser velha e ultrapassada, algo difícil de acreditar diante do rosto liso e juvenil da atriz principal. O diretor nos pede para abraçar um contexto improvável: a queda da tal grande intérprete cujos filmes anteriores jamais conhecemos; a decisão de atuar num sci-fi paródico italiano de terceira categoria; a descoberta conveniente de um câncer em fase terminal, levando-a a confrontar a sua finitude. Nenhuma atitude desta figura resulta minimamente plausível — vide a insistência pelo apartamento inacabado, o comprometimento no set italiano, a participação num patético programa de televisão.

Por isso, Mandico solicita à sua atriz principal que encarne um misto de indiferença e cansaço. Cotillard, boquiaberta na metade das cenas, desfila pelos cenários-estúdios com a aparência de uma rockstar exausta após o show, esgotada de qualquer entusiasmo. Ora, o que ela procura neste fim de vida? O que a move? Onde está seu desejo (sexual, profissional, familiar)? Não sabemos. Paralelamente, as figuras ao redor se restringem à ínfima variação: a melhor amiga e interesse amoroso (Noémie Merlant), o quarteto punk de personalidade indistinta, a vidente (Martina Scrinzi) cuja única função consiste em balançar uma pequena bola de cristal pelos ares enquanto profetiza a esmo. Ela prevê a chegada de “um presidente americano com palha na cabeça”, vejam só.

De fato, Roma Elastica contém uma infinidade de citações, espalhadas com a mesma velocidade de seus objetos e ações. Pasolini, Antonioni, Fulci, Bava, Possessão, As Lágrimas Amargas de Petra von Kant são apenas alguns dos nomes incluídos na forma de piscadelas ao público cinéfilo. Tem uma citação aqui, está vendo? E essa aqui? Pescou essa? O espectador pode participar, desta maneira, do jogo da memória, ou da brincadeira dos sete erros. Além da chacota com Trump, ridiculariza-se a Disney (o cartaz “Hail Disney” aparece duas vezes) enquanto os cenários transparecem frases pseudo filosóficas a respeito do tempo. Fugit Tempus, diz a pixação. “O tempo voa”, profetiza Mandico, como se tal reflexão contivesse, em si, uma discussão para além de sua obviedade.

Ora, por trás da comédia, da escatologia (uma anedota sobre cocô comparado a um picolé de chocolate), do drama, do delírio, do terror, do posh, do trash e do queer, o autor estima oferecer um retrato do calvário sofrido pelas atrizes. Em entrevistas, o cineasta afirmou que elas são as verdadeiras mártires da arte cinematográfica. A afirmação é defensável. Em contrapartida, a caracterização de uma diva mimada e sonolenta, alheia à arte que a consagra, está longe de representar uma homenagem a estas profissionais. Os abusos sofridos por ela tampouco estão presentes na obra, que se esforça bastante em aparentar mais astuta do que realmente é. Há problemas reais nesta indústria, embora eles passem longe deste desfile de mortos-vivos maquiados para um ensaio fotográfico de grife.

Apesar de tantas contorções de câmera, de guinadas entre o colorido e o preto e branco, de próteses, gritos e lágrimas, resta um filme de poses. As atrizes encaram a câmera, oferecem seu melhor olhar para um desfile de moda, e conduzem-se à marcação seguinte. Param no ponto exato para a luz perfeita, despejam suas frases de efeito (“O destino é um macaco que gargalha”, “Fazer cinema é o antídoto contra a velhice”), e pulam ao corte seguinte. Pelo caminho, atravessam uma infinidade de temas que a obra evita esmiuçar de fato: o envelhecimento das atrizes, a decadência do cinema clássico, o conflito entre aparência e essência, o legado de pessoas que vivem de suas imagens. Neste mosaico quase aleatório de acontecimentos, parecer profundo resulta mais importante do que se aprofundar em qualquer tema.

Curiosamente, o cinema tem produzido com frequência este filmes grandiloquentes, espécie de opus de seus criadores. Megalópolis, Jay Kelly, Babilônia e Digger são apenas algumas destas obras-testamentos de diretores de prestígio, tentando transmitir sua visão definitiva a respeito de tudo e todas as coisas: a vida, a morte, o amor, a arte, o tempo. Roma Elastica se insere neste grupo pela proporção e pela ganância, soterradas pela absoluta falta de coerência e de ponto de vista. Estes filmes inchados e vaidosos nos dizem muito mais sobre seus autores, apresentando-se como pensadores de suas épocas, do que a respeito do cinema e das sociedades em que se inserem. À revelia, permitem pensar o ego destes homens do audiovisual, cujo reconhecimento os leva a estimar que sejam capazes de criações cada vez maiores e mais abrangentes em seus focos. Então cita-se Trump aqui, envelhece-se um ator famoso acolá, e está pronta a pseudocrítica a respeito de nossos tempos. É sintomático que todos estes projetos tenham sucumbido ao peso de suas ambições.

Roma Elastica (2026)
2
Nota 2/10

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