
O curta-metragem parte de uma metáfora potente. Ao analisar a fronteira entre países, ele pensa em paralelo as fronteiras entre identidades (homem e mulher, cis e trans, e todas as possibilidades entre estes). A linha imaginária demarcando Brasil, Argentina e Paraguai funciona como elemento para discutir o pertencimento de Lucca (o diretor Nay Mendl), rapaz brasileiro em busca do pai que o abandonou para morar em terras paraguaias. Neste percurso, encontra seu alter-ego, Diego (Diegoló), que se anuncia como possível irmão biológico encontrado, por acaso, no país vizinho.
Como se percebe, o caráter fortemente documental se conecta com um elemento fabular. A narração relembra o espectador da lenda de dois irmãos criados em margens distintas de um rio, condenados a se admirarem à distância, diariamente. Através deste relato, Mendl e o diretor Rosa Caldeira condicionam nosso olhar à fraternidade entre os protagonistas, ao invés de um possível romance que poderia surgir do contato inesperado. Afinal, eles se identificam de imediato em meio à multidão, atraindo-se por meio de um contato magnético.
Fronteriza se sobressai através do contato amigável entre pessoas e nações, entendendo-se e tateando-se com um misto de curiosidade e pudor.
O naturalismo permite, sem dúvida, alto grau de romantização a respeito do caráter reparador dos encontros. Enquanto se filma o diretor filmando com uma câmera caseira (caso em que a aparência documental se assume enquanto ficcionalização metalinguística), a montagem incorpora imagens de aparência caseira e improvisada. Isso se percebe, por exemplo, quando Lucca segura, em uma das mãos, as fotografias familiares, e, na outra, a câmera que registra estas mesmas fotos. Este também é um projeto sobre o ato de produzir imagens (de si e dos demais).
Os melhores momentos decorrem da interação bastante afetuosa entre Lucca e Diego, quando se observam dormir, ou se ajudam a literalmente atravessar a Ponte da Amizade. As conversas entre os rapazes soam espontâneas, desprovidas de amarras de um roteiro predeterminado. É possível crer na afinidade entre os protagonistas graças à preciosa atenção dos diretores aos detalhes cotidianos. Quando se concentra em minúcias do dia a dia, o resultado se fortalece.
Em contrapartida, alguns recursos da narração em off soam convenientes demais. Os criadores apostam em frágeis perguntas retóricas de Lucca ao pai ausente, enquanto forma de informar o espectador a respeito desta separação na infância. “Será que foi aqui que você decidiu que não ia mais voltar?”, “Será que você vai me reconhecer?”. A retórica afetuosa à la Petra Costa transparece o aspecto formulaico de um projeto que, com exceção destes fragmentos, transborda de naturalidade.
Por fim, Fronteriza se sobressai através do contato amigável entre pessoas e nações, entendendo-se e tateando-se com um misto de curiosidade e pudor. O elemento da língua guarani coroa esta representação da alteridade — a possibilidade de encontrar um outro de nós nos territórios que ainda não desbravamos. O espelhamento, no caso, não ocorre entre homens trans, mas entre rapazes abandonados pelo pai.
Logo, os cineastas colocam o dilema familiar acima dos conflitos relacionados à identidade de gênero. Encaminham-se, deste modo, à tão aguardada fase do nosso cinema, na qual vivências LGBTQIA+ serão abordadas por seus problemas universais com a família, o trabalho, os problemas financeiros, etc, ao invés de soarem como eternos porta-vozes de dilemas relacionados ao gênero e sexualidade. Aqui, a transexualidade de Lucca constitui uma não-questão, sabiamente esquivada pelo rapaz durante uma pergunta íntima. Os diretores começam a deslocar o olhar para espaços mais amplos, literalmente.




