Olivia Hernández, Guilherme Bacalhao e Gabriela Correa. Foto: Rai do Sol / Divulgação
Olivia Hernández, Guilherme Bacalhao e Gabriela Correa. Foto: Rai do Sol / Divulgação

Pacto da Viola | Um filme sobre tradição e modernidade no sertão mineiro

Em 7 de agosto de 2025, chega aos cinemas Pacto da Viola, dirigido por Guilherme Bacalhao. A trama acompanha Alex (Wellington Abreu), homem que saiu da pequena cidade onde nasceu para tentar a carreira como músico sertanejo. Quando os planos fracassam, ele retorna à sua terra, e descobre que o pai, um respeitado Capitão da Folia de Reis, pode ter feito um pacto com o diabo para conquistar o sucesso. Alex cogita seguir o mesmo caminho, enquanto reencontra Joyce (Gabriela Correa), jovem local que testemunha os avanços predatórios do agronegócio.

O filme partiu de pesquisas sobre a Folia de Reis e a importância da viola, baseadas no estudo do antropólogo Luzimar Pereira. Pacto da Viola venceu o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília, além do troféu de melhor longa-metragem no Festival Cordillera de los Andes. Ele também foi exibido em festivais na Espanha, Rússia, México e Inglaterra, entre outros.

Em entrevista ao Meio Amargo, Bacalhao, Gabriela Correa e a diretora de som, Olivia Hernández, explicam como fizeram uma filme naturalista flertando com o sobrenatural, em diálogo com as raízes brasileiras:

Existem diversos filmes sobre pactos com o diabo em nome do sucesso. De que maneira Pacto da Viola dialoga com essa tradição?

Guilherme Bacalhao: Tem uma tradição gigante, desde Fausto. Mas é interessante, porque não temos uma conexão direta com estes mitos. Urucuia (MG) não tem nada a ver com Robert Johnson, por exemplo, mas remete a este imaginário envolvendo o diabo e Deus. O diabo pode estar nas pequenas coisas: uma porteira fechada, que a gente encontrou na pesquisa, pode ser lida como uma manifestação do diabo tentando atrapalhar a Folia. A gente tentou trabalhar bastante esta chave entre o que pode ser, ou pode não ser. A cobra no boi pode representar o diabo ali, por todo o significado atribuído às cobras, desde a Bíblia. Mas também pode ser apenas uma cobra naquele lugar. O que a gente tentou trazer para o filme foram essas camadas, de maneiras menos deterministas, menos duais. As coisas podem ser explicadas pela fé, ou não. A representação do diabo no filme começa em tom de brincadeira, dialogando com a cultura popular e oral, mas termina mais forte.

O diabo pode estar nas pequenas coisas. A cobra no boi pode representar o diabo, mas também pode ser apenas uma cobra.

Que familiaridade vocês tinham com esse lugar e essas crenças, para comporem tanto o desenho de som quanto a Joyce?

Gabriela Correa: Eu sabia muito pouco sobre a tradição da viola. Só sabia que tinham lendas de pessoas que negociam para tocarem bem. Mas eu cheguei no Urucuia interessada em descobrir tudo sobre aquela realidade. Foi ótimo. A gente sempre pontuava que a Joyce tem uma leveza e, por isso, serve de contraponto ao Alex, que estava sempre numa densidade muito grande, devido ao pai doente, às dúvidas sobre carreira. Já ela estava numa pulsão de expansão, pensando em sair dali. Acho que a narrativa manipula bem essas essas tensões entre crença e a descrença. A Joyce entra nessa narrativa simbolizando a juventude com acesso a muitas informações, e disposta a viver tudo ao mesmo tempo. Não acho que seja num lugar de desrespeito, nem de contestação. Mas ela tem muita deferência. Uma imagem muito forte que eu tenho dela é do horizonte — ela está sempre olhando pro horizonte, pensando que existem coisas além. Eu acho muito brasileira esta relação espiritual sincrética. Por mais que você não seja praticante de nada, acender uma velinha nunca faz mal, né? Isso atravessa todos os personagens do filme.

