Espelho Azul (2025)

Celular é crack

título original (ano)
Espelho Azul (2025)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
15 minutos
direção
Elizeu Gonçalves Mol, Carlos Gomes
elenco
Dyene Reis, Rayssa Schwartz, Roberto Yorkel, Ronaldo Mafra, Toni Marques
visto em
8ª Mostra de Fama (2025)

Às vezes os críticos de cinema insistem que, menos importante do que o tema ou a mensagem de um filme, seria a maneira como estes são retratados em tela. Em outras palavras, a forma, para além do conteúdo. Muitos criadores justificam suas obras pela importância do discurso: “É importante falar sobre isso”, “É uma questão urgente/necessária”, etc. Dificilmente se questiona a relevância das intenções, mas as formas como elas são concretizadas em tela.

Este pensamento vem à mente diante do curta-metragem Espelho Azul, dirigido por Elizeu Gonçalves Mol e Carlos Gomes. Os cineastas desejam alertar a respeito do nosso vício contemporâneo em telefones celulares. Concentram-se na população idosa, facilmente captada pelos vídeos rápidos e divertidos. Por isso, decidem criar um grito de alerta contra tal dependência, na forma de uma fábula de educação através do medo — uma cautionary tale.

Por isso, é preciso retratar o uso de telefones celulares da maneira mais grave e intensa possível. Imediatamente assim que recebe seu primeiro aparelho, o personagem principal (interpretado, estranhamente, por três atores revezando-se no papel) se torna dependente. Passa dias e noites rindo diante do aparelho, de modo que se esquece dos filhos e da vida ao redor. Não se trata de um processo gradual, muito pelo contrário: os personagens são praticamente abduzidos pelo celular.

O filme repete, então, as cenas em que os homens riem sem parar diante da tela. Os vídeos engraçados constituem, sem dúvida, parte importante da atração. Mas que outros conteúdos consomem? Mensagens políticas? Conteúdo de desinformação? Mentira, fake news e outras produções que geram dopamina devido à indignação, à ansiedade, ao medo? Nada disso permeia o roteiro, que se atém aos risos. Os diretores nem mesmo mostram a tela para percebermos a gravidade do audiovisual consumido. 

Ainda mais curiosa é a única consequência encontrada pelo curta-metragem para denunciar a dependência: o consumo de comida de baixa qualidade. Ao se converterem em zumbis diante do aparelho (que jamais emite nenhum som, prejudicando a verossimilhança), eles passam a comer salgadinho e comida de rua. Os filhos adultos reclamam que a janta não está pronta, e que serão obrigados a comerem no restaurante ruim da vizinhança. Ora, estes adultos não podem cozinhar por conta própria? Ou provarem um restaurante melhor? Por que o homem idoso seria responsável pela boa alimentação alheia?

Esteticamente, o resultado se prova bastante fraco, por não perceber a simplicidade de sua fábula maniqueísta. O curta-metragem se conduz com a gravidade e seriedade das imagens de pulmões necrosados no verso dos maços de cigarro, ignorando que o aspecto quase fantástico desta possessão por telefone celular se encontra mais próxima da comédia do que da conscientização social. Da mesma forma, soa tragicômico o “exorcismo” dos homens que magicamente retornam ao pomar, uma vez livres deste mal.

Ao final, os diretores partem de uma constatação válida a respeito de nossa relação com os dispositivos celulares. No entanto, a forma encontrada para emitir seu grito de alerta se mostra tão desajeitada que nunca leva a reflexão, posto que nos oferece uma mensagem pronta a respeito do que fazer e não fazer, do que comer e não comer. Jamais se investiga de que maneira este fenômeno começou, por que ele atingiria a população idosa com maior intensidade, nem as maneiras plausíveis de romper com a dependência. Somente se grita: a dependência de celulares é nociva. Alguém ainda não sabia disso?

PS: A autodeclaração, nas legendas, a respeito de um filme “experimental” é totalmente infundada. Nada em Espelho Azul o definiria dentro das pesquisas estéticas e de linguagem do cinema experimental.

Espelho Azul (2025)
2
Nota 2/10

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