
Em Espaços Prometidos, a urbanidade não funciona a contento. As residências, os comércios e os serviços públicos falham na tarefa de se comunicar com o habitante e suprir suas necessidades mais básicas. No único restaurante aberto do bairro, a proprietária não dá conta de servir os clientes. Vendem-se se apartamentos luxuosos, recém-finalizados, mas já marcados por infiltrações e eletrodomésticos quebrados. Liga-se para um serviço de atendimento ao cliente, que não produz resposta nenhuma. Cria-se uma infinidade de arranha-céus, nesta Camboja de crescimento acelerado, ainda que não exista real demanda para tantas residências. “Quem vai morar aqui?”, questionam-se os trabalhadores da construção civil. Ninguém sabe responder.
Assim, o longa-metragem trabalha com uma noção de arquitetura hostil, e de modernização absurda. O diretor sérvio Ivan Marković aposta nas ironias evidentes desta contemporaneidade: há muitos apartamentos sem gente, e muita gente sem apartamentos. Os trabalhadores da construção passam dias e noites dedicados a locais onde nunca poderão habitar. Na parte da noite, espremem-se em dormitórios abafados e inóspitos. Posto que não dormem bem à noite, ficam sonolentos durante o dia, enquanto operam materiais pesados. Dedicam-se a um ideal de cidade que não parece contemplar ninguém. A primeira e única moradora das torres residenciais descobre-se tomada por uma inesperada solidão, além da falta de recursos ao redor. O município se desenvolve apesar de seus habitantes.
Nada se transforma, do início à conclusão, posto que a inércia humana de uma cidade em constante crescimento constitui a principal ironia do projeto.
É muito curioso encontrar, em um projeto tão concreto, a estética do sonho. Teria sido fácil recorrer ao tom de denúncia, ou então à estética da urgência. Veja que insanidade! Olha só que patético! Entretanto, o autor prefere um tom melancólico, suspenso da realidade. Conforme os operários caminham à noite, incapazes de dormir, e cercados pelas luzes infinitas dos arranha-céus, podemos nos acreditar no cenário de uma distopia de ficção científica. Banhados pelo som potente da chuva, e largados sobre as lajes ainda não finalizadas, assemelham-se aos poucos sobreviventes de uma catástrofe de grandes proporções — os resistentes a um apocalipse zumbi. Os movimentos são lentos, enquanto as falas se rareiam. Afinal, com quem conversariam? Nunca um espaço tão cheio de concreto foi tão vazio de humanidade.
O cansaço dos personagens também produz uma estética particular. Tsai-Ming Liang e Nele Wohlatz são alguns dos cineastas que já exploraram, de maneira bastante expressiva, a fadiga da classe trabalhadora enquanto motor para uma linguagem lânguida, etérea, suspensa. Não há patrões neste filme de trabalhadores, nem supervisores ou gerentes para o condomínio de prédios. Os indivíduos encontram-se largados à própria sorte, repetindo por conta própria os gestos aos quais foram condicionados. Por isso, o silêncio da madrugada, o vazio dos descampados e a amplitude dos edifícios em construção simbolizam certo efeito de entorpecimento. Os homens precisam dormir, porque voltam à construção na parte da manhã. Entretanto, impossibilitados de descansar, movem-se em devaneios, caminham sem rumo, e conversam sem interesse real pelas falas alheias.
Assim, não há um único protagonista em Espaços Prometidos, mas meia dúzia de figuras que se cruzam. Ora, eles nunca se apresentam, nem interagem de fato. Esqueça amores, brigas, ambições, confrontos. Os conflitos, propriamente ditos, estão ausentes deste cenário onde os problemas são crônicos, desprovidos de soluções a curto prazo. A primeira residente, irritada com o ar condicionado quebrado, que volte mais tarde. Ela que espere pela chamada de algum supervisor a respeito das manchas na parede. O operário que encontre onde dormir. Ninguém é problema de ninguém, e Marković encontra na verticalização das cidades um potente símbolo para a individualidade crescente, em paralelo à precarização social. A riqueza produzida por estes empreendimentos jamais retorna aos construtores de tantas paredes e escadas. A geografia se expande, enquanto eles permanecem exatamente onde se encontravam a princípio.


Junto à diretora de fotografia Katharina Hauke, o cineasta demonstra uma capacidade rara de contemplar os personagens no silêncio, na contemplação, na pesada melancolia dos dias idênticos. Foca-se nas roupas do varal, nos pátios amplos e esvaziados, nos canos de esgoto deixados pelos cantos. Observa os rostos intercambiáveis sem piedade, nem desejo de compreender seus sentimentos para além daquilo que transparecem na exterioridade: o suor, a extenuação, a indisposição. Acredita que os seres humanos e as geografias, colocados em pé de igualdade, possam transmitir bastante a respeito da maneira como as sociedades se organizam no século XXI. Foge, desta maneira, aos diálogos explicativos ou otimismos acessórios. Nada se transforma, do início à conclusão, posto que a inércia humana de uma cidade em constante crescimento constitui a principal ironia do projeto.
Ao final, resta uma obra belíssima, tão sucinta quanto confiante no poder das imagens e dos atores. Ao invés de verbalizar a evidente desigualdade de renda, concentra-se no rapaz sem nome, que sobe dezenas de andares do prédio não finalizado até a cobertura, onde a piscina já está concluída. Então, ele mergulha sozinho, diante das luzes da madrugada. Esta piscina não foi feita para ele e, em breve, ele estará proibido de acessá-la. Enquanto isso, abandonado por chefes, familiares, e pelo restante da comunidade, pode usufruir do espaço que ele mesmo ergueu. O homem o faz sem o entusiasmo de Val em Que Horas Ela Volta? (2015), apenas um desalento de quem se joga na água para passar o tempo, para ocupar a existência com algo além da construção. Não há soluções para este filme que, antes de investigar saídas, concentra-se na humanidade dispensada pelos processos de desenvolvimento urbano.




