
Dois garotos se provocam na escola. Querendo provar sua força e masculinidade ao outro, combinam uma briga num estacionamento ao lado. O acerto de contas entre homens já foi contado inúmeras vezes no cinema hollywoodiano, porém, mesmo nos casos brasileiros, jamais atingiu a forma de representação vista em Pequeno B.
Na animação, o diretor Lucas Borges incorpora este imaginário à realidade bastante palpável de um bairro de baixa renda. Com evidente conhecimento destas ruas, escolas e casas, ele desenvolve ótimos espaços que valorizam o grafite nas ruas, a rotina da mãe costureira, o jogo do bicho pelos bairros. Mesmo o local da briga está distante de qualquer idealização de um palco empolgante. Diante dos potenciais lúdicos da animação, o criador possui os pés fincados no real.
Essa base se prova particularmente valiosa, já que a aventura do herói se confronta ao imaginário dos filmes de lutas marciais — mais um registro distante da representação das periferias. Ele adora mestres de kung fu, pratica a luta com espadas, e consome filmes ligados ao blaxploitation, graças à influência do tio. Assim, a cultura das ruas tipicamente brasileira se encontra com um imaginário das lutas orientais.
Embora os traços dos personagens sejam simples, a escolha de cores, luzes e sombras está longe do simplório. Borges efetua trabalha em distintos tons de bege, e sabe exatamente quando ocultar parte do enquadramento para sugerir tensão ou mistério. A utilização do sombreamento cria uma rica textura à animação, que ainda acena, a partir do desenho em estilo manual, à identificação imediata com a cultura negra (o black do garoto não deixa de remeter a uma representação animada do próprio cineasta).
Restam utilizações muito interessantes da linguagem cinematográfica: uma vez que Pequeno B se mostra pronto para a luta, ou particularmente afetado pelas provocações, a janela da imagem passa ao formato mais estreito do scope, como se o menino espremesse olhos de irritação. Interessa que o cineasta pense as janelas e a composição da imagem de modo tão maduro.
Talvez a luta, em si, se mostre bastante modesta e rápida, permanecendo aquém do poderoso enfrentamento sugerido pelo roteiro. Alguns detalhes chamam atenção, a exemplo da grafia do título (claramente inspirado no grafite), que dificulta a compreensão deste nome. Trata-se de pequenos pontos em uma obra bem pensada para seu porte, que ainda reserva uma bela alusão ao poder das mães na conclusão. O menino está cercado de afeto e compreensão, apesar de seu caráter rebelde. A visão de uma periferia esforçada, amorosa e repleta de cultura (cinéfila, inclusive) constitui uma das forças do curta-metragem.



