Um Cabo Solto | “A fronteira é um não-lugar, mas acaba pertencendo a quem a habita”

No 35º Cine Ceará — Festival Ibero-Americano de Cinema, os dois prêmios de atuação foram entregues à mesma comédia dramática: Um Cabo Solto (Un Cabo Suelto, no original), dirigido por Daniel Hendler. Sergio Prina interpreta Santiago, um policial fugindo dos próprios colegas de corporação após testemunhar um crime. Na fronteira entre Uruguai e Argentina, ele se esconde, conhece uma possível namorada (Pilar Gamboa), e até conquista um emprego na empresa de queijos — este, sim, o trabalho que sempre sonhou.

O filme está repleto de guinadas de gêneros, saltando do humor ao suspense, brincando com os tempos mortos e frustrando expectativas. Em passagem por Fortaleza, durante o Cine Ceará, Sergio Prina conversou com o Meio Amargo a respeito do projeto tão singular.

Foto em destaque acima: Ribamar Neto / Divulgação

Você interpreta um personagem misterioso. Chegou a construir como era a vida dele na corporação, antes da fuga?

Sergio Prina: O trabalho de policial é uma opção rápida que alguns jovens encontram. Quando não há trabalho, muitos entram para a polícia — é uma possibilidade de emprego estável. Para mim, Santiago era alguém de poucas oportunidades, que acabou entrando na corporação por necessidade econômica. Então, em nenhum momento ele esteve tão convencido de pertencer à polícia. Eu tentava pensar qual teria sido o episódio capaz de desencadear isso. Disse para Daniel que, para mim, não tinha sido por morte, por assassinato, mas sim que estaria associado a algo como a corrupção, ou o roubo de dinheiro. Talvez o Santiago tenha um pouco mais de valores morais que os outros policiais. Então, se tivesse visto um assassinato, ele certamente teria contado, mas diante de uma situação de roubo, poderia ter ficado em silêncio.

Santiago é um homem com o freio de mão puxado. Eu precisava atuar meio travado.

Chegou a pesquisar a respeito da rotina de policiais, e do mundo de preparação dos queijos, ou preferiu se guiar apenas pelo roteiro?

Sergio Prina: Eu sou um ator que alguns diretores chamariam de preguiçoso. Talvez, pelos papéis que venho fazendo nos filmes, tenho a sensação de que nunca fui alguém que precisou compor demais, sabe? Não houve um trabalho de composição: mudar a voz, mudar o corpo. Nunca foi necessária uma busca mais artificial. Então, não tive a necessidade de fazer uma pesquisa exaustiva em relação às especificidades desse universo. Minha pesquisa está muito mais associada à minha vida pessoal. Gosto de pensar que todos os personagens que em algum ponto chegam até mim poderiam estar associados a algo que já me aconteceu. Não exatamente esse caso em particular, mas a situações análogas. Por exemplo, em algum momento escondi coisas na minha vida, como todo mundo, né? Em algum momento não quis estar em certo lugar e fui para outro — fugi de relações, de vínculos, de espaços. Eu uso estas memórias para recorrer a algo que, de alguma forma, me pareça mais próximo do que inventar uma história paralela. Então, sempre que trabalho com o roteiro, tento pensar em algumas coisas análogas, que eu tenha mais à mão.
Este trabalho de composição tinha mais a ver com o tempo e os silêncios. Santiago é um homem com o freio de mão puxado. Eu precisava atuar meio travado. Eu não estava atuando como queria atuar, mas, de alguma forma, confiava que esse personagem e essa direção precisavam disso — que ele sempre parecesse meio preso. Assim, esse personagem, mesmo desejando uma nova vida que descobrimos ao longo da história, continua preso a algo não resolvido, do qual foge.

É um trabalho minimalista. Você precisa transmitir muita informação nos olhos, no corpo contido, nos silêncios.

Sergio Prina: Sim, porque, além disso, ele também vai descobrindo, se reafirmando ao longo da trama. Ele não sabe que vai se apaixonar, e se apaixona. Ele não sabe que vai conseguir um trabalho, e consegue. Ele não sabe que certas coisas vão acontecer, e elas acontecem. E quando acontecem, ele fica um tempo ali. Mas depois, tem que seguir. Então, nunca tem clareza: a única clareza é a da sobrevivência. A busca gera encontros constantes.
Santiago é um personagem que está, mas não está. Ao mesmo tempo, vive em contradição permanente porque não quer ser policial, está fugindo disso, mas, ao mesmo tempo, o uniforme policial também o ajuda a conseguir coisas para fugir. Enfim, é uma contradição, um trabalho muito contido o tempo todo. Quase sempre há esse loop interno.

Algo bonito é que, em algum ponto, esse sujeito sai da solidão com a ajuda dos outros. Nesse sentido, me parece um filme otimista.

Também existe uma tensão no fato de ele ser um homem muito sozinho. Não tem ninguém com quem possa conversar sobre o que sabe, sobre o que viveu.

Sergio Prina: De fato, no único momento em que poderia falar sobre isso — quando vai ao cartório fazer averiguações sobre a certidão — ele decide não falar. Não acho que seja por medo, nem por não ter vontade de contar, mas porque não sabe se isso vai ser uma solução, ou se vai piorar ainda mais as coisas. Então, ele tem pouquíssimas certezas. Mas sim, ele está sozinho. Algo bonito no filme é que, em algum ponto, esse sujeito sai dessa solidão com a ajuda dos outros. Ele se sente sozinho, mas não está sozinho, afinal. É como se a possibilidade de gerar uma mudança, de sair de situações adversas, sempre viesse do outro, sabe? Nesse sentido, me parece um filme otimista.

