
Vinte e dois anos após o original, Tess (Jamie Lee Curtis) e Anna (Lindsay Lohan) mudam de corpo mais uma vez. Tem sido interessante acompanhar as marcas que os estúdios decidem ressuscitar, décadas após o original, sob pretexto de nostalgia. Beetlejuice, Um Tira da Pesada, A Convenção das Bruxas, Abracadabra e Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado acabam de ganhar luz nova. Da Magia à Sedução, Conan, Robocop e Amityville estão entre os próximos anunciados. Os produtores preferem vasculhar fundo no catálogo das empresas a se aventurarem pela pilha de roteiros novos.
Como manda a regra das sequências, Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda aumenta o número de personagens (mas também poderia tê-los deslocado para um cenário paradisíaco; ou ambos). Agora, a troca ocorre numa ciranda de quatro mulheres: Tess e Anna assumem o corpo da filha/neta e da futura enteada, enquanto as estudantes, que se detestam, adquirem a identidade da mãe e da avó. Basta encontrar uma vidente de poderes duvidosos (a sempre hilária Vanessa Bayer) para disparar uma frase misteriosa. Elas sentem um tremor de terra, e está feito o feitiço. No dia seguinte, não se reconhecem no espelho, gritando diretamente para a câmera, em alusão ao original (as referências também compõem a lista de itens indispensáveis às continuações).
As comédias de troca de corpo supõem que existam limitações à subjetividade, e que o indivíduo deve se conformar ao grupo ao qual pertence, caso não queira ser ridicularizado.
As comédias de troca de corpos costumam sofrer de inconsistências que se reproduzem no filme dirigido por Nisha Ganatra. Com a transposição do corpo, o que ocorre aos sotaques? À capacidade mental? Ao apetite, às preferências? Lily (Sophia Hammons) teoricamente abriga a alma de uma mulher idosa dentro do si. De imediato, ela corre muito lentamente na pista de atletismo da escola, imitando a mobilidade esperada de Tess. Nas cenas seguintes, comemora o fato de ter joelhos excelentes e disposição infinita. Afinal, a habilidade para a corrida é “transmissível” ou não? O corpo se habitua à nova identidade? Por que as garotas mantêm os sotaques de origem, se a cultura está associada à vivência?
Questões de lógica são dispensadas em nome da diversão. Pouco importa, de fato, o que se transfere ou não. O humor decorre somente da improbabilidade de testemunhar uma adolescente se queixando de dores na lombar, em paralelo a uma mulher idosa vestida como uma garotinha. Rimos porque sentimos que as pessoas estão fora de suas funções sociais, agindo como não deveriam. No fundo, as piadas familiares decorrem de certo escárnio em relação a quem rompe com as regras. Como você ousa se comportar assim? O mesmo vale para as trocas de corpo envolvendo homens e mulheres, tão frequentes quanto os câmbios intergeracionais. Ri-se de homens que não agem como homens, e de mulheres que não agem como mulheres, porque estes projetos partem do princípio que existe uma maneira correta de ser, estritamente ligada à sua biologia.
Por isso, filmes do gênero — e isso vai muito além de Sexta-Feira Mais Louca Ainda — carregam um componente amargamente preconceituoso, mesmo transfóbico (e, neste caso, etarista). Supõem que existam limitações à subjetividade, e o indivíduo deva se conformar ao grupo ao qual pertence, caso não queira ser ridicularizado. Imaginam que haja grupos opostos, simétricos e excludentes — ou você é homem, ou é mulher; ou é jovem, ou é maduro. Por isso, sem surpresas, grande parte das piadas decorrem das situações em que mulheres adultas se sentam no chão, colocam maquiagem demais, falam alto, se conduzem de maneira irresponsável, porque mulheres sérias não agem assim.
Jamie Lee Curtis demonstra uma disposição bastante sincera em brincar com sua idade. Ela faz piadas citando a pele flácida, a necessidade de ir ao banheiro sempre, a flatulência ao se abaixar. Trata-se basicamente do humor da inadequação. Por isso, os finais precisam trazer o alívio de reposicionarem as personagens de volta ao papel previamente ocupado, para que, traumatizadas, aprendam a se contentar com as regras impostas. Este tipo de cautionary tale já existia pelo menos desde 1914, em comédias queer e profundamente transfóbicas, a exemplo de A Florida Enchantment. Na trama, homens se tornam mulheres, e vice-versa, devido a uma semente mágica. Depois, acordam assustados, repudiando o que chamam de “pesadelo horrível”. Continuamos promovendo o mesmo tipo de risos, 111 anos mais tarde.
Pode se esperar o dia que realizadores trans, ou pelo menos, cineastas ousados, se apropriarão do subgênero da comédia-de-troca-de-corpos para a proposição de algo radical, incisivo em relação à conformidade social. Étienne Chatiliez tentou algo nesta direção em Agathe Cléry (2008), comédia a respeito uma mulher racista que acordava negra, enquanto forma de “punição”. Obviamente, a empreitada não deu certo. Esta simetria espelhada (opondo uma figura ao que se percebe como seu inverso) serve facilmente a sublinhar estereótipos. Brinca-se com os clichês para reafirmá-los, não destruí-los.


Retornando à sexta-feira mágica, lúdica e juvenil da Disney, a empreitada soa modesta enquanto gesto criativo, e ambiciosa enquanto iniciativa comercial. Deseja-se brincar com a disputa entre adolescentes e mulheres maduras, entre americanas e britânicas, entre garotas masculinizadas e meninas feminilizadas. Inúmeras passagens consagradas de outras comédias são “emprestadas” aqui: a colagem rápida com a heroína provando vários figurinos, à la Uma Linda Mulher; a protagonista atrapalhada que deixa os livros caírem no chão, recebendo a ajuda de um belo moço que se apaixona por ela de imediato; a tentativa de dublagem no palco ao vivo, nos moldes de Cantando na Chuva.
As atrizes aparentam se divertir de fato com a proposta que serve, uma vez mais, a promover uma fábula de conciliação. A partir deste filme, e de outros semelhantes, os criadores sugerem que podemos nos dar bem juntos, apesar de nossas diferenças fundamentais. Pretendem vender união e fraternidade, enquanto reforçam estas pretensas incompatibilidades insuperáveis. Durante os erros de gravação, apresentados nos créditos finais, percebe-se como a equipe gargalha ao longo de tantas cenas de humor físico e piadas de inadequação. São risos genuínos, que contribuem ao teor feel good movie buscado pelos criadores. As atrizes e a diretora alcançam o efeito desejado, demonstrando conforto neste registro. No entanto, paira a sensação de um discurso anacrônico, ao sugerir que devemos tolerar o outro porque ele não pode ser algo distinto do que o seu corpo prevê, e porque nunca será igual a nós. Trata-se de um humor da condescendência, ao invés da empatia.




