
Em primeiro lugar, o filme dirigido por Victoria Zolli impressiona pelo preciosismo na produção. Ciente do caráter fabular e fantástico que têm em mãos, os criadores tratam de iluminar e, principalmente, sonorizar as cenas a contento. Não existe uma única imagem sem cuidado evidente de fotografia, ou algum instante menosprezado pela criação de sons e da trilha sonora. Ao referenciar a lenda caiçara da Gruta que Chora, todos buscam uma forma de cinema grandioso, de “encher os olhos” — e ouvidos, neste caso, dada a importância da orquestração. Ainda que trabalhe em pequeno escopo narrativo e orçamentário, a equipe sonha bem alto.
Em muitos aspectos, o resultado funciona. Entre todos os curtas-metragens apresentados no primeiro dia do 24º Curta-SE — Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe, este foi aquele que se destacou, positivamente, pela sofisticação e profissionalismo da obra. Curiosamente, a ambição pode mesmo ser considerado excessiva. Através de enquadramentos pensados para transparecer o rosto da atriz através de um buraco na porta, ou os olhos da mãe por baixo da cama, a direção reflete uma estética do controle e da precisão que, em alguns instantes, beira o aspecto publicitário (a materialização do dragão em efeitos visuais) e do videoclipe (o corte da manhã para a noite, despertando a cena musical).
Logo, a representação da lenda chama mais atenção para a linguagem do que para a narrativa em si. A presença de três casais, envolvendo relacionamentos homoafetivos, pessoas indígenas e negras, além da repressão das famílias e do feitiço pelos animais mágicos, resulta saturada para um roteiro tão curto. O projeto deseja condensar mais conflitos, reviravoltas e personagens do que consegue trabalhar a contento. Neste processo, corre o risco de reduzir o elenco a arquétipos, desprovidos de subjetividade precisa — a garota lésbica, a menina indígena, o rapaz negro, etc. Em se tratando de grupos minoritários, teria sido importante conferir maior intenção à psicologia dos mesmos, conferindo-lhes voz e protagonismo, ao invés de tratá-los como meros representantes de seus grupos sociais.
O curta-metragem também se enfraquece ao explicar a metáfora que acaba de elaborar: “A lenda nasceu para nos silenciar”, esmiúça a narração. Ora, é preciso confiar nas próprias imagens e sons, na narrativa e no trabalho dos atores e, sobretudo, na capacidade do espectador de interpretar por si mesmo. Em outras palavras, A Última Lágrima: Uma Lenda Perdida no Tempo transparece uma forma de cinema que ainda carece de maturação e depuração — precisamos do devido espaço e tempo para contemplar os cenários, os personagens e as simbologias. Mesmo assim, revela uma equipe de forte potencial e coragem ao abraçar o cinema fantástico. As melhores iniciativas decorrem de tal segurança do gesto.






