
Jean (Silvero Pereira) caminha em meio a pilhas de lixo durante a madrugada, no centro de São Paulo. Poucas introduções seriam mais emblemáticas de um Cinema Marginal: o pequeno ladrão andando a esmo, o cenário da praça da Sé e arredores, a falta de propósitos definidos, uma destinação ignorada pelos próprios personagens. Há sangue correndo nas veias de Jean, Gaspar e todos os outros. Em suas festas, velórios, espetáculos teatrais e passeios noturnos, transbordam de uma vitalidade quase animalesca.
Em contrapartida, o resto da cidade dorme. Os diretores Renato Coelho e Priscyla Bettim imaginam uma São Paulo de sonhos, sem barulhos, de poucas interações à noite. O Minhocão está vazio e reservado ao protagonista, assim como as vielas, avenidas e passagens. Nem mesmo o bar, onde curiosamente ocorre um velório, transparece as conversas e ruídos dos demais clientes. Não fosse pela ingerência dos protagonistas, provocando a noite como forma de autoafirmação, este mundo estaria congelado, repousando. Há certa paz no retrato casual de duas pessoas mortas, mas também na presença de ladras gentis, que pedem dinheiro aos seus alvos; e nas encenações teatrais desenvolvendo-se na falta de público para contemplá-la. Não há obrigações, compromissos, produtividade, ou finalidade.
As Florestas da Noite transmite uma calculada sensação de apatia e inconsequência. Seus personagens não possuem objetivos, nem desejos particulares.
O ideal de tempo suspenso culmina na chegada a um gigantesco cinema-teatro, ornado por um feixe luminoso ao fundo, e dentro do qual poucas cadeiras despregadas parecem esquecidas sobre o chão. Os personagens nunca sentam nela, nem aproveitam de fato este ambiente. Aliás, esqueçamos o elogio metalinguístico: as películas cinematográficas e as fotografias em still são queimadas no fogo. Em paralelo, ladrões invadem casas para não roubarem nada em particular (ainda que se divirtam bastante com os objetos e a decoração), e assaltam transeuntes sem real intenção de gastar o dinheiro desta iniciativa. Meditam unicamente para passar o tempo (posto que duvidam da serventia do ritual), e fazem sexo na ausência de real interesse pelos parceiros (uma cena que tampouco demonstra mínima verossimilhança). Drogam-se, porém, não desfrutam do efeito da substância no corpo.
As Florestas da Noite transmite uma calculada sensação de apatia e inconsequência. Seus personagens não possuem objetivos, nem desejos particulares. Erram por esta cidade-cenário em belíssimo preto e branco, contrastado ao limite da performance, embora estejam insensíveis aos encantos da paisagem tão corriqueira aos seus olhos. Fazem o que querem, embora queiram pouca coisa. O pressuposto da deambulação resulta na galeria de personagens perdidos; fantasmas carentes de alguém para assombrar. A sensação de liberdade se encontra com aquela de despropósito: tenho a possibilidade de visitar um parque de diversões totalmente vazio e acessível, no entanto, que diversão extrair das atrações paradas? Assim, os invasores botam fogo numa lixeira, contemplando rapidamente o resultado do incêndio.
Enquanto o mundo se encontra em letargia, os protagonistas são tomados por uma febrilidade teatral. Silvero Pereira, em particular, arregala os olhos e mastiga suas falas como quem devora um prato indigesto, até se transformar numa figura incontrolável na festa. Renan Rovida tem sua oportunidade de se tornar possuído pelas vontades (e pela droga?), enquanto a excelente Verónica Valenttino se confunde com a figura da guerrilheira em ação, de arma em punho e olhar inquisidor. Cada personagem aparenta atuar para os demais, elaborando uma versão cênica de si próprio. Irene (Helena Albergaria) dança e se apresenta ao marido (Carlos Francisco). Ela aproveita para beijá-lo, ainda que esteja morta.
O roteiro se articula em torno de duplas, na maior parte do tempo, mesclando as falas empoladas e literárias com situações corriqueiras. Mesmo a incursão da fantasia (o beijo da amada morta) se faz discreta, incapaz de contaminar a estética na totalidade. Os diretores preferem o entorpecimento ao delírio; a suspensão dos sentidos à saturação dos mesmos. Logo, um coração batendo no peito aberto desaparece da imagem em poucos segundos, sem deixar traços. O velório não provoca arroubos de tristeza nos presentes, e mesmo a provocação a Jean, nos bastidores do teatro, será esquecida a seguir. Um colar roubado do pescoço da mulher desperta descaso, tanto por parte do criminoso quanto da vítima. Nada consegue despertar, em definitivo, estas figuras torpes.
As Florestas da Noite pode ser facilmente elogiado pelos trechos mais chamativos no interior de sua estrutura fragmentária. A apresentação de Verónica Valenttino, interpretando Burning Night, se engrandece graças ao trabalho impecável de voz, corpo e expressões da atriz. A obra parece crescer sempre que abre as portas ao imponderável, chegando ao limite de uma fábula jamais assumida como tal (devido à ausência de moral). Nesta compreensão, a aparição fugaz da personagem de Helena Ignez representa este belo paradoxo da presença simultaneamente gentil e ameaçadora, naturalista e mágica. Assim como surgiu, desaparece pela noite. Onde vão parar, afinal, todas as criaturas engolidas pelas avenidas paulistanas?


Em contrapartida, o conjunto soa desconexo, heterogêneo, alternando trechos potentes com outros nunca plenamente aproveitados como tais (a morte do sujeito prestes a jantar, a despedida das duas amigas — ou amantes?). Os cruzamentos entre núcleos narrativos são discretos, e mesmo as atuações se provam pouco coesas, entre a composição bestial de Pereira, a sedução de Valenttino e o olhar terno e naturalista de Carlos Francisco. A obra transborda de tons e referências, às vezes, em estilos pouco condizentes entre si. Isso transparece, igualmente, no texto de alcance e funções variáveis. “Existe uma estreita relação entre as flores e os ladrões”, promete um personagem.
É uma pena que tais propostas jamais se aprofundem a contento. O filme adora criar personas e personagens, embora demonstre menos prazer em acompanhá-los. Em outras palavras, dispara suas andanças pela noite enquanto minimiza os paradeiros e destinos, para além da reunião previsível no Vértice do Pântano. Os cineastas se mostram exímios criadores de atmosfera, instaurando conflitos como num brainstorming a respeito de marginalidades e vivências periféricas. Entretanto, chegando ao Minhocão reservado para o filme, ao cinema-teatro gigantesco e esvaziado, e ao velório no bar, hesitam quanto à melhor maneira de aproveitar estes espaços e esta temporalidade. Algo na construção ainda soa retórico — para o bem ou para o mal —, como se a elaboração destas figuras e cenários constituísse uma finalidade em si própria.




