20º CineBH | Juventudes em crise

Durante o 20º CineBH, duas sessões consecutivas de curtas-metragens trouxeram, como eixo central, as juventudes desencantadas. Foi curioso assistir, em filmes tão diferentes, a jovens deprimidos, empobrecidos, melancólicos. Nestas tramas, os personagens principais lidam com o sentimento de vazio por meio de antidepressivos, meditação, ou pelas ferramentas da autoajuda. Em comum, traça-se o paralelo de uma solidão masculina sem reparação possível no horizonte.

Todas as Cores que eu Já Senti na Vida (2025), de Bernardo Franco, explora um sujeito anônimo, sem perspectivas de futuro. Ele trabalha como mascote num parque infantil, onde ninguém parece lhe dar atenção. Sonharia em ser um grande profissional da área, entretanto, no atual momento, contenta-se com alguns trocados. Posterga o pagamento do aluguel atrasado, e toca música em casa. Parece dominado pelo tédio, assim como a inércia.

O que mais chama a atenção, no caso, é o teor cômico da empreitada. Mais do que rir com o protagonista, o filme ri do protagonista. Trata-se de um limite ético fundamental: a direção aparenta ridicularizar seu herói, seja pelo roteiro, pela atuação principal, ou ainda pelo deboche evidente da profissão de mascote – retratada de maneira muito mais crítica em outros projetos recentes, como Samuel Foi Trabalhar (2024), de Janderson Felipe e Lucas Litrento. Para o filme de 2025, a dança do mascote equivale, para a mise en scène, a um instante patético.

A zombaria cede espaço ao temor em Recaída (2026). Um sujeito em crise busca apoio num psiquiatra caricatural, que lhe prescreve remédios após escutar duas curtas frases. O paciente chega à conclusão que “a diferença da droga prescrita para uma ilegal é que ela não vem embalada na merda de culpa que eu estou sentindo”. O diretor Samuel Costa investe em simbologias bastante claras: um objeto de vidro cai no chão e se parte, o que motiva a indagação do protagonista: “E quem vai juntar meus cacos?”. Recorre, igualmente, ao Ícaro mitológico para aludir à trajetória de ascensão e queda.

Não bastasse a clareza didática desta exposição, o herói dirige-se ao espectador no segmento final. Começa então uma longuíssima tirada a respeito de crises, recomeços e mudanças pessoas. Ele se vira a uma porção de câmeras imaginárias, tal qual faria em um programa televisivo, completando a si próprio neste jogral de uma pessoa só. Este trecho se assemelha a um vídeo institucional a respeito da saúde mental, do tipo que se encontrava com frequência na TV dos anos 1990.

A melhor proposta, dentro deste registro, encontra-se em Dentro do Meu Peito Mora um Cão (2026). Um garoto deprimido procura diversas soluções para sair de seu estado de torpor: as palavras da melhor amiga, os conselhos da religião, uma gravação de autoajuda trazendo “um recadinho de vida pra você”. Nunca encontra a alternativa correta, entretanto, alcança uma forma de alívio temporário na caçamba de um caminhão, em movimento, sentindo o vento bater no rosto.

Infelizmente, a narrativa ainda recorre a metáforas óbvias e insistentes, a exemplo de todos os filmes desta sessão — vide as incontáveis imagens da placa “Rota de Fuga”, e a música literal sobre gotinhas de remédio para a ansiedade. Mesmo assim, aborda a situação do protagonista (bem interpretado pelo próprio diretor, Gabriel Afonso) pela perspectiva da escuta e do companheirismo. Não caçoa, nem oferece lições de conduta. Apenas se abre à investigação de um problema complexo, que não tem a pretensão de resolver em poucos minutos.

A recusa de oferecer respostas também atravessa Dia dos Pais (2025), de Bernardo Ale Abinader. O cineasta concebe uma família fragilizada pelo abandono do pai, que prefere se concentrar na filha pequena, fruto de uma nova união. O filho (Adanilo) sonha com a vingança e o acerto de contas, impondo-se como figura queer num cenário de exclusão.

Mesmo assim, a violência permanece na esfera da imaginação. Há um caráter terapêutico no dispositivo fantástico, que permite aos protagonistas simularem relacionamentos. Ali, na segurança da realidade virtual, exercitam sentimentos que não poderiam (ou quereriam, de fato) colocar em prática. O realismo mágico se encerra numa chave taciturna, posto que não resolve nada concretamente — apenas atenua sofrimentos irreparáveis.

Diante de um painel tão pessimista desta geração, é um alívio nos deparar com o curta-metragem Andança (2025), de Ben-Hur Nogueira. Neste filme, jovens da periferia sonham em se tornar jogadores de futebol. Recebem o apoio uns dos outros, além da mãe do protagonista, que treina o filho com convicção. Já o jovem pai de gêmeos recebe a ajuda dos vizinhos para cuidar dos bebês.

Aqui, as deficiências de som e fotografia são assumidas pela direção — em oposição ao pretensioso Recaída, com suas imagens em grande angular, ou à fotografia amarelada de Todas as Cores que Eu Já Senti na Vida. Certo, ainda está distante do esmero de produção de Dia dos Pais e Dentro do Meu Peito Mora um Cão.

Mesmo assim, representa uma esperança possível, numa linguagem assumida e orgulhosa da marginalidade. Não oferece nenhuma saída milagrosa — o jovem protagonista jamais se converte num ícone do futebol do dia para a noite. Mesmo assim, aponta a crença na superação via esforço e treinamento.

Aqui, as dificuldades da periferia nunca se traduzem em impeditivos absolutos: o carrinho de bebê sobe e desce escadas com apoio dos vizinhos, e o treino ocorre a partir dos equipamentos à disposição. Ao invés de ignorar os conflitos, o cineasta privilegia a crença em si e o sentimento de luta. Ao contrário de tantos rapazes fracassados, deprimidos, ridicularizados ou alarmantes, este rapaz sonha, e move-se com notável pragmatismo em direção a este sonho.

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