Uma Bela Vida (2024)

Olhar a morte nos olhos

título original (ano)
Le Dernier Souffle (2024)
país
França
gênero
Drama
duração
97 minutos
direção
Costa-Gavras
elenco
Denis Podalydès, Kad Merad, Marilyne Canto, Charlotte Rampling, Agathe Bonitzer, Karin Viard, Hiam Abbas, Ángela Molina, Xavier Legrand
visto em
Cinemas

A vida e a morte dominam cada minuto deste longa-metragem. A jornada se inicia e se encerra dentro de um hospital, entre ultrassonografias e biópsias. O filósofo Fabrice Toussaint (Denis Podalydès), que conduz a narrativa, suspeita de um pequeno cisto recém-descoberto em seu torso, que pode evoluir para um quadro cancerígeno. Ele mesmo escreveu um livro a respeito do significado de finitude para a população idosa na França. Então, conhece o médico Augustin Masset (Kad Merad), especializado em cuidados paliativos, e preocupado com a dignidade no final da vida.

Como se percebe, a explicação não se mostra particularmente sutil, nem próxima do naturalismo. O diretor e roteirista Costa-Gavras, a partir do livro de Claude Grange e Régis Debray, condensa o máximo de reflexões possíveis a respeito do caráter efêmero dos seres humanos, em conversas didáticas entre o médico e o filósofo — ambos especializados no assunto. A rotina do protagonista importa muito pouco fora desta preocupação única, que monopoliza a integralidade do drama. Por isso, a esposa o encoraja a investigar o tema da morte; o irmão discute sua saúde; o agente organiza discussões a respeito dos idosos. Nenhuma cena escapa ao obsessivo dilema central desta empreitada.

Uma obra simples, despretensiosa em termos de linguagem, porém ambiciosa no que diz respeito à filosofia. O autor tenta transformar a morte em um tema agradável.

Passada a introdução, marcada por uma pedagogia quase injustificável — o filósofo que escreve a respeito da morte desconhece a noção de “metástase” —, o roteiro enfim chega à parte humana que eleva a experiência ao espectador. Vestindo um jaleco, Fabrice começa a entrar em todos os quartos, recebendo poucos questionamentos por parte dos pacientes. Ele acompanha Augustin, presenciando uma sucessão de pacientes em fase terminal, decidindo como querem terminar as suas vidas: no leito ou em casa, com o cachorro ou com familiares, tomando medicamentos ou ignorando-os. Ele se assemelha a um fantasma, um homem invisível, a quem é permitido ver tudo o que deseja, pelo tempo que desejar.

O cineasta se delicia, então, com uma galeria luxuosa de personagens coadjuvantes. Charlotte Rampling, Agathe Bonitzer, Karin Viard, Hiam Abbas e Ángela Molina possuem pequenas participações nestes segmentos quase independentes, que curiosamente privilegiam as mortes de mulheres, face aos médicos predominantemente masculinos. O caráter episódico permitiria, inclusive, que a narrativa se encurtasse ou estendesse a gosto, com a dupla Fabrice-Augustin visitando quantos pacientes quisessem. Em cada visita, proporcionariam uma nova reflexão valiosa a respeito de nossa relação tabu com a morte.

Felizmente, a obra evita o sentimentalismo. Nunca somos convidados a ter piedade pelos personagens doentes, tampouco pelos heróis que os acompanham com tanta gentileza. O diretor evita qualquer dilema moral a estes homens, unicamente carinhosos, generosos, profissionais — uma idealização do comportamento defendido pelo discurso. Mesmo assim, troca lições morais (arrependimentos, declarações de amor, etc.) por discussões mais profundas: a percepção da morte enquanto fracasso para a medicina; as diferentes percepções do término da vida em cada cultura; nossa crescente indiferença face à morte dos outros em genocídios. Embora jamais se aprofunde nestas questões, o texto planta sementes de perguntas fundamentais.

Em paralelo, a narrativa focada na morte não revela um morto sequer. Sabemos de personagens que partem, embora a câmera se recuse a filmá-los. Prefere, assim, que o espectador imagine cada despedida, projetando seu próprio imaginário do luto nestas histórias suspensas. Volta-se, em consequência, às noções de “conquistar a própria morte”, “viver a própria morte” e ter sua morte “roubada pelos médicos”, evocadas em diálogos. A eutanásia e o suicídio assistido, temas que tangenciam as discussões, materializam-se somente no terço final da trama que, até então, prefere refletir em termos mais amplos, menos conotados politicamente. Antes de pensar em como se morre, o drama prefere se confrontar, com simplicidade, à evidência de nossa morte.

Aos protagonistas, cabe diminuir os traços, e minimizar emoções face a uma discussão tão delicada em si própria. Kad Merad e Denis Podalydès se tornam guias, acompanhantes ao espectador, entre leitos e consultórios. Ganham ínfima variação de temperamento, ou curva de aprendizado — esta não é uma trama a respeito de pessoas que se humanizam a partir do contato instrumentalizado com a morte alheia. O médico e o filósofo entram e saem de cena com o mesmo conhecimento e posições prévias a respeito da dignidade humana. Trata-se de uma composição modesta, tímida, sobretudo para dois grandes especialistas no humor e nas variações dramáticas. Aqui, ambos se apagam voluntariamente, para deixar os coadjuvantes brilharem em seus conflitos íntimos face à comprovação do fim.

Esteticamente, o resultado se prova modesto. O cineasta dedica todo o tempo aos close-ups e planos de conjunto de seus atores, confiando nas atuações e no texto. Nenhum recurso de fotografia ou montagem chama atenção para si próprio — Costa-Gavras prefere discutir o tema a representá-lo, imageticamente e em sons. Resta uma discretíssima mudança de luz quando um paciente pede para reencontrar a família, além de problemas graves de montagem. Neste aspecto, saltam aos olhos as falhas de continuidade quando a personagem de Agathe Bonitzer sai da ambulância, e quando o marido de Estrella se despede de Augustin fora do hospital, embora se encontre no interior do quarto segundos mais tarde. A montagem, feita pelo próprio diretor junto a Loanne Trevisan, aparenta ter encurtado a narrativa, encontrando certos obstáculos de lógica.

Resta uma obra simples, despretensiosa em termos de linguagem, porém ambiciosa no que diz respeito à filosofia. O autor tenta transformar a morte em um tema agradável, algo bastante difícil em nossos tempos insensíveis, quando preferimos virar o rosto a uma questão desinteressante. (Quem se lembra do fracasso recente de Câncer com Ascendente em Virgem nas bilheterias?). Ele o consegue através da materialização destes protagonistas-anjos (excetuando o caráter religioso do termo), que vigiam os demais. Aposta num cinema humanista, capaz de discutir a morte enquanto conceito, embora nunca esteja disposto a filmá-la. Assim, evita o espetáculo da chantagem emocional, posicionando-se num distanciamento raro para tal discussão. Este filme pequeno e discreto possui mais méritos do que se perceberia à primeira vista.

Uma Bela Vida (2024)
7
Nota 7/10

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