
Você sabia que, em Pernambuco, existe uma cidade chamada Buenos Aires? Ali, os habitantes criaram seus próprios times de futebol de nomes Boca Júnior e Peñarol, e pintaram as fachadas das casas de modo a obter seu próprio Caminito. Este é o ponto de partida — e também o ponto de chegada — do documentário Buenosaires, inteiramente dedicado a esta curiosidade. A equipe se desloca ao município para conhecer os moradores e questioná-los a respeito da cultura portenha no local, enquanto caçam todos os indícios possíveis de argentinidade pernambucana.
Isso significa filmar o máximo de placas de ônibus e carros com o nome Buenos Aires, além de flagrar bandeiras do país, acompanhar jogos da Copa nos quais a nação participa, testemunhar o preparo de empanadas, e visitar uma rádio que toca tango como parte da programação. Nota-se o desejo de forçar uma similitude entre ambas as culturas, para além daquela encontrada in loco pelos autores — vide o curso de espanhol gratuito, com apenas três alunos, e o caso do argentino que se mudou para a cidade brasileira. O projeto gosta da exceção que confirma a regra, mesmo que isso implique em fabricar indícios capazes de comprovar a tese original de réplica da capital argentina.
A obra vende uma grande excepcionalidade que não parece existir, de fato, naquela vida pacata.
Por isso, recorre a ficcionalizações lúdicas, ainda que bastante artificiais — caso do jogador de futebol dormindo na cadeira, até se levantar e “desligar” o filme com um controle remoto, e das conversas entre amigos diante da câmera parada, provavelmente estimulados pela direção para mencionarem o assunto. Exceto pela anedota do nome, e por casos isolados de coincidência cultural, o resto da vida dos habitantes parece bastante comum a qualquer municipalidade da região: eles gostam de música e de futebol, reúnem-se com os amigos e festejam. A obra vende uma grande excepcionalidade que não parece existir, de fato, naquela vida pacata.
Além disso, emprega-se uma narração em off, bem ar-ti-cu-la-da e explicativa, mencionando tanto os elementos originais argentinos — o que é o Caminito, o que é a Bombonera — quanto seu equivalente brasileiro. (Nós nos tornamos, nestes instantes, os verdadeiros alunos do curso gratuito de espanhol). O filme se interessa unicamente pelos indícios mais caricaturais e turísticos de argentinidade — futebol, tango, empanadas —, evitando buscar uma compreensão para além dos clichês básicos. (Este seria o equivalente de resumir o Brasil a samba, praia, etc.). Ora, a narradora menciona a época da mudança do nome da cidade. Por que se escolheu Buenos Aires, em particular? Como essa decisão foi recebida? Existe um hábito de copiar outras cidades conhecidas? Mistério.
A direção não efetua a mínima investigação a respeito de seu próprio objeto de estudo — mesmo em se tratando de um tema bastante específico, pontual, que se prestaria ao mergulho exaustivo nas raízes desta singularidade. Por isso, setenta minutos mais tarde, o espectador não terá conhecido nenhum personagem a contento, para além da própria cidade. O jogador de futebol, a professora de espanhol, o argentino legítimo e sua esposa teriam sido excelentes condutores da narrativa, caso a fotografia se aproximasse de seus corpos, de sua voz e de sua rotina. Entretanto, aqui, eles valem somente pelas menções à cultura portenha, desaparecendo na cena seguinte.
Nota-se um inesperado pragmatismo nesta abordagem, destinada a comprovar, insistentemente, o humor e o caráter pitoresco deste achado, porém, precisando se contentar com brincadeiras lúdicas por parte dos habitantes e da equipe cinematográfica. Buenosaires desperta a incômoda impressão de não possuir material suficiente para um longa-metragem, recorrendo a repetições e cenas estendidas para atingir a mínima duração oficial deste formato. Por isso, o futebol volta o tempo inteiro, mesmo sem novas informações a acrescentar, e elementos como a caça a moedas e a presença de uma juventude queer soam dispersos, acrescentados sem real interesse pelas atividades ou pelos cidadãos envolvidos.


Este efeito decorre igualmente da montagem, condenada a caminhar em círculos. Após a narração professoral afirmar que a carreira de músico de um personagem “não deslanchou por ter nascido na Buenos Aires pernambucana, longe do rock e do reggae”, o músico reafirma exatamente a mesma coisa, com palavras idênticas. Após filmar o preparo e o anúncio das empanadas durante um jogo de futebol, a câmera se fecha no rosto de uma família degustando o alimento nas arquibancadas. Isso é pouco, muito pouco, para uma obra que nunca analisa origens, fricções ou dissidências de sua premissa. Além disso, paira a pergunta de base: por que a direção desejava nos transmitir esta informação? Por que julgou que ela bastaria para um longa-metragem? O que deseja transmitir a partir deste exemplo de caso?
Isso porque o documentário aparenta procurar uma aproximação simbólica entre os dois países, através do esporte e da cultura. O que aconteceria caso, ao invés desta rivalidade um tanto fortuita entre Brasil e Argentina, houvesse uma admiração recíproca, despertando inclusive cópias e homenagens ao país vizinho? Afinal, o projeto se inicia com uma citação de Waly Salomão, para quem “a vida é sonho”. Infelizmente, uma vez confrontada ao real (e notando sua evidente distância para com a aspiração de simbiose brasileira-argentina), a mise en scène não sabe muito bem o que fazer, contentando-se em acumular indícios da picardia inicial. Terminada a sessão, teremos descoberto que existe, em Pernambuco, uma cidade chamada Buenos Aires, que replica os nomes de equipes de futebol e o Caminito — exatamente o que havíamos descoberto nos primeiros minutos de projeção.




