Um dos diretores mais premiados do mundo, o iraniano Jafar Panahi também convive com a perseguição incansável do governo de seu país. Vencedor dos três maiores festivais do mundo — ele recebeu a Palma de Ouro em Cannes, o Urso de Ouro em Berlim, e o Leão de Ouro em Veneza —, ele continua desenvolvendo projetos que criticam o autoritarismo do regime, mesmo após duas longas experiências na prisão. Após forte pressão da comunidade internacional, o cineasta conseguiu, ao menos, o direito de sair do país. Ele tem aproveitado a oportunidade para divulgar seu novo projeto, Foi Apenas um Acidente, recompensado com a Palma de Ouro em Cannes, e representante da França no próximo Oscar.
A trama decorre de sua experiência no cárcere. Na trama, um trabalhador acredita reconhecer, pelos sons, a presença do homem que o torturou na prisão, anos atrás. Isso porque Vahid (Vahid Mobasseri) passou meses com os olhos vendados, mas escutava diariamente o caminhar do agente do governo, que mancava com sua prótese. Diante da possibilidade de vingança, ele sequestra o possível agressor, e busca outros companheiros de prisão que possam confirmar a identidade do adversário. Conforme as horas se passam, Vahid e seus colegas precisam decidir se infligem ao sujeito as duras penas que sofreram. Qual a maneira correta de agir, nessas circunstâncias?
Panahi veio ao Brasil, devido à Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, e conversou com a imprensa a respeito deste projeto. As falas abaixo são extraídas da mesa redonda com um pequeno grupo de jornalistas:

Justiça ou vingança?
Questionado a respeito das atitudes controversas de seus personagens, o diretor explica o objetivo de levantar um debate junto ao espectador: “Este questionamento pode despertar sentimentos variados em cada espectador. Passada a emoção dos acontecimentos, como reagir? Será que os personagens precisam agir como o torturador? Existe uma cena do filme na qual os personagens dizem: ‘Você não precisa cavar um túmulo para ele; ele cavou seu próprio túmulo devido ao que fez’.”
“O filme é movido pela dúvida entre perdoar ou se vingar. O que importava para mim era o que aconteceria no final; era decidir se esse ciclo de violência e de vingança continuaria. Quando chegaria ao fim? Eu queria que o espectador pensasse nisso, para o futuro. Na verdade, este filme foi feito agora, mas pensando no futuro. Um futuro sem vingança seria um lugar melhor”.

Filmar apesar da proibição
Panahi descreve seus filmes clandestinos, realizados apesar da proibição do regime, enquanto uma necessidade pessoal e artística:
“Quando fui condenado à prisão, recebi uma pena muito forte. Psicologicamente, isso me abalou bastante, porque fui condenado a não fazer mais filmes. Então, eu pensava: se eu não fizer filmes, o que vou fazer? Naquela época, meus estudantes me perguntavam, com frequência: ‘Como fazer filmes nessa situação tão difícil?’. Eu também não tinha permissão para fazer meus filmes. Mas a solução não seria ficar apenas reclamando — eu precisava encontrar uma alternativa”.
“Naquela época, fiz um filme dentro de casa, e coloquei o nome Isto Não É um Filme (2011). Tinham dito que eu não poderia fazer filmes, então fiz algo que não era um filme. Mas sem fazer filmes, o que eu sabia fazer? A única coisa que eu sei fazer é dirigir. Por isso, desenvolvi o Táxi Teerã (2015), na condição de motorista de táxi. E pensei: mesmo enquanto taxista, posso colocar uma câmera dentro do carro, para gravar o que acontece. Assim surgiu o filme”.
“Eu sempre pensava numa forma de me manter no cinema. Por isso, eu estava presente nos filmes, como protagonista. Depois disso, não tive mais alunos me perguntando o que fazer — eles também aprenderam a encontrar seu caminho para a realização. Quando tiraram minha condenação, e aquele sistema mudou, a pressão psicológica sobre mim acabou. Então, eu saí de frente das câmeras para atrás das câmeras, onde é o meu lugar”.

