Minotauro (2026)

A ruína dos homens

título original (ano)
Minotaur (2026)
país
França, Alemanha, Letônia
gênero
Drama, Suspense
duração
135 minutos
direção
Andrey Zvyagintsev
elenco
Dmitri Mazurov, Iris Lebedeva, Boris Koudrine, Yuriy Zavalnyouk, Varvara Chmykova, Vladimir Friedman
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

Na Rússia de Vladimir Putin, a manutenção da riqueza parece garantida nas mãos dos homens que apoiam o governo. Gleb (Dmitri Mazurov) é um importante empresário, amigo do prefeito, de quem pode cobrar favores quando necessário. Vive num casarão com Galina (Iris Lebedeva) e o filho do casal. Organiza jantares em restaurantes luxuosos, onde os amigos apresentam suas novas esposas-troféus. A guerra com a Ucrânia parece distante, e caso os homens da região sejam convocados ao front, serão escolhidos apenas os mais pobres, estimados “menos importantes” à administração local. Estes milionários estão, portanto, seguros em um sistema criado por eles, para favorecê-los. Até que, um dia, esta arquitetura começa a ruir.

Primeiro, o recrutamento afeta os negócios de Gleb. Afinal, seus funcionários são obrigados a se apresentar ao exército. Como evitar uma queda no rendimento face à diminuição repentina na força de trabalho? Ainda que possa escolher os nomes a ser enviados (após uma reunião secreta com o prefeito), ele ainda teme que o conflito, enfim, o prejudique financeiramente. Segundo, suspeita que a esposa, desinteressada pela rotina dele, tenha um amante. Ela ignora suas tentativas de sexo, e despreza o círculo de amigos próximos. Some durante a tarde, rumo a destinos imprecisos. Logo, estes homens privilegiados, a quem se prometia riqueza e mulheres, veem-se privados de ambas — ou, pelo menos, ameaçados de perdê-las. Como restituir este poderio masculino?

Por trás da aparência de perfeita normalidade, escondem-se monstruosidades, dentro de casa e das repartições públicas.

Minotauro representa uma fábula desta ascensão e queda na Rússia contemporânea. Representa simultaneamente a corrupção pública e privada; os esquemas ilegais em nível local e nacional. Ao mesmo tempo, evita as denúncias diretas e as ferramentas estéticas de urgência. Nunca nomeia responsáveis, tampouco recorre a casos reais, de fácil identificação. O diretor Andrey Zvyagintsev prefere uma alegoria paulatina, a respeito da guinada apontando para uma ameaça em tamanha estabilidade de classe e gênero. Para quem observa de longe, a família de Gleb continua bem: o filho está saudável, e a empresa segue seu rumo, apesar da baixa de efetivos. Ou seja, a revolução é de ordem íntima e sigilosa. A possibilidade de um amante e o desaparecimento de funcionários ilustram a perda de controle por parte daqueles que sempre controlaram tudo. O totalitarismo, afinal, possui alguns limites.

Esteticamente, o autor russo preserva a elegância pela qual sempre foi conhecido. Junto ao diretor de fotografia Mikhail Krichman, opera com planos fixos, em scope, valorizando a casa e os corredores repletos de portas de vidro na empresa onde trabalha. Somente uma vez comprovada a infidelidade de Galina, a câmera começa a efetuar giros de 360º. A imagem se faz mais livre, e os planos, mais curtos — instaura-se o caos por meio da linguagem. Assim, a rigidez do patriarcado encontra uma estética própria, assim como a selvageria do homem ferido, que decide restaurar a honra do lar. Ineficaz na preservação daquilo que percebe como seu patrimônio (o dinheiro e a esposa), parte ao ataque contra o inimigo. Gleb já teve suas namoradas, mas considera a traição de Galina inexplicável. Num gesto impulsivo, entrega-se a uma vingança improvisada.

O roteiro leva algum tempo até chegar às ações mais espetaculares. É louvável encontrar um drama (com toques de suspense) tão dedicado à construção social e psicológica dos personagens, antes de mergulhar no conflito de fato. Cerca de 40 minutos são consagrados à rotina dos protagonistas, ao desgaste do casamento, à primeira suspeita de mentiras por parte da esposa, e ao descontentamento dela neste círculo masculino. O terço inicial — o melhor de todo o filme — não se move apenas através de cenas úteis à narrativa, no sentido estrito de fazerem a trama avançar. Pelo contrário, plantam sementes da guerra familiar, destinada a refletir aquela da nação. 

“Uma esposa feliz não sabe de nada”, afirma um diálogo. “Também é preciso ter anti-heróis”, lembra uma das esposas-troféus numa piada de mau-gosto, capaz de dizer mais sobre o estado da masculinidade em crise do que qualquer outra interação desta jornada. De fato, o marido sempre escolhe algum item para o café da manhã, mas muda de ideia em seguida. Ignora a esposa quando ela se deita na cama. Assiste mecanicamente a um programa de televisão ao lado dela, enquanto mexe no celular. O excelente roteiro ergue um matrimônio plausível, avesso aos fortes descontentamentos, porém, no qual se enxergam evidentes sinais de falência. Por isso, quando a represália de Gleb acontece, desencadeando uma série de acontecimentos imprevistos, as atitudes soam plausíveis, pois decorrentes de uma subjetividade muito bem trabalhada. Nada é mais perigoso do que o ego ferido de um homem cis-hétero, que confunde privilégios com direitos.

Minotauro ameaça se enveredar pelo suspense policial, quando as forças da lei investigam o crime com óbvias marcas dos responsáveis. Ora, a perspectiva de uma punição exemplar é logo descartada: estamos na Rússia onde o dinheiro compra qualquer favor, inclusive o abandono de uma investigação criminal. Um cinismo profundo se instaura no terço final, quando as alusões à guerra se fazem mais presentes. Conforme o casal acerta suas contas, por meio de uma violência velada, multiplicam-se os painéis de militares condecorados, os outdoors venerando heróis mortos em combate, e os soldados caminhando pela rua. Quando a vigilância e o militarismo dominam a vida pública, eles também contaminam a vida privada. Alguém precisa morrer nas batalhas nacionais e domésticas — mas, obviamente, não serão os homens de poder.

“Foda-se a guerra de vocês”. “Essa guerra não é minha”. “Esse país me traiu”. Estas falas decorrem de pichações nas ruas, assim como das falas de empresários. O conflito soa longínquo, embora surta efeito na vida cotidiana, em nível econômico, social e psicológico (vide a forte cena de familiares se despedindo dos soldados). Em seu filme sobre a Rússia, desprovido de qualquer financiamento russo, Zvyagintsev cria uma bela alegoria da guerra, vista pelo impacto nos cidadãos distantes da linha de frente. Embora as consequências sejam evidentes nas camadas populares, investiga-se de que modo até aqueles mais protegidos sentem o baque do confronto que visava, a priori, justamente preservar este modo de vida. Trata-se de um filme profundamente irônico, e ao mesmo tempo inteligente, por evitar explicar suas metáforas ao espectador — vide a conclusão, com as nuvens em preto e branco. Por trás da aparência de perfeita normalidade, escondem-se monstruosidades, dentro de casa e das repartições públicas. A carnificina se torna ainda mais chocante quando veste terno e gravata, brindando suas conquistas com uísque importado. O final feliz nunca foi tão amargo.

Minotauro (2026)
9
Nota 9/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.