
O curta-metragem explica rapidamente o significado do seu título. Os “troncos velhos”, segundo as comunidades indígenas de Tapeba (Caucaia), Jenipapo Kanindé (Aquiraz), Tremembé (Almofala) e Kanindé (Aratuba), representam os antepassados, aqueles que transmitiram a cultura e conhecimento às gerações seguintes. Constituem as raízes, e também um horizonte em nome do qual lutam para preservar suas terras e direitos, face à ganância do empresariado.
A diretora Rosane Gurgel se concentra em mulheres líderes, seja na condição de cacique ou pajé. Assim, permite compreender algumas autoridades femininas dentro de uma estrutura que também tende a valorizar o masculino, como de praxe entre os “não-índios” (termo que a protagonista prefere ao tradicional “branco”). Por isso, apresenta, desde o pressuposto, um ponto de vista singular em relação a tantos documentários que pretendem valorizar o modo de vida dos povos originários.
Adaptando o formato original da série ao curta-metragem, as personagens explicam, de maneira bastante didática, que o Brasil nunca foi “descoberto” pelos portugueses, e sim invadido; o fato que estas terras possuem dono, e que ninguém cuida tão bem da natureza quanto estas gerações de famílias dedicadas aos rios, águas e animais. Não estranharia que a iniciativa, financiada pela Secretaria dos Povos Indígenas do Governo do Ceará, tivesse como objetivo a exibição em escolas e demais aparatos educativos do Estado.
É possível que, diante deste caráter “oficial”, a cineasta tenha optado por uma sobrecarga de imagens aéreas via drones, além de uma trilha sonora quase ininterrupta (é engraçado como o silêncio se tornou inimigo mortal da concentração contemporânea). Em paralelo, alguns recursos de passagem de tempo resultam mais apropriados às peças institucionais do que cinematográficas — caso das diversas imagens de crianças sorridentes, às vezes em câmera lenta, significando o futuro e o otimismo.
Outros elementos estéticos merecem questionamento: seja o som estourado das folhas na reta final, ou a representação de um ritual inserido numa tela-dentro-da-tela, com as bordas brancas, sem motivo aparente. Os produtores aparentam ter driblado algumas dificuldades de produção no intuito de valorizar mensagens como “A natureza e a terra é a beleza de tudo”, proferida por uma das mulheres em cena.
No final, Troncos Velhos se torna tão funcional, enquanto mensagem visando a conscientização do público, quanto inofensivo em termos de linguagem cinematográfica. Uma barreira essencial do cinema a respeito de culturas e tradições alheias ainda reside nesta compreensão do respeito enquanto mínima inventividade ou ingerência da direção.
Ora, alguns dos filmes mais consagrados do cinema brasileiro, sempre transmitidos em escolas (Ilha das Flores, Carlota Joaquina, Princesa do Brazil) são conhecidos precisamente pela estética arrojada, pela linguagem única e nada acadêmica. Precisamos superar a ideia de que, no caso da educação, o conteúdo poderia (ou deveria) ser colocado acima da preocupação com a forma.




