Recife Assombrado 2: A Maldição de Branca Dias (2025)

Os caça-fantasmas trapalhões

título original (ano)
Recife Assombrado 2 (2025)
país
Brasil
gênero
Terror
duração
114 minutos
direção
Adriano Portela
elenco
Vitória Strada, Márcio Fecher, Daniel Rocha, Pally Siqueira, Gil Paz, Aramis Trindade, Washington Machado, Becca Barreto, Madu Melo
visto em
Cinemas

Recife Assombrado 2 chega ao circuito em momento oportuno. O cinema pernambucano vive uma de suas melhores fases, tanto em premiações internacionais (O Agente Secreto, O Último Azul) quanto na explosão do cinema de gênero (Salomé, Gravidade). O cinema de terror, em particular, sempre enfrenta forte dificuldade de chegar às salas de cinema, e após algumas conquistas (vide o belo capixaba Prédio Vazio), cresce o interesse em descobrir o que a franquia Recife Assombrado teria a apresentar — pela primeira vez, nas telas de cinema do país inteiro. 

Em paralelo, é importante que nossa produção de horror cruze fronteiras e seja reconhecida pelo próprio público nacional. Pode-se aplaudir o fato que a saga se concentre particularmente em lendas macabras da cidade, não necessariamente conhecidas fora do Estado. Através do gesto de popularizar o conhecimento do Recife, permitiria uma espécie de conexão do Brasil consigo próprio (quanto mais específico for o retrato, melhor será, em termos de representatividade). Afinal, se não couber a projetos como este materializar as crenças da capital pernambucana, quem mais o fará?

Chega, pois, a experiência do filme em si. Cabe constatar que, infelizmente, o longa-metragem sofre de inúmeros problemas, tanto de linguagem quanto de discurso Ora, demonstrar condescendência com o resultado, ignorando tantas falhas que saltam aos olhos, equivaleria a tratar a obra como menor, num gesto de paternalismo contrário a qualquer forma de respeito. Posto que é exibido nas mesmas salas de cinema de outros excelentes filmes brasileiros, inclusive de terror (Prédio Vazio, Medusa, Continente, Estrela Brava, Casa de Bonecas, etc.), merece ser julgado com os mesmos critérios.

Recife Assombrado 2 transborda de cenas mal filmadas e roteirizadas, além de protagonistas inconsistentes.

O projeto sofre um desnível evidente entre o porte da produção e a intensidade da narrativa. Isso porque as cenas são criadas com profundo senso de gravidade, enquanto os atores carregam num nível de pathos digno de uma tragédia grega. Entretanto, a estética fica muito aquém de tamanhas ambições. O trabalho de fotografia, som, montagem e direção, em geral, prova-se modesto demais para tais pretensões de abarcar o natural e o sobrenatural, num épico que atravesse gerações. Diante da falta de recursos, teria sido mais prudente se concentrar em uma trama e um ponto de vista específicos, que a produção pudesse abraçar. Entretanto, os criadores dão um passo muito maior do que as pernas conseguem acompanhar.

A direção de fotografia, em particular, sofre para iluminar suas cenas e trabalhar a contento tanto a profundidade de campo quanto as geografias. Aparentemente, sem o suporte de refletores (mas com um excesso de drones rumo ao final), deixa que as cenas sejam escuras demais, tanto internas quanto externas, de dia como de noite. Sim, a escuridão sempre acompanhou o horror, mas isso nunca implicou na necessidade de personagens mal iluminados, ou cenários de pouco volume e textura. A partir da sequência inicial, situada séculos atrás, as cenas se mostram tão mal pensadas em termos de luz que prejudicam o trabalho da direção de arte e dos próprios atores. Enquanto isso, diversas cenas apostam numa objetiva grande angular genérica, empregada para captar o máximo do espaço possível. Nem se fala, portanto, na ausência de correção de cor e problemas decorrentes da captação inicial.

