Assalto à Brasileira (2025)

Viva a malandragem

título original (ano)
Assalto à Brasileira (2025)
país
Brasil
gênero
Comédia, Ação
duração
99 minutos
direção
José Eduardo Belmonte
elenco
Murilo Benício, Christian Malheiros, Robson Nunes, Matheus Macena, Vertin Moura, Vinicius Marinho, Ariclenes Barroso, Shaolin, Fernanda de Freitas, Hugo Possolo, Yohama Eshima, Augusto Madeira, Débora Duboc
visto em
58º Festival de Brasília (2025)

Nos palcos do Cine Brasília, durante a apresentação do filme, o diretor José Eduardo Belmonte ressaltou que Assalto à Brasileira decorre de uma história real, ainda que improvável. Lembrou a pichação vista em alguma parede: “Coisas absurdas acontecem quando você não tem dinheiro”. A narrativa se abre com uma citação extraída do ditado popular: “Pense em um absurdo. Ele já aconteceu antes no Brasil”. Ao final, materiais de arquivo e depoimentos dos verdadeiros clientes do banco reforçam que todas aquelas ações ocorreram de fato. Logo nota-se a preocupação quase obsessiva em sublinhar que: 1. Os fatos são verídicos; 2. Eles são possíveis unicamente num país bagunçado, conhecido pelo “jeitinho” e pela corrupção, como o Brasil.

Apostando no subgênero da comédia de erros, o roteiro escrito por LG Bayão oferece uma galeria de pessoas fracassadas e incompetentes. Os ladrões que assaltam o Banestado não possuem um plano, tampouco ideia de como deveria funcionar o roubo. O herói que termina por ajudá-los (Murilo Benício) seria um jornalista recém-demitido, cardiopata e de moral dúbia; e o policial encarregado de solucionar o caso (Paulo Miklos) se mostra omisso, no melhor dos casos, ou conivente e irresponsável, em momento posterior. O governador (Augusto Madeira) complica a situação ao pressionar por uma resolução rápida do caso envolvendo reféns. Estima-se que, quanto mais patéticos, mais engraçado serão.

O projeto precisaria se decidir: ou ridiculariza estes assaltantes toscos, ou os mostra como pobres vítimas de um sistema opressor, dignas de piedade e empatia.

O problema se encontra, no entanto, no foco e nas prioridades. A história é contada pela perspectiva de Paulo (Benício), a quem se oferece mínima construção de personalidade. Na primeira imagem, ela toma um remédio para o coração — sinal de que a questão de saúde será explorada mais tarde. Ele é demitido, mas não se importa com isso. Mesmo visto enquanto fraco, o homem será elevado ao patamar de herói hollywoodiano graças à propensão à malandragem. Quando os ladrões entram no banco, ele será o primeiro e único a perceber a presença da gangue, numa agência repleta de clientes e policiais. Quando o grupo ordena que ele se abaixe, o jornalista permanece de pé. Podendo fugir da cena do crime e voltar para os braços da esposa, prefere auxiliar as transações. Paulo representa a idealização do sujeito sem qualidades.

Se o máximo aprofundamento pertence ao sujeito de traços tão simples, as figuras ao seu redor ganharão um único traço de personalidade — ou nenhum. Moreno (Christian Malheiros) lidera a gangue, embora nunca se imagine como alcançou tal posto. Barba (Robson Nunes) mostra-se nervoso e autoritário, embora tal temperamento nunca surta efeito na trama. O projeto se dá ao luxo de convidar grandes atores, a exemplo de Vertin Moura, para uma figuração de luxo, sem atividades em cena, nem mesmo voz — até um breve instante no final. Quando Vinicius R. Marinho surge, por volta da metade da história, o espectador pode se perguntar se ele sempre esteve junto dos colegas, ou se infiltrou tardiamente o bando, tamanho foi o descaso com o personagem pela direção, fotografia e montagem.

