Cinema Sem Teto (2025)

Um lamento

título original (ano)
Cinema Sem Teto (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
11 minutos
direção
Denise Szabo
elenco
Adeline Coelho, Hércules Mateus, Rubens Gonçalves, Jouá Schmidt
visto em
24º Curta-SE (2025)

Dentro do circuito cinéfilo, propenso a assistir a um curta-metragem independente nacional, o discurso defendido pela direção soa bastante consensual. A cineasta Denise Szabo lembra que, na cidade de São Caetano do Sul (SP), já houve diversos cinemas de rua. No entanto, todas estas salas fecharam, tornando-se outros estabelecimentos comerciais, empresariais, ou simplesmente encerrando as atividades. Ela defende, portanto, que uma municipalidade deste porte volte a ter um espaço dedicado à produção autoral. Os objetivos são, obviamente, bastante louváveis.

O dispositivo proposto a princípio também soa muito apropriado ao formato do curta. Duas cadeiras de madeira, oriundas de uma antiga sala de cinema, são deslocadas em frente aos locais onde já houve o circuito de rua sul-caetanense. Isso permite confrontar o presente e o passado, representando a sala de cinema em sua ausência. O estranhamento das cadeiras na beira da rua, observando fachadas de farmácias como se fossem telas, traduz de maneira lúdica a mensagem da autora. Enquanto performance do cinema ocupando novamente as ruas, o gesto se mostra bastante eficaz.

Entretanto, Cinema Sem Teto aparenta não acreditar na força da própria metáfora — nem na capacidade do espectador em compreendê-la. Por isso, explica-se de novo, e de novo, e de novo. Acrescenta uma narração bastante didática, em tom professoral, mais apropriado ao público infantil. Aposta tanto nas confissões em primeira pessoa (“A minha história com as salas de cinema começou em…”) quanto em apontamentos meramente retóricos (“O cinema tem esse poder de conquistar a gente!”). 

Ao final, ainda inclui letreiros a respeito do desaparecimento das salas, da importância da cultura, do clamor por um retorno destes espaços. “É importante que o cinema volte às ruas, contando as nossas histórias. Quem é que não sonha com um futuro melhor, com um final feliz?”. A apresentação embala-se em música delicada ao piano, favorecendo o tom de nostalgia conforme os figurantes ocupam as cadeiras dispostas numa praça. 

Ora, a reflexão se mostra bastante despolitizada. Nunca se tenta compreender como surgiu o problema, quais motivos políticos e econômicos levaram ao fechamento das salas, nem os desafios enfrentados pelo circuito exibidor. Por que não conversar com os antigos proprietários e gestores das salas de São Caetano? Exigir medidas e uma proposta a respeito, por parte da Secretaria de Cultura local — que figura como apoiadora do filme? O que o prefeito e os responsáveis têm a dizer sobre isso? Existe um movimento organizado de pessoas lutando por salas de cinema? Existem subvenções locais? Editais contemplam estas salas? Deputados foram acionados?

Tratar o cinema como bela fonte de magia e encantamento se prova bonito, porém, inocente demais. Em se tratando de cultura e política pública, é preciso buscar o mínimo de entendimento a respeito das raízes desta configuração. Outras cidades conseguiram resgatar seus cinemas de rua? Como sobrevivem aqueles ainda em atividade? Ora, a iniciativa deste curta-metragem se sustenta pela moral e pelas boas vontades. Entretanto, falta proatividade, investigação e uma compreensão fundamentalmente social do problema apontado.

Cinema Sem Teto (2025)
4
Nota 4/10

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