O diretor Akinola Davies Jr. Foto: Joel C Ryan/Invision/AP
Foto: Joel C Ryan/Invision/AP

A Sombra do Meu Pai | “A beleza de qualquer país está no seu povo”, defende Akinola Davies Jr.

Um dos mais belos filmes da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo também foi a primeira produção nigeriana exibida no Festival de Cannes: A Sombra do Meu Pai (My Father’s Shadow), de Akinola Davies Jr. O cineasta relembra um episódio de sua infância, quando ele e o irmão mais velho confrontaram seu pai a respeito da ausência em casa. No dia em que o país sofreu um golpe de Estado, eles compreenderam o envolvimento do pai na política, e também testemunharam as consequências do massacre de Bonny Camp.

Essa experiência chega ao cinema com imagens impressionantes, uma direção segura e atuações muito competentes, tanto das crianças (os irmãos Chibuike Marvellous Egbo e Godwin Egbo) quanto do veterano Ṣọpẹ́ Dìrísù. O cineasta conversou com o Meio Amargo a respeito de um projeto tão pessoal:

Em que medida podemos falar em uma obra autobiográfica? O quanto corresponde às suas memórias, e o quanto foi ficcionalizado para o filme?

Akinola Davies Jr: Acho que, no começo, eu teria dito que há uma grande diferença entre uma coisa e outra, mas quanto mais eu vejo o filme, e converso com meu irmão, mais difícil fica saber o que é ficção e o que não é. O fato é que a gente perdeu nosso pai quando éramos bem novos. Meu pai morreu quando eu tinha um ano e oito meses, e meu irmão devia ter uns três anos. Mas o filme se passa em 12 de junho de 1993, e nessa época, no filme, os meninos têm oito e doze anos. Então as coisas começam a se misturar. Muitas das histórias vêm de coisas que nos contaram sobre o nosso pai — o que nossa mãe dizia, o que outras pessoas diziam — e como essas histórias mudaram com o tempo.
Os eventos históricos são baseados no que realmente aconteceu naquele dia. Bonny Camp é um lugar real. Os massacres aconteceram em momentos diferentes, mas a gente juntou tudo para colocar no filme. Então o personagem paterno é uma versão ficcional do nosso pai, mas decorre das histórias que escutamos sobre ele. É bem difícil separar o que é ficção e o que não é. Acho que a diferença mais óbvia é que, por exemplo, no filme a gente muda a idade dos personagens, e também, no filme, a família é de classe trabalhadora, enquanto a nossa era de classe média.

O personagem é uma versão ficcional do nosso pai, mas decorre das histórias que escutamos sobre ele. É bem difícil separar o que é ficção e o que não é.

Por que escolheu o massacre em Bonny Camp para condensar as tensões políticas da Nigéria?

Akinola Davies Jr: Bonny Camp sempre foi um lugar onde pessoas “problemáticas” sumiam. Era uma base policial, e depois virou uma base militar. Uma das razões pelas quais o governo militar mudou a capital de Lagos para Abuja foi justamente porque, quando havia protestos, as pessoas iam para Bonny Camp. Fela Kuti, por exemplo — um dos nossos músicos mais famosos — levou o caixão da mãe dele até Bonny Camp para entregar aos militares, depois que ela foi jogada do telhado e morreu.
Então Bonny Camp virou um símbolo no imaginário nigeriano, um lugar onde militares e policiais faziam opositores desaparecerem. Como a gente queria contar essa história para jovens nigerianos — e também para quem não conhece a história da Nigéria —, quisemos homenagear esses lugares, onde pessoas lutaram contra o autoritarismo e perderam a vida.

O filme também retrata a esperança de um país democrático e estável. Como acredita que este espírito dialogue com a Nigéria atual?

Akinola Davies Jr: Acho que a beleza de qualquer país está no seu povo. O povo é o alicerce de qualquer nação. O que resiste ao tempo é esse desejo de um país melhor para os filhos, para a próxima geração. Acho que a Nigéria ainda acredita nisso — talvez um pouco menos, porque muita gente só quer sair do país e buscar uma vida diferente fora. Mas dá para ver essa esperança na música, no esporte, na cultura — como no Brasil, aliás. Tudo isso mostra o amor das pessoas pelo próprio país. É claro que há má gestão, e muitos problemas estruturais acumulados ao longo dos anos. Mas o povo ainda carrega um enorme senso de esperança.
Toda vez que eu volto para lá, e vejo, por exemplo, a forma como abraçaram o filme, isso me dá esperança. Eu até achei que o filme pudesse ser doloroso para alguns nigerianos, mas o retorno foi muito bonito. Tem a geração jovem, que entendeu pela primeira vez a importância daquele dia e daquele episódio político, e tem a geração mais velha, que viu seu sofrimento e sua humanidade finalmente reconhecidos num filme. E o mais importante: eles ainda estão lá. Estão vivos, presentes, com filhos que também carregam esses sonhos. Isso representa muita coisa.

A história me pareceu de fácil identificação para um brasileiro, em seu retrato de ditaduras e golpes de Estado.