Ora, as melhores comédias de ação, sobretudo aquelas envolvendo assaltos fracassados, dependem da construção de tensões entre o grupo, a descrição de suas diferentes habilidades e temperamentos, e a descoberta das motivações que os levaram uma atitude tão arriscada. Entretanto, jamais conhecemos estas características essenciais dos invasores, reduzidos a figuras pouco inteligentes, fracas e ingênuas — algo complicado diante de uma galeria de jovens negros, que necessitam da ajuda do herói branco para libertá-los. O longa-metragem consegue enxergar o valor do malandro branco, porém, reduz os assaltantes negros e pobres à mera categoria de gangue indistinta de atrapalhados. No final, Moreno começa a dizer que “Minha culpa é das menó”, além de outros vícios de linguagem ausentes anteriormente. Por mais que o Moreno real tenha proferido tal frase, com esta forma específica de comunicação, sua versão fictícia soa incoerente.

Face à diversão inconsequente da confusão alheia, torna-se difícil acreditar no discurso que Assalto à Brasileira seria, na verdade, a crônica de um Brasil em crise política e econômica, precisando de Robin Hoods com quem se identificar — Moreno teria dado parte do dinheiro roubado aos reféns. Ainda em sua apresentação no Cine Brasília, Belmonte também explicou se tratar de um crime motivado pela necessidade de crer em algo extraordinário, em propor alguma mudança no país que parecia não ter se transformado verdadeiramente, mesmo após o final da ditadura militar. Rumo ao final da trama, os diálogos embutem diversas frases, na boca de Paulo e dos assaltantes, sugerindo que os acontecimentos se justificam pelo contexto adverso de uma nação em crise de identidade.

Ora, o pretenso despertar crítico, subitamente encontrado no desfecho, revela-se acessório — uma espécie de boa consciência visando legitimar e elevar a discussão proposta até então. A leitura do crime enquanto resposta a um Estado fraco (“Isso aqui é revolução!”, grita Moreno) valeria somente caso conhecêssemos, em detalhes, os autores do golpe (caso estes controlassem o ponto de vista, por exemplo, em detrimento do jornalista). Seria preciso demonstrar empatia real por seus percursos, seu passado, suas situações familiar e financeira — e também por aquela das pessoas mantidas no banco durante horas. Entretanto, o roteiro nunca se inquieta com os assaltantes, surgidos do nada, e fugindo para lugar nenhum. Preocupa-se, em contrapartida, em trazer à trama a esposa de Paulo, nesta condição clássica de mulher-do-protagonista (a personagem grávida grita o nome dele, lamenta-se, beija-o no final). Os demais se reduzem à mínima função de ladrões, reféns, policiais e afins.

O projeto precisaria se decidir: ou ridiculariza estas figuras toscas, ou as mostra como pobres vítimas de um sistema opressor, dignas de piedade e empatia. O desejo de ser, ao mesmo tempo, jocoso e crítico, desmoralizante em relação aos personagens, e reflexivo sobre suas situações, não parece possível. O roteiro está muito mais preocupado com as tiradas cômicas (até o coadjuvante William, um sujeito de piadas prontas, ganha mais atenção do que metade dos ladrões) do que com a dinâmica real entre os rapazes. Deste modo, jamais se convida o espectador a compartilhar da adoração pelos bandidos, manifestada pela multidão em frente ao Banestado. Divertimo-nos com eles, porém, não somos conduzidos a nos identificar com estas figuras. Rimos precisamente por serem mais frívolos e despreparados do que qualquer um seria, na mesma situação — rimos por serem diferentes de nós.

Felizmente, alguns atores se divertem bem neste registro: Matheus Macena possui excelente timing cômico, e Yohama Eshima constitui uma presença segura na ponte entre reféns e bandidos. Os atores aparentam ter apreciado muito este faz-de-conta do Brasil enquanto caldeirão de brutalidades e incompetências. Entretanto, tentar elevar esta simples comédia, muito próxima da ridicularização das classes populares, a um libelo da revolta popular contra o Estado, soa um tanto exagerado e autoimportante.

Assalto à Brasileira (2025)
4
Nota 4/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.