Foto: Rogério Resende

“Eu não poderia viver sem fazer Esta Isla”, afirma Lorraine Jones

Na 35ª edição do Cine Ceará, destaca-se a presença de uma rara produção de Porto Rico na mostra ibero-americana de longas-metragens: Esta Isla, dirigida por Lorraine Jones e Cristian Carretero. Vencedor de três prêmios no Festival de Tribeca, o drama acompanha Bebo (Zion Ortiz), garoto órfão que sonha em abandonar a ilha em busca de novas oportunidades.
Quando o irmão mais velho (Audicio Robles) é procurado por perigosas gangues, e Bebo se envolve no esquema, ele precisa, enfim, colocar em prática a fuga que sempre sonhou. O garoto e sua namorada Lola (Fabiola Victoria Brown), uma garota rica e entediada, percebem que a escapatória é menos romântica do que idealizavam.
Em entrevista ao Meio Amargo, a diretora Lorraine Jones discutiu a importância de retratar diferentes geografias e realidades de seu país:
(Foto em destaque de Rogério Resende)

Como pensou a maneira de retratar violência, drogas, mas também os afetos em Porto Rico?

Lorraine Jones: Acho que era importante falar também dessa violência. Ela e o afeto são coisas que coexistem, então era importante abordar as duas coisas. Já me disseram que o público está esgotado de cinematografias que mostram apenas a violência, mas acredito que o filme seja mais do que isso. De qualquer modo, era fundamental retratar o tema, especialmente em Porto Rico, onde se fala pouquíssimo respeito. Ou seja, era ainda mais necessário.

Ao mesmo tempo, você se foca bastante nas relações familiares, e no contraste entre esses garotos pobres e a namorada rica.

Lorraine Jones: Era muito importante para nós retratar esta garota, para pensar em como o dinheiro e o poder econômico constituem as metas e o parâmetro de êxito para tanta gente. Mas a maioria das pessoas com dinheiro que conheci na vida não estavam felizes, ou estavam sozinhos e sem amor. Já Bebo não tem recursos econômicos, mas recebe amor da família — ele possuiu laços que ela não tem. Lola tem uma mansão, mas está completamente solitária e triste. Além disso, vive cercada por um mundo falso, então qual seria, no fundo, a meta real?
Em paralelo, eles representam algo que ocorre com frequência em Porto Rico: este desejo de sair do país por não haver trabalho suficiente, não sentirem que têm oportunidades. Então existe este desejo de fuga, de sair, mas sem saber para onde. No final, permanecem sempre no mesmo lugar.

Por que era importante mostrar Porto Rico longe das geografias mais conhecidas, como San Juan?

Lorraine Jones: Cristian e eu gostamos muito de filmes como Terra de Ninguém, de Terrence Malick, E Sua Mãe Também, de Alfonso Cuarón, e mesmo Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, porque criam viagens que permitem conhecer outras realidades, outros lugares, e através destas experiências, os personagens crescem. Queríamos incorporar isso, evitando San Juan, porque sempre se filma por lá, e já estamos acostumados a certas histórias da capital. Com esta narrativa, queríamos mostrar que somos uma ilha repleta de pessoas muito diferentes, e esta narrativa não é nossa única realidade. Temos muita beleza, e também muitas tristezas, mas queremos que os espectadores vejam tudo isso, e possam adentrar estes espaços. Além disso, Cristian é de Mayagüez, e eu, de Arecibo, ou seja, também não somos originários de San Juan. Então queríamos mostrar as nossas raízes.

Como funcionam os meios para a produção de longas-metragens em Porto Rico? Esta Isla é um projeto de grande porte, repleto de cenários e personagens.

Lorraine Jones: Veja a ironia: a gente não tinha muito dinheiro, mas, por causa disso, tivemos tempo para pensar muito bem o projeto. Trabalhamos com calma o roteiro, e até nos mudamos para o lugar onde filmamos. Assim, vivendo ali, a gente podia explorar a região e saber exatamente onde seria melhor filmar. Então foi uma das coisas positivas de não ter dinheiro: se chegasse todo o financiamento, teríamos que concretizar tudo mais rápido, sem tantos detalhes. Os lugares e os personagens não teriam sido os mesmos. A gente teve a oportunidade de encontrar as histórias das pessoas locais.
Mesmo assim, foi muito difícil concretizar. Por isso, quando apresentei o filme aqui no Cine Ceará, disse que fazer cinema, especialmente cinema independente, é como nadar contra a maré. Mas eu nunca quis desistir porque, para mim, era como um chamado, uma obsessão. Eu sentia que não poderia viver sem fazer este filme. Era questão de vida ou morte. E finalmente conseguimos. Eu disse: “Cristian, não vou poder viver se não fizer este filme. Vamos ter que conseguir, de uma maneira ou de outra”; e deu certo. Foi uma grande conquista, graças a pessoas que se comprometeram 100% com o projeto, incluindo nosso diretor de fotografia, Cedric Cheung-Lau, que vem de Hong Kong, mas vive em Nova York. Ele veio morar conosco durante dois meses antes de filmar. Então ele ajudou em tudo, inclusive na escolha de locações. É claro que teria sido ótimo ter mais dinheiro e poder pagar todo mundo exatamente o que mereciam, mas, pelo menos, desta maneira, a gente não tinha tantas datas e compromissos. Então foi um processo interessante.

Chegaram a incorporar as vivências das pessoas da região ao roteiro? Existia essa abertura?

Lorraine Jones: Sempre! Fomos pesquisando, e também acrescentando, retirando ou modificando aspectos do projeto — o que incluiu a escolha do elenco. Fizemos testes com mais de 250 pessoas em diferentes partes da ilha. Criamos uma logline, uma pequena sinopse e, de repente, muitas pessoas estavam interessadas em participar. Foi lindo, porque tiramos várias histórias deste processo, vendo como atuavam, e pensando de que maneira os personagens poderiam incorporar aqueles detalhes. Por exemplo, quando escolhemos a Fabiola Brown, que faz a Lola, descobrimos que ela era dançarina. Ela realmente machucou o joelho, e decidimos incorporar este elemento ao roteiro. Então o texto estava aberto a transformações.

Qual a importância de apresentar Esta Isla no Brasil? Nossas realidades me parecem muito similares, afinal.

Lorraine Jones: Eu me sinto em casa aqui. É como se eu estivesse conhecendo outra região de Porto Rico, porque percebo muitas coisas parecidas. Considero fundamental descentralizar estas geografias e cinematografias, em todas as artes. O cinema precisa ser visto em locais diferentes, para cumprir sua vocação de mostrar outras realidades. Chegando aqui, eu posso dizer que temos influência de alguns filmes brasileiros que nos inspiram, como Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Então, trazer o filme para cá é como chegar a uma segunda casa, porque estes espaços também participaram de nossa inspiração. Fico muito agradecida pela oportunidade de conhecer o Cine Ceará.

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