Olivia Hernández: Sobre o som, precisamos levar tudo isso em consideração, porque foi filmado de maneira naturalista. E eu fiz parte também da captação de som: estava junto em Urucuia, vendo a construção do filme. Então colocar algo muito fetichista, como se encontra de costume no suspense e no horror, não combinaria com o que a gente tinha feito. Ao mesmo tempo, era preciso criar uma tensão, para despertar a dúvida se o diabo estava chegando ou não. Optamos pelo caminho do naturalismo. Gravei muita coisa da região do Urucuia, com muitos pássaros e ambientes sonoros. A ideia foi usar tudo isso para criar uma identidade sonora com elementos naturais. Desde o início, o filme foi pensado como um documentário. Inclusive, vários atores não eram profissionais. Quando se determinou que o diabo seria uma cobra, a gente pensou se teria som ou não, para cumprir com este naturalismo.

Isso me leva à pergunta sobre a concretização do sobrenatural. Como foi determinado o que precisaria ser mostrado, e o que era melhor ocultar no filme?

Guilherme Bacalhao: Quando você conversa com um Capitão de Folia ou um contador de história, você pode perguntar de maneira direta: “Para você, o diabo existe?”. Ele primeiro vai negar, porque, afinal, admitir a existência dá força para que o Diabo atue perto de você. Então, você nega como uma forma de afastar. Depois, ele vai te contar uma história de meia hora, provando que o diabo existe. Ele mostra as coisas que aconteceram, e você tira a sua conclusão. “É isso que o povo diz”. Foi um desafio transpor isso para o filme também, porque é tão concreto quanto abstrato. Como você trabalha a dúvida em linguagem audiovisual? A relação do Alex com o pai também fica em aberto. A gente não sabe exatamente a origem do problema, e não sabe quando ele foi embora, porque isso não é o principal. O foco está nos sonhos dele. Assim como a Joyce quer ir atrás da música, ele também saiu atrás do sucesso, mas nunca se libertou da herança do pai. Mesmo quando o Alex sai, ele segue o caminho do pai, que era um grande violeiro. Alex tenta crescer e construir o seu espaço, mas volta e permanece preso à herança familiar. A relação com o pai é tensionada. Existe amor, mas este pacto coloca tudo em risco. O personagem está frágil, e só cresce quando faz o pacto. De alguma forma, o diabo chama ele.

Gabriela Correa: Algumas pessoas me perguntaram se era um filme de terror. Respondi que não exatamente. Mas ele trabalha com a temática sobrenatural. Por causa do pacto com o diabo, muitas pessoas associam ao terror, mesmo que essa nunca tenha sido a nossa intenção. E o suspense pode ser complexo também, não é só susto. Em alguns momentos, o filme tem uma densidade que pode deixar a gente desconfortável. Não é necessariamente medo, mas entra debaixo da pele, sabe?

Guilherme Bacalhao: Agora, na exibição em Brasília, uma pessoa do público falou isso: “Nossa, eu senti uma agonia o filme todo, uma opressão”. Quando a gente passou lá em Moscou, falaram a mesma coisa, a respeito da Joyce.

Algumas pessoas me perguntaram se era um filme de terror. Respondi que não exatamente. Não é necessariamente medo, mas entra debaixo da pele.

De fato, o filme passou em vários festivais mundo afora. Como os espectadors perceberam estas crenças tão brasileiras?

Guilherma Bacalhao: Na Rússia, por exemplo, as perguntas giraram muito em torno dessas crenças. Queriam saber da relação entre campo e cidade no Brasil. No México, chamou atenção a questão da migração, que é muito forte por lá. Discutiram a decisão de sair do local de origem, em busca de algo melhor. Na Bélgica, falaram mais sobre a relação familiar. Queriam saber do pai, do filho, da tia — sobretudo esta figura feminina tão presente. Afinal, ela é uma irmã, mas tem quase um papel de esposa. Ela é uma referência, é quem você chama para resolver os problemas. O filme se foca numa realidade masculina de pai e filho, mas as mulheres dominam os saberes, são as figuras de autoridade.

Gabriela Correa: Eu acho interessante que o filme tensione cidade e campo, futuro e tradição, vida e morte, crença e descrença. São temas muito fortes para todos os personagens.

Olivia Hernández: Tenho percebido algo nos debates do filme em que participei, especialmente com a plateia de Minas Gerais, porque esta tradição é bem forte no Estado. As pessoas ficaram muito emocionadas com a apresentação dessa cultura de Folia de Reis, que não é muito vista no Brasil. Eram pessoas que conheciam aquele universo, estavam em seu lugar de fala. Ficaram muito emocionadas porque sentiram que a tradição estava representada com tudo: os costumes, os medos, o diabo, enfim.

Tenho a impressão de que nossos filmes brasileiros mais potentes e ousados, hoje, são aqueles que recorrem à fantasia.

