Márcia Antonelli: Das Palavras à Sobrevivência (2025)

Reflexões de uma transcritora

título original (ano)
Márcia Antonelli: Das Palavras à Sobrevivência (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
15 minutos
direção
Mariellen Kuma
visto em
8ª Mostra de Fama (2025)

A narração em off desperta estranhamento desde as primeiras cenas. Não se trata de uma conversa oral comum, pelo contrário, os termos são cuidadosamente escolhidos, em estilo mais pertinente ao registro literário. Descobre-se então que foram extraídos das publicações de Márcia Antonelli, transcritora de Manaus. A artista retrata, em sua obra, os anseios, os sonhos, o preconceito e os desafios de uma vivência transfeminina na região Norte do país.

A diretora Mariellen Kuma aposta numa combinação entre o documentário tradicional, apoiado em entrevistas com a protagonista, e uma encenação lúdica, avessa à intenção de verossimilhança. Ela convoca uma maioria de atores e atrizes trans para interpretarem Márcia e as pessoas encontradas em seu caminho — inclusive seus detratores. Cria-se um atrito curioso diante da imagem de atores trans interpretando homens cis, em demonstrações de transfobia contra a atriz central.

Em paralelo, a cineasta transforma Márcia Antonelli: Das Palavras à Sobrevivência num filme-processo, mistura de representação e homenagem, na qual o documentário comporta seu próprio making of. Por isso, coloca a equipe em cena e apresenta com clareza a maioria de pessoas trans atrás das câmeras — para garantir a legitimidade do gesto e assegurar a coerência com a abordagem proposta. Sem dúvida, é ótimo nos deparar com a rara imagem de diversos profissionais transfemininos e transmasculinos do audiovisual. A própria filmagem constitui um objeto de estudo metalinguístico da obra.

Talvez este misto de sinceridade e humildade do filme-dentro-do-filme produza algumas cenas um tanto ingênuas. “Márcia, eu te agradeço por participar deste documentário”, afirma a cineasta, diante das câmeras. A admiração da equipe por sua heroína está suficientemente clara ao se criar um filme para dela. Por isso, dispensaria estes artifícios que terminam por vangloriar os criadores por sua iniciativa, ao invés de valorizarem a escritora. Cada momento destinado a explicar ao espectador suas intenções equivale a um momento a menos com foco em Márcia e sua arte.

Mesmo assim, o resultado se mostra ágil, eficiente, e esperto ao compreender que a vivência da autora pode se espelhar naquela de tantos jovens que compõem a parcela fictícia do projeto. Através das encenações simbólicas, Márcia passa o bastão aos jovens cineastas, servindo de guia e exemplo aos demais. Enfim, começamos a perceber as vivências trans por uma perspectiva intergeracional — sinal de que temos figuras inspiradoras do universo trans, tornando-se devidamente (re)conhecidas e envelhecendo junto à comunidade. 

Por este motivo, a conclusão, que revela a certidão de nascimento contendo a correção do gênero de Márcia, coroa o valor da empreitada. Trata-se de respeito e cidadania. Em outras palavras, o modo como a escritora se coloca no mundo jamais deixa de constituir um ato político em si próprio. O fato de termos tantas pessoas trans fazendo cultura, ocupando as ruas, inspirando-se umas nas outras e oferecendo histórias positivas, fortalece as vivências de indivíduos historicamente invisibilizados. “Peça outra bebida. Relaxe e goze”. Sem cerimônias, Márcia encerra a narrativa na chave da comemoração. De fato, há motivos para tal.

Márcia Antonelli: Das Palavras à Sobrevivência (2025)
6
Nota 6/10

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