Akinola Davies Jr: Sem dúvida. Eu levei o filme para a Coreia do Sul, por exemplo. Eu não sabia quase nada sobre o país — só que têm bons jogadores de futebol e churrasco coreano! Durante a sessão, o público ficou em silêncio, então achei que talvez não estivessem entendendo, mas depois vieram conversar comigo, muito emocionados. Disseram: “A gente não sabia nada sobre a Nigéria, mas esse filme fez a gente pensar na nossa própria história — também tivemos ditaduras, guerras civis…”

Fiquei surpreso que algo que eu tenha feito em casa, com amigos, consiga tocar pessoas na Coreia e no Brasil. O cinema é uma arma poderosa para unir as pessoas através das experiências humanas.

Como recriou Lagos nos anos 1990?

Akinola Davies Jr: Eu tive colaboradores incríveis, como os diretores de arte, Jennifer Anti e Pablo Anti. Eles fizeram um trabalho gigantesco encontrando carros, placas de rua, móveis, locações… Tivemos muita sorte. E como filmamos em película, não podíamos desperdiçar tomadas. Então cada cena era pensada com cuidado.
O diretor de fotografia, Jermaine Edwards, é incrível — foi o primeiro longa dele também. A gente já vinha trabalhando juntos em documentários sobre a vida negra no Reino Unido. Temos uma relação de confiança, e isso ajudou muito. Uma amiga diretora me disse algo que levei comigo: “Sempre reserve um tempo para brincar com o fotógrafo, sair do storyboard e só experimentar.” Fizemos isso, e acho que deu ao filme essa sensação tátil, espontânea.
E Lagos tem isso: assim como São Paulo, há áreas que parecem congeladas no tempo, prédios art déco intactos por fora, e modernos por dentro. É um equilíbrio delicado entre o que manter e o que mudar. O mais difícil, por incrível que pareça, foi apagar logotipos do Facebook e do Twitter nas cenas.

Você fala de calcular as tomadas e a produção, e ainda trabalhou com crianças pequenas nos papéis principais.

Akinola Davies Jr: Pois é! No começo, pensamos em escolher crianças do Reino Unido, achando que talvez tivessem mais “formação”. Mas percebemos logo que não faria sentido. Um menino nigeriano tem um jeito, um sotaque, um ritmo de corpo que ninguém de fora consegue copiar. Fizemos testes em igrejas, escolas, recebemos vídeos… até encontrarmos dois garotos que pareciam bons, mas não eram irmãos. Aí fizemos uma oficina com várias crianças e esses dois meninos apareceram. O mais novo era ótimo fazendo raiva, e o outro virou as pálpebras do avesso no vídeo! Descobrimos no segundo dia que eles eram irmãos de verdade. A química estava toda ali.
E a mãe deles é roteirista e atriz, então eles decoravam bem o texto. Mesmo assim, fiquei apreensivo, por serem dois meninos sem experiência, carregando o filme inteiro. Mas tive ótimos preparadores de elenco, e logo percebi que o segredo era confiar neles. No começo fui meio duro, queria que o pequeno repetisse tudo igual, mas depois percebi: ele tem oito anos! Quando relaxei, o personagem floresceu. Crianças surpreendem quando você lhes dá responsabilidade e confiança.

Fiquei apreensivo, por serem dois meninos sem experiência, carregando o filme inteiro. No começo fui meio duro, mas quando relaxei, o personagem floresceu.

Que recursos permitiram a produção de um filme deste porte? Ele realmente tem imagens grandiosas. Não sei se o tema político teria dificultado o financiamento.

Akinola Davies Jr: Olha, não existe filme fácil de financiar! Mas eu já tinha quinze anos de experiência na indústria, trabalhando com outros diretores, fazendo videoclipes, curtas, comerciais. Então os financiadores confiavam que eu sabia fazer um filme. E o curta Lizard, que ganhou Sundance em 2020, ajudou muito. Aí veio mais confiança, mais apoio. No Reino Unido, existe muito incentivo público — BFI, BBC Films, MUBI —, que aposta em novos talentos. E é isso o que fortalece o cinema: colaboração internacional. Esse é um filme nigeriano, mas com cooperação do mundo todo. Quem sabe um dia vem uma coprodução com o Brasil, né?

Acredita que a menção no prêmio Caméra d’Or, em Cannes, abra o caminho para projetos ainda mais ambiciosos?

Akinola Davies Jr: Sim, acho que sim. Meu objetivo com esse filme era provar que eu podia fazer um longa — um cartão de visita para poder fazer o próximo. Agora, quero expandir o escopo um pouco, mas não muito. Não tenho pressa em fazer um “filmão”. Quero aprender o ofício, ter uma carreira longa. Poucas pessoas como eu têm a chance de dirigir um filme, então sinto uma responsabilidade: mostrar que é possível crescer aos poucos, com consistência.
Gosto das limitações — elas forçam a criatividade. E criam confiança entre a equipe. Quando você mostra que sabe lidar com pouco, as pessoas confiam mais em você para os próximos projetos. Sei que quero manter meu círculo de colaboradores, mas trazendo gente com mais experiência também. E quero continuar filmando na Nigéria — é empolgante demais. Talvez, no elenco, quero trabalhar com atores experientes, como o Ṣọpẹ́ Dìrísù, que me ensinou muito. Gosto de aprender sempre, e o cinema é isso: um grande trabalho em grupo.

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