“Eu não via maneira de fugir desse tema”
Quanto à temática da opressão do governo, Panahi explica que seus projetos derivam, naturalmente, das vivências pessoais:
“Eu sou um cineasta social. Encontro os temas dos meus filmes na sociedade: nos comércios, nas ruas, nos mercados. Cada dia que eu acordo para ir à padaria, para comprar pão, tenho contato com as pessoas. Mas quando me tiram de um ambiente para me colocar em outro, o novo espaço vai ter influência em mim. Então eu perco os temas do ambiente onde estava”.
“É claro que a experiência na prisão me influenciaria. Na hora de fazer filmes, não via maneira de fugir por completo desse tema. O tratamento mais direto ao tema, neste projeto, diz respeito ao local onde eu fiquei. É culpa das pessoas que me colocaram nessa situação. Eu não fiz esse filme: quem fez este filme foram as pessoas que me jogaram naquela situação”.
A respeito das transformações políticas no Irã, ele pondera: “O regime atual apresenta as mesmas dificuldades para cineastas. Não teve nenhuma mudança nesse sentido. Mas os cineastas têm encontrado caminhos para se adaptar, e assim, obrigam o regime a ficar com um pé atrás. Eu lembro quando fiz O Círculo (2000): todos me diziam que eu teria muitos problemas com o regime por causa desse filme, pelo porte dele. Afinal, o círculo representava a linha vermelha do regime. Mesmo assim, o cinema seguiu em frente”.
O iraniano sublinha, inclusive, a responsabilidade de cada cineasta em relação aos acontecimentos que o cercam:
“Cada país produz muitos filmes, mas 95% deles são comerciais. Apenas 5% são produções mais artísticas, com valor histórico. Agora, cada país enfrenta seus problemas: alguns estão prestes a entrar em guerras, outros estiveram em guerras recentemente. Além disso, existem os problemas políticos internos. Um cineasta não pode ignorar a influência destes acontecimentos ao redor. Então os temas que vemos nestes filmes internacionais, apresentados em festivais e mostras, mostram algum problema que os países tinham e já resolveram, ou problemas que persistem, e aqueles podem surgir no futuro”.

O sucesso de Foi Apenas um Acidente
A respeito do processo de criação desta nova ficção, ele explica o prazer de trabalhar com uma mistura de atores profissionais e iniciantes:
“Alguns atores desse filme já tinham trabalhado em outros projetos antes, mas não tinham feito papéis importantes, nem eram famosos. Para outros, esse era o filme de estreia. O mais difícil para mim foi equilibrar todos eles. Quando se vê todos juntos, dá para perceber como atuam bem. Isso é importante para mim: quando trabalho com não-profissionais, posso prepará-los do jeito que eu prefiro”.
“Na verdade, é preciso fazer com que eles não atuem. O que eles fazem é real, não estão atuando — e isso é ótimo. É sempre muito difícil que uma pessoa permaneça natural em frente à câmera. O protagonista, Vahid Mobasseri, já tinha trabalhado em outros filmes comigo, mas em papéis menores. Ele vive em outro Estado, numa província distante, e faz principalmente comédias. É um humorista”.
No que diz respeito à exibição em seu próprio país, o cineasta explica:
“Meus filmes nunca são exibidos nos cinemas iranianos. Com o tempo, eles começam a aparecer na Internet, no YouTube, e assim as pessoas conseguem ter acesso. Por enquanto, Foi Apenas um Acidente ainda não chegou aos iranianos. Algumas pessoas já viram trechos, mas o filme completo, ainda não”.
“Como o filme não é apresentado no Irã, ele também não poderia se qualificar para o Oscar. Pelas regras da Academia, cada filme em disputa precisa ter pelo menos uma semana de exibição nas salas de cinema em seu país. Nestes casos, as produtoras internacionais chegam a escrever cartas ao governo, para pedirem a autorização, mas nunca funciona. Não permitem a exibição, nem por uma semana. Como este filme foi produzido entre vários países, ele pode concorrer, contanto que represente outro país produtor. Mas agora, o que vai acontecer na premiação, eu não sei”.
Questionado a respeito de novos projetos, ele brinca:
“Desde que comecei a apresentar este filme, não tive mais tempo e pensar em novos projetos, porque estou sempre pelos festivais, viajando. Quando eu tinha a proibição de sair do país, era mais fácil! Assim que acabava de fazer um filme, já começava a pensar no seguinte. Acho que precisa existir um partido para proibir cineastas de saírem do país, assim eles têm tempo de produzir mais”.
Foi Apenas um Acidente chega aos cinemas em 4 de dezembro, pela Imovision.


