Buenosaires (2025)

Guia dos curiosos

título original (ano)
Buenosaires (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
70 minutos
direção
Tuca Siqueira
visto em
12ª Mostra de Gostoso (2025)

Você sabia que, em Pernambuco, existe uma cidade chamada Buenos Aires? Ali, os habitantes criaram seus próprios times de futebol de nomes Boca Júnior e Peñarol, e pintaram as fachadas das casas de modo a obter seu próprio Caminito. Este é o ponto de partida — e também o ponto de chegada — do documentário Buenosaires, inteiramente dedicado a esta curiosidade. A equipe se desloca ao município para conhecer os moradores e questioná-los a respeito da cultura portenha no local, enquanto caçam todos os indícios possíveis de argentinidade pernambucana.

Isso significa filmar o máximo de placas de ônibus e carros com o nome Buenos Aires, além de flagrar bandeiras do país, acompanhar jogos da Copa nos quais a nação participa, testemunhar o preparo de empanadas, e visitar uma rádio que toca tango como parte da programação. Nota-se o desejo de forçar uma similitude entre ambas as culturas, para além daquela encontrada in loco pelos autores — vide o curso de espanhol gratuito, com apenas três alunos, e o caso do argentino que se mudou para a cidade brasileira. O projeto gosta da exceção que confirma a regra, mesmo que isso implique em fabricar indícios capazes de comprovar a tese original de réplica da capital argentina.

A obra vende uma grande excepcionalidade que não parece existir, de fato, naquela vida pacata.

Por isso, recorre a ficcionalizações lúdicas, ainda que bastante artificiais — caso do jogador de futebol dormindo na cadeira, até se levantar e “desligar” o filme com um controle remoto, e das conversas entre amigos diante da câmera parada, provavelmente estimulados pela direção para mencionarem o assunto. Exceto pela anedota do nome, e por casos isolados de coincidência cultural, o resto da vida dos habitantes parece bastante comum a qualquer municipalidade da região: eles gostam de música e de futebol, reúnem-se com os amigos e festejam. A obra vende uma grande excepcionalidade que não parece existir, de fato, naquela vida pacata.

Além disso, emprega-se uma narração em off, bem ar-ti-cu-la-da e explicativa, mencionando tanto os elementos originais argentinos — o que é o Caminito, o que é a Bombonera — quanto seu equivalente brasileiro. (Nós nos tornamos, nestes instantes, os verdadeiros alunos do curso gratuito de espanhol). O filme se interessa unicamente pelos indícios mais caricaturais e turísticos de argentinidade — futebol, tango, empanadas —, evitando buscar uma compreensão para além dos clichês básicos. (Este seria o equivalente de resumir o Brasil a samba, praia, etc.). Ora, a narradora menciona a época da mudança do nome da cidade. Por que se escolheu Buenos Aires, em particular? Como essa decisão foi recebida? Existe um hábito de copiar outras cidades conhecidas? Mistério.

A direção não efetua a mínima investigação a respeito de seu próprio objeto de estudo — mesmo em se tratando de um tema bastante específico, pontual, que se prestaria ao mergulho exaustivo nas raízes desta singularidade. Por isso, setenta minutos mais tarde, o espectador não terá conhecido nenhum personagem a contento, para além da própria cidade. O jogador de futebol, a professora de espanhol, o argentino legítimo e sua esposa teriam sido excelentes condutores da narrativa, caso a fotografia se aproximasse de seus corpos, de sua voz e de sua rotina. Entretanto, aqui, eles valem somente pelas menções à cultura portenha, desaparecendo na cena seguinte. 

Nota-se um inesperado pragmatismo nesta abordagem, destinada a comprovar, insistentemente, o humor e o caráter pitoresco deste achado, porém, precisando se contentar com brincadeiras lúdicas por parte dos habitantes e da equipe cinematográfica. Buenosaires desperta a incômoda impressão de não possuir material suficiente para um longa-metragem, recorrendo a repetições e cenas estendidas para atingir a mínima duração oficial deste formato. Por isso, o futebol volta o tempo inteiro, mesmo sem novas informações a acrescentar, e elementos como a caça a moedas e a presença de uma juventude queer soam dispersos, acrescentados sem real interesse pelas atividades ou pelos cidadãos envolvidos.

Este efeito decorre igualmente da montagem, condenada a caminhar em círculos. Após a narração professoral afirmar que a carreira de músico de um personagem “não deslanchou por ter nascido na Buenos Aires pernambucana, longe do rock e do reggae”, o músico reafirma exatamente a mesma coisa, com palavras idênticas. Após filmar o preparo e o anúncio das empanadas durante um jogo de futebol, a câmera se fecha no rosto de uma família degustando o alimento nas arquibancadas. Isso é pouco, muito pouco, para uma obra que nunca analisa origens, fricções ou dissidências de sua premissa. Além disso, paira a pergunta de base: por que a direção desejava nos transmitir esta informação? Por que julgou que ela bastaria para um longa-metragem? O que deseja transmitir a partir deste exemplo de caso?

Isso porque o documentário aparenta procurar uma aproximação simbólica entre os dois países, através do esporte e da cultura. O que aconteceria caso, ao invés desta rivalidade um tanto fortuita entre Brasil e Argentina, houvesse uma admiração recíproca, despertando inclusive cópias e homenagens ao país vizinho? Afinal, o projeto se inicia com uma citação de Waly Salomão, para quem “a vida é sonho”. Infelizmente, uma vez confrontada ao real (e notando sua evidente distância para com a aspiração de simbiose brasileira-argentina), a mise en scène não sabe muito bem o que fazer, contentando-se em acumular indícios da picardia inicial. Terminada a sessão, teremos descoberto que existe, em Pernambuco, uma cidade chamada Buenos Aires, que replica os nomes de equipes de futebol e o Caminito — exatamente o que havíamos descoberto nos primeiros minutos de projeção.

Buenosaires (2025)
4
Nota 4/10

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