O som sofre desnível semelhante, tanto no trabalho de ruídos quanto na mixagem da (bela e criativa) trilha sonora. Recife Assombrado 2 depende excessivamente dos efeitos sonoros mais banais (o estrondo repentino durante os jump scares) para construir medo e tensão, posto que a fotografia e a montagem não dão conta do recado sozinhas. Não fossem estes ornamentos, e acréscimos na edição e pós-produção, a trama se passaria por um suspense com toques de humor juvenil. Em paralelo, nem os efeitos digitais (os olhos brancos, a magia da pedra, a cena pós-créditos), nem os efeitos práticos (o excesso de gelo seco, a maquiagem modesta de Jair das Almas) convencem quanto ao teor aparentemente sério buscado pelos autores.

Deste modo, a experiência se situa num meio-termo entre a busca em provocar medo, e a disposição a rir de si próprio. O grupo de caçadores de fantasmas, com seus uniformes verdes, mostram-se paspalhões e infantis — estamos mais próximos de Scooby-Doo do que dos Ghostbusters. Apesar de se dedicarem às aparições sobrenaturais, morrem de medo de qualquer fantasma, e tremem diante de ratos ou outros bichos numa chácara. Nunca sabem ao certo o que fazer diante do desconhecido — embora equipados com dispositivos novos, não conseguem captar a imagem, o som, e nem sabem para onde olhar, ou por quanto tempo. Curiosamente, esta excitação frenética dialoga com o despreparo da própria direção do filme, igualmente empolgada com efeitos e truques, mas ignorando as incoerências de roteiro.

Isso porque é difícil ao espectador relevar tantas escolhas apressadas da narrativa, fruto de um roteiro que necessitaria de novos tratamentos antes de passar à realização. Afinal, os fantasmas aparecem apenas na gravação, ou apenas a olho nu (mas nunca na gravação)? Como a gangue rival de youtubers descobre a procura dos protagonistas por Branca Dias, e chega tão facilmente ao local? O que justificativa a revelação repentina da localização do tesouro, escondido há séculos? Como se intuem informações fundamentais, transmitidas abruptamente pelos diálogos (a conexão da heroína com o vilão, o destino trágico de ambos, etc.)? O que explica a conversão de criaturas mágicas (Branca Dias e João das Almas) em vilões bastante terrenos, de carne e osso, em frente aos personagens? 

Recife Assombrado 2 transborda de cenas mal filmadas e roteirizadas (“Eu não sei de nada, caralho! Eu não sei de nada, caralho!”), além de protagonistas inconsistentes (Tadeu transformado em macho alfa, o caseiro de função variável, as amigas que só fazem gritar e correr). Mesmo assim, diante de tantos problemas, impressiona o comprometimento de Márcio Fecher com o vilão. Nota-se um verdadeiro trabalho de composição, pensado em termos de voz, corpo, olhar e movimento das mãos. Até Vitória Strada se dedica bastante à conversão em estudante pernambucana — nesta franquia dedicada ao Recife, mas que, ironicamente, sempre escolhe atores sulistas e sudestinos para os papéis centrais. (Talvez a coerência viesse, em primeiro lugar, de uma valorização dos talentos locais).

Resta uma obra indecisa entre a seriedade e a ridicularização, entre o filme adulto e o humor teen, voltado às trapalhadas de um grupo de adolescentes hormonais e confusos. A maldição de Branca Dias se torna secundária no projeto portando seu nome, enquanto o youtuber adversário possui função nula no roteiro que se presta a construí-lo e acompanhá-lo (além de ajudantes). Invoca-se com pompa os poderes de uma pedra jamais utilizada de fato, assim como as duras circunstâncias para sua destruição — jamais efetuada. Os autores apostam numa bela heroína que também encarne a função de final girl; além de um par romântico meramente acenado, e um vilão nunca vencido. 

Surpreende a quantidade de ideias que jamais se desenvolvem, nem se resolvem. A trama privilegia atalhos, subtramas e bifurcações, até se esquecer onde pretendia chegar inicialmente. Posto que deixa o caminho aberto para a terceira obra, cabe esperar que a próxima sequência demonstre o mínimo de esmero (de fotografia, de som, de roteiro, de direção) para despertar, novamente, o interesse de nos deparar com produções autorais pernambucanas na sala de cinema. Ou, ao menos, que assuma a condução de paródia de baixo orçamento sobre os cânones do terror de assombração — um caminho digno, e igualmente atraente ao espectador.

Recife Assombrado 2: A Maldição de Branca Dias (2025)
3
Nota 3/10

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