Fernando Coni Campos: Cada um Vive Como Sonha (2025)

O artista desencarnado

título original (ano)
Fernando Coni Campos: Cada um Vive Como Sonha (2025)
país
Brasil
Linguagem
Documentário
duração
89 minutos
direção
Luis Abramo, Pedro Rossi
visto em
31º Festival É Tudo Verdade (2026)

O documentário a respeito de Fernando Coni Campos procura seguir uma trajetória diferente das convenções. Em Cada um Vive Como Sonha, os diretores Luis Abramo e Pedro Rossi evitam a descrição linear; fogem às imagens literais demais do cineasta; e escapam à armadilha do percurso “evolutivo”, do nascimento à maturidade, em chave determinista. Em meio a tantos talking heads tradicionais, é interessante encontrar uma proposta de organização avessa à explicação e resumo de vida-e-obra do autor para um público presumido ignorante. Por solicitar nossa atenção constante a respeito do que estamos vendo, o longa-metragem já se destaca da média.

Ironicamente, em sua recusa dos mecanismos tradicionais, os autores oferecem uma jornada excessivamente obtusa. O terço inicial, em particular, dificulta a imersão por parte do espectador. Demoramos muito até descobrirmos o rosto, o corpo e a voz do próprio protagonista. Antes disso, escutamos comentários esparsos acerca de Viagem ao Fim do Mundo (1968) e sua importância, ou singularidade na cinematografia brasileira. Jean-Claude Bernardet evoca qualidades difíceis de comprovar pela construção audiovisual; ao passo que determinadas teses carecem de pesquisa para se legitimarem. Por que Coni Campos seria mais interessado pelo gesto de contar histórias do que qualquer outro diretor? De onde surgiria a hipótese de um equivalente cinematográfico à tese literária?

A montagem se mostra confusa, para dizer o mínimo. Pelo menos, resta um convite à exploração pessoal de Viagem ao Fim do Mundo, Ladrões de Cinema e O Mágico e o Delegado.

Em paralelo, a direção se coloca em cena, seja nas perguntas, mantidas pela montagem, seja na explicação em off do propósito dos autores com esta iniciativa. A presença dos cineastas se faz sentir de maneira ainda mais direta graças a esta tendência curiosa a empregar uma direção de fotografia… errática. Durante várias conversas, a câmera treme, reenquadra a esmo, procura seu foco, muda o ângulo. A imagem chacoalha e chama tanta atenção para si própria que nos lembra constantemente da presença de uma equipe por trás — até pela constante intromissão do boom. 

Teria sido mais simples determinar o enquadramento e foco antes do início da conversa — até porque os sujeitos estão sentados, parados, esperando o início do papo. No entanto, prefere-se esta instabilidade, culminando com o aparelho que praticamente despenca diante de uma fala de Antônio Pitanga. Ironicamente, depois de uma câmera completamente instável durante as falas mais importantes no bar, acerta-se o movimento fluido na hora do salaminho com cerveja. (E o que faz ali a imagem em câmera lentíssima da cerveja no copo, como extraída de um spot publicitário?). Para um projeto a respeito do cinema, visando honrar e homenagear a obra de um grande artista, talvez a preocupação com a luz, a cor e a textura da imagem fossem essenciais — o que contrasta com a captação bastante frágil das falas dos irmãos do biografado, por exemplo.

Ao mesmo tempo, o documentário careceria de mais materiais, seja do próprio diretor — cujos registros referenciais somente aparecem com clareza na segunda metade —, seja da época e dos filmes citados. A escolha pela ficcionalização, com Pitanga interpretando frases escritas por Coni Campos, despertam interesse, no entanto, jamais substituem o valor de uma pesquisa de arquivo aprofundada. Incomoda o fato que o conteúdo sonoro (as discussões e as captações) sejam muito mais interessantes do que a imagem destinada a acompanhá-lo. Inesperadamente, algumas frases de grande interesse provêm de entrevistados anônimos, totalmente ocultados pelo uso da voz em off. Quem sustenta, por exemplo, que o protagonista era mais do que poeta, e sim, ele “era a poesia”? Não sabemos.

Logo, Fernando Coni Campos: Cada um Vive Como Sonha equilibra-se entre bons momentos (o terço final, em particular) e algumas escolhas bastante frágeis. Por um lado, é bastante louvável encontrar grandes críticos e pesquisadores brasileiros, caso de Izabel Melo, Juliano Gomes e Lorena Rocha, entre os participantes da fortuna crítica acerca do cineasta. De fato, estes acadêmicos têm muito mais a contribuir para reflexões do gênero do que o cinema documentário parece perceber. Chegada a entrevista com o próprio diretor, escutam-se indagações potentes, que esclarecem o pensamento do protagonista com maior clareza do que tantas falas de terceiros. Ao espectador com pouco conhecimento a respeito desta obra, resta um convite à exploração pessoal de Viagem ao Fim do Mundo, Ladrões de Cinema (1977) e O Mágico e o Delegado (1983).

Em contrapartida, a montagem se mostra confusa, para dizer o mínimo. Parece se perder em propósitos e associações, seja na longa sequência da anatomia do globo ocular; seja na articulação do papel do cineasta para o protagonismo negro. O que ele teria trazido de novo, ou único, em relação a outros diretores brancos que conferiram protagonismo a pessoas negras, caso de Cacá Diegues? De onde vinha sua consciência social, e como explicar a presença pequena de diretores negros assumindo esta função, falando por si mesmos? Em paralelo, por que escolher terminar a obra tão brasileira com um mergulho no cinema americano de estúdio, tão distante da realidade evocada até então?

Por fim, convém notar a presença cada vez maior de longas-metragens possibilitados pelos dispositivos móveis e baratos de gravação de imagens que, no entanto, nem sempre são explorados em sua potencialidade. O Festival É Tudo Verdade 2026 traz alguns destes filmes de captação mais caseira, instável, desenvolvidos no improviso, com a justificativa de que a nobreza de seus temas desculparia acidentes de percurso. Afinal, “são obras de baixo orçamento”, “é muito difícil fazer filmes no Brasil”, etc. Este argumento de compaixão (ou condescendência?) assume a dianteira para legitimar iniciativas que visam homenagear grandes pessoas, ou temas nobres, de maneira um tanto desajeitada, ou, pelo menos, aquém da importância e valor estético de seus temas de estudo. Justamente por se considerar a importância fundamental do cinema, não se ignora com tanta facilidade uma representação descuidada de grandes pensadores e artistas.

Fernando Coni Campos: Cada um Vive Como Sonha (2025)
5
Nota 5/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.