Pequeno B (2025)

A boa luta

título original (ano)
Pequeno B (2025)
país
Brasil
linguagem
Animação
duração
14 minutos
direção
Lucas Borges
elenco
RT Mallone, Samir Hauaji, Carol Gerhein, Erik RK, Gabriel de Oliveira, Marcella Victer, Rodrigo Mangal
visto em
8ª Mostra de Fama (2025)

Dois garotos se provocam na escola. Querendo provar sua força e masculinidade ao outro, combinam uma briga num estacionamento ao lado. O acerto de contas entre homens já foi contado inúmeras vezes no cinema hollywoodiano, porém, mesmo nos casos brasileiros, jamais atingiu a forma de representação vista em Pequeno B.

Na animação, o diretor Lucas Borges incorpora este imaginário à realidade bastante palpável de um bairro de baixa renda. Com evidente conhecimento destas ruas, escolas e casas, ele desenvolve ótimos espaços que valorizam o grafite nas ruas, a rotina da mãe costureira, o jogo do bicho pelos bairros. Mesmo o local da briga está distante de qualquer idealização de um palco empolgante. Diante dos potenciais lúdicos da animação, o criador possui os pés fincados no real.

Essa base se prova particularmente valiosa, já que a aventura do herói se confronta ao imaginário dos filmes de lutas marciais — mais um registro distante da representação das periferias. Ele adora mestres de kung fu, pratica a luta com espadas, e consome filmes ligados ao blaxploitation, graças à influência do tio. Assim, a cultura das ruas tipicamente brasileira se encontra com um imaginário das lutas orientais.

Embora os traços dos personagens sejam simples, a escolha de cores, luzes e sombras está longe do simplório. Borges efetua trabalha em distintos tons de bege, e sabe exatamente quando ocultar parte do enquadramento para sugerir tensão ou mistério. A utilização do sombreamento cria uma rica textura à animação, que ainda acena, a partir do desenho em estilo manual, à identificação imediata com a cultura negra (o black do garoto não deixa de remeter a uma representação animada do próprio cineasta).

Restam utilizações muito interessantes da linguagem cinematográfica: uma vez que Pequeno B se mostra pronto para a luta, ou particularmente afetado pelas provocações, a janela da imagem passa ao formato mais estreito do scope, como se o menino espremesse olhos de irritação. Interessa que o cineasta pense as janelas e a composição da imagem de modo tão maduro.

Talvez a luta, em si, se mostre bastante modesta e rápida, permanecendo aquém do poderoso enfrentamento sugerido pelo roteiro. Alguns detalhes chamam atenção, a exemplo da grafia do título (claramente inspirado no grafite), que dificulta a compreensão deste nome. Trata-se de pequenos pontos em uma obra bem pensada para seu porte, que ainda reserva uma bela alusão ao poder das mães na conclusão. O menino está cercado de afeto e compreensão, apesar de seu caráter rebelde. A visão de uma periferia esforçada, amorosa e repleta de cultura (cinéfila, inclusive) constitui uma das forças do curta-metragem.

Pequeno B (2025)
7
Nota 7/10

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