Um Cabo Solto também se concentra bastante nas diferenças culturais entre Argentina e Uruguai, por se passar na fronteira. Como vê estas demarcações?

Sergio Prina: Parecia importante, primeiro, para deixar claro que ele estava em outro lugar, que havia fugido de algum lugar. Depois, há algo na diferença: você pode dizer que alguém é diferente porque não tem o que eu tenho, porque você tem outra coisa, entende? Mas o que Santiago Pallares menos quer em sua vida é ser diferente. De fato, quando ele entra na loja para comprar um pouco de queijo e perguntar onde fica a fábrica, dizem a ele: “Você não é daqui, né?”. Ele responde, irritado: “Não, porquê? Ainda dá para perceber que não sou daqui, né?”. Então, acho que reforçar essas diferenças culturais também é, de certo modo, dizer a esse personagem que ele é um diferente nesse lugar, e que não vai ser fácil passar despercebido.
Além disso, é claro, há outras coisas ligadas ao folclore entre um país e outro. Penso que, se tivéssemos feito na fronteira Argentina–Brasil, teria entrado o futebol no lugar do mate — e outros elementos muito reconhecíveis. E também há a visão de como os uruguaios enxergam os argentinos. Neste filme, evidentemente, aqueles que fazem coisas erradas são os argentinos, e os uruguaios são os que ajudam Santiago. Aqueles que não usam cinto de segurança são os argentinos, já os uruguaios, sim. Tem algo disso, mas é um filme uruguaio, não argentino. Se fosse argentino, provavelmente reforçaríamos certas coisas sobre o Uruguai.

Neste filme, evidentemente, aqueles que fazem coisas erradas são os argentinos, e os uruguaios são os que ajudam Santiago.

É um filme cheio de surpresas para mim. Porque começamos com o acidente de carro e temos a impressão de que será algo grande, cheio de perseguição e ação. Mas encontramos tempos mortos, de espera.

Sergio Prina: Para mim, também foi assim. Vi o filme agora pela segunda vez, e também tive essa sensação. É como se o importante estivesse deslocado, em certo sentido. Como se o importante estivesse em outra coisa, em como é possível contar um filme sem cair nas formas mais tradicionais de narrativa — que poderiam ser mais fáceis, claro. Você entenderia melhor se te dissessem: “Esse filme é um thriller”, “Esse filme é uma comédia romântica.” Mas isso não acontece aqui. O filme vai e vem entre registros, o tempo todo.
Acho que algo parecido acontece com a atuação também: por momentos, os personagens se colocam em lugares mais estereotipados de policiais, mas depois, isso se desfaz. Em outros momentos, eles são mais frágeis, como os policiais obcecados por astrologia — e, de repente, os vilões se interessam pelas luas, pelo movimento das estrelas. Acho que está cheio de elementos que deslocam o filme dos lugares-comuns.
Até o título tem esse jogo. O filme se chama Un Cabo Suelto, e também usamos “um cabo solto” para quando algo não está resolvido. Então, desde o título já há um duplo sentido: pode ser uma coisa ou pode ser outra. A construção do filme também é assim: poderia ser um thriller, mas também poderia ser outra coisa. E isso também aparece nos diálogos, quando os personagens dizem: “Eu adoro jogos de palavras”. Então sinto que o filme busca se instalar em outro lugar, que não é tão fixo. Muita gente me pergunta: “Mas, afinal, do que ele está fugindo?” E, na verdade, não importa: isso é apenas o motor para o que virá depois.
Não tem uma estrutura clássica em que o policial necessariamente precisa te contar o que aconteceu. Aqui não. O filme rompe essa lógica, e se detém, por momentos, em lugares que parecem não importantes. Mas são importantes para o vínculo, para como a narrativa é construída. Há algo no conceito de fronteira. As fronteiras são esses não-lugares, espaços que não são de ninguém, mas que acabam pertencendo a quem os habita. E quando você chega a uma fronteira, de repente descobre quem é. Você pode estar seguro de si, mas quando chega lá, começa a sentir medo: “Será que posso passar? Será que vão perceber algo que falta? Será que estarei fazendo algo ilegal sem ter feito?”. Começa a sentir vários medos, chega até a desconfiar de si mesmo. As fronteiras têm essa capacidade de apagar você por um instante.

Foto: Rogerio Resende / Divulgação

O romance com a caixa da loja de conveniência também pertence a uma fronteira. Não é um amor redentor, longe disso.

Sergio Prina: Não é uma história de redenção que vai salvá-lo de tudo. Ele encontra a garota, mas não sabemos para onde vão. É uma história muito pequena também. Em algum ponto, essa história é mais importante não por se concretizar, mas por ele sentir que pôde descobrir algo novo, que o convida a ficar. O importante não é a história em si, mas o que ela provoca nele: “Posso ficar aqui porque coisas podem me acontecer.” Por isso, o que aconteceu antes deixa de importar. O que aconteceu é apenas um impulso. Depois, outras coisas começam a acontecer. Então o filme não se apoia naquilo que normalmente consideraríamos “o importante”. Ele circula por outros caminhos.

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