Guilherma Bacalhao: Sim, a fantasia trabalha em outro plano — um plano inconsciente de percepção da realidade. Ela proporciona a liberdade para acessar as dúvidas, os contrastes, os medos. São temáticas que fazem a conexão com outra memória nossa, enquanto brasileiros. Por mais que a população de Pacto da Viola seja muito urbana, existe algo que chama a atenção. Eu mesmo sou urbano, mas nas minhas idas para o interior, lembro do meu avô contando histórias baseadas nas mitologias. Era meio mito, meio crença. Isso me dava um certo medo. Eu não sabia se era real ou não, mas, ao mesmo tempo, era meu avô contando, e para mim, meu avô não iria mentir. Então a fantasia opera neste campo intermediário interessante.

Olivia Hernández: Por exemplo, no Maranhão, se você tomar café quente, tem que ficar um tempo sem falar, porque dizem que aí o ar frio vai entrar lá dentro, e você pode passar o mal, porque tem uma mudança de temperatura. Já escutei coisas bem singulares de cada região.

A fantasia e as abstrações servem para pensar uma possibilidade de mundo, já que a realidade não basta.

Guilherma Bacalhao: Exatamente. Na Paraíba, por exemplo, falam muito sobre uma cobra, e se você estiver amamentando, esta cobra mama no peito da mulher enquanto bota o rabo no na boca da criança para ela não chorar. As pessoas ficam com uma aflição, contam isso com detalhes, dizem que viram, juram que aconteceu. Isso vale para a própria Folia. Quando a gente estava pesquisando esse universo, ouvimos falar do Livro do Oriente, cheio de rezas para o bem e para o mal. Eu fiquei muito curioso, mas todo mundo dizia: “Eu não tenho, mas fulano tinha. Não tenho, mas eu já vi”. E no final, ninguém tem. Conversei com um antropólogo, autor do artigo que serviu de origem para o filme. Ele me falou: “Eu já revirei tudo — esse livro não existe”.

Gabriela Correa: A gente tem uma tradição muito séria de cinema documental, de deixar a câmera rodando e nos concentrar na realidade. Acho muito interessante ver como a fantasia e as abstrações servem para pensar uma possibilidade de mundo, já que a realidade não basta. Nossa realidade é tão complexa que a gente não está conseguindo pensar politicamente o Brasil sem abstrações, sem poesia, ou sem recorrer aos recursos do tipo. A gente só ganha com o recurso à fantasia.

Como vocês enxergam esse momento para o lançamento de Pacto da Viola nos cinemas?

Guilherma Bacalhao: Tem uma questão da temática que é muito atual. Falo desta expansão do agronegócio, com a questão dos tarifaços, e de como isso vai impactar a agroindústria no país. O filme, de alguma forma, também tem uma camada política, porque fala deste sertão em transformação. É uma realidade difícil de de reverter, eu nem sei se seria este o caminho. Mas as mudanças no sertão colocam em cheque o ambiente onde essas fabulações existem. Elas colocam em cheque aquela cultura. Obviamente, não acredito que a Folia esteja acabando, porque ela é muito forte. É um elo que une a comunidade, e não está vinculada a nenhuma igreja específica. Então, tocar nessa questão do campo traz uma camada política, stritu sensu. Sobre o lançamento (e aí falo não apenas do Pacto), entra aquela velha dificuldade que é a distribuição do filme no Brasil. A gente até consegue produzir, mas tem uma dificuldade de exibir. E isso não pode ser atribuído só às obras: é uma questão de políticas públicas que precisam ser melhor pensadas para enfrentar os grandes lobbies. Existem grandes empresas atuando com muito dinheiro — é uma forma de cinema industrial, enquanto a gente faz cinema artesanal.

O filme fala deste sertão em transformação. As mudanças colocam em cheque o ambiente onde essas fabulações existem.

Gabriela Correa: Eu acho que o cinema nacional está cada vez mais simpático aos olhos de quem não faz cinema. Às vezes eu chamo minha mãe para ver algum filme que eu fiz, e ela convida as amigas dela. Eu penso: “Qual seria a chance de elas assistissem a esse filme?”. Então elas saem falando: “Adorei, eu vou chamar outras pessoas”. O problema não é a falta de vontade das pessoas. Precisamos realmente chegar nelas, precisamos de uma estrutura viável para elas descobrirem o nosso cinema. Ao mesmo tempo, não tendo mais uma tragédia política como foi o governo Bolsonaro para o cinema nacional, acredito que a gente vai chegar lá.

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