
A mãe Helena (Carolina Dieckmmann) e os filhos André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello) ainda não conhecem muito bem a cidade de Brasília. Acabam de se mudar para a capital esvaziada, durante o ano de 1986. Nada parece acontecer neste local de avenidas largas, vazias, e apartamentos distanciados. A mãe não trabalha e, durante as férias, os meninos tampouco estudam. Torcem pelo retorno do pai (Michel Melamed), que partiu numa viagem profissional, embora, a julgar pela fria despedida com Helena na cena inicial, talvez ele não retorne jamais. Encontram-se, portanto, no limbo de uma cidade que não lhes pertence, esperando pela figura possivelmente ausente, no parêntese de um tempo indefinido.
Em outras palavras, eles são alienígenas neste território que representa um Brasil de alegria moderada, no início da transição democrática, quando a segurança financeira ainda não parecia ao alcance de toda a classe-média. Trata-se de um período de incerteza, simbolizado pelas caixas de papelão da mudança, que nunca são abertas, e ocupam espaço no meio da sala de estar; pelo gesso no braço de Dudu, sem prazo para retirada, e pela promessa de um primeiro beijo para André, embora não tenha reais namoros à vista. Helena não está divorciada, ainda que não se sinta completamente casada; nem habita ainda este espaço estranho onde suas coisas estão. O ímpeto do deslocamento através de diversas cenas na estrada, dentro de um carro, simboliza os personagens e o país em transição — mas rumo a quê, exatamente?
A cineasta faz prova de um atento olhar de cronista. Filma com impressionante carinho o tédio destas figuras de comportamento bastante compreensível.
A diretora Anne Pinheiro Guimarães teria muitas oportunidades para construir brigas, desesperos, choros. Afinal, tantas rupturas se prestariam facilmente à catarse. Entretanto, opta por um tom muito mais interessante e delicado. Embebe seu projeto numa melancolia perene, avessa a diálogos explicativos ou emoções exacerbadas. Dieckmmann está excelente neste papel da mulher um tanto embotada, distante, incapaz de pedir ajuda, ou mesmo de reconhecer sua própria angústia. Ela não se abala diante do braço machucado do filho e, apesar de atropelar um cachorro na estrada, volta para recuperar o animal ferido. Nunca o leva ao veterinário (esta não é uma heroína virtuosa, no sentido clássico do termo), apenas o deixa cuidadosamente acomodado num canto da casa, ganindo baixinho. Assim, reconhece sua falha, apesar de não repará-la. Conhecemos bastante da personalidade desta mãe deprimida através da relação com o animal.
Aliás, a cineasta faz prova de um atento olhar de cronista. Junto à impecável fotografia de Pablo Baião, aproveita bem a geografia da cidade, cuja amplitude e silêncio se mostram propícios às sugestões de uma ficção científica. Os autores captam tanto os insetos no pára-brisa do carro quanto os aviões no céu; tanto o garoto nadando com o braço engessado, fora da água, quanto a brincadeira envolvendo bonequinhos dentro do freezer. Filma-se com impressionante carinho o tédio destas figuras de comportamento bastante compreensível — seja aquele das crianças, ou então dos adultos. O notável rigor na composição dos planos, em sua simetria e enquadramentos fixos, reforça a impressão de um local estático, avesso a qualquer perspectiva de mudança. Uma cidade tão bela quanto artificial.
Enquanto isso, o roteiro se dedica a pequenos ritos e gestos cotidianos, o que inclui a passagem à fase adulta (o roubo e reconquista da bicicleta, a primeira experiência com álcool e cigarro), e também a vivência simbólica daquele espaço (o parque de diversões, o cachorro quente de gosto duvidoso). É interessante a escolha da diretora em conduzir a maioria deste percurso por meio de trajetórias paralelas — Helena, André e Dudu possuem seus dilemas autônomos, cruzados de maneira bastante orgânica pela montadora Marília Moraes. Ao mesmo tempo que existem inúmeras ações e atividades por parte do núcleo central, há poucos conflitos propriamente ditos, no sentido de transformarem esta experiência ou indicarem um objetivo preciso para cada um. Por isso, os familiares vivem à constante espera de um objeto indefinido, algo especial em suas vidas — algo materializado, de maneira potente, na ideia dos discos voadores.
É certo que nem tudo funciona a contento nesta experiência. Alguns elementos podem ser questionados aqui — caso da vizinha (Letícia Sabatella), cuja abordagem consiste em repetidas batidas à porta em momentos aleatórios. O próprio figurino caricatural da mesma desperta a atenção. Em paralelo, estranha-se que o sujeito consertando o carro de Helena à beira da estrada (interpretado por Caco Ciocler) revele-se, por acaso, morador temporário do mesmo edifício dela, e par romântico quase imediato (uma conveniência difícil de aceitar). Isso sem falar no pedófilo (Fernando Eiras) que, por fim, representa apenas um adulto infantilizado, em busca de afeto. (Este último, em particular, beira uma condescendência perigosa).


Em contrapartida, os elementos bem executados são tão numerosos que se sobrepõem com facilidade aos aspectos questionáveis. A evidente ternura de Guimarães nunca se confunde com piedade, nem paternalismo em relação à trinca de protagonistas. Ela efetua três belos retratos de personagens, dotados de personalidades complexas, enquanto comprova o bom trato na direção de atores. O elenco infantil está afiadíssimo, bastante natural, inclusive permitindo certo humor de desconforto, promovendo um bem-vindo equilíbrio com a gravidade da mãe. Em especial, o pequeno Lorenzo Mello consegue trabalhar diálogos com desenvoltura incomum para um ator tão jovem. Parece haver uma intuição cênica rara por parte do garoto.
Assim, Pequenas Criaturas encontra soluções criativas e ousadas para seus impasses, preferindo as metáforas ao otimismo forçado, ou o niilismo de um Brasil à deriva. Acredita no senso de comunidade, formada pelos solitários, deslocados, excessivos, nerds, antissociais, num drive-in onde a trupe aparenta constituir os únicos frequentadores. A fantasia (na tela e nos céus) representa essa possibilidade sonhada de fuga para o painel de personagens que, na prática, se vê preso a uma Brasília tão saudosa quanto pouco convidativa. Graças à habilidade em navegar entre o drama e a comédia, e à disposição a abraçar simbologias e fugir de reconciliações óbvias, Guimarães apresenta ao público seu melhor trabalho até o momento.




