Pupá (2024)

Mãe de todos

título original (ano)
Osani (2024)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
14 minutos
direção
Osani
visto em
12ª Mostra de Gostoso (2025)

Edna Maria, mais conhecida na cidade de Acari (RN) como Pupá, tem vários filhos. Ela cuida de suas crianças como cuida dos vizinhos, para quem prepara poções compostas por flores, frutas e legumes. Ela também pratica o jogo do bicho, e se mostra afeita a premonições e leituras místicas. O curta-metragem, dirigido por Osani — um dos filhos de consideração da personagem —, constrói uma espécie de mito fundador para esta mulher. Somos introduzidos à protagonista quase na condição de figura mitológica.

Por isso, investe-se em cenas cômicas, a exemplo do filhotinho devorando a caneta da mulher sobre a mesa, e em narrações de profunda sinceridade, quando Pupá declara beber e fumar bastante. Apesar da evidente adoração à personagem, ela nunca é idealizada: o cineasta prefere um retrato de seus vícios e virtudes, seus aspectos tão mundanos quanto transcendentais. Adota-se, desta maneira, a mesma sinceridade bruta desta mãe-de-todos, quando elenca os relacionamentos e abandonos por parte dos pais de seus filhos.

Infelizmente, o divertido curta-metragem se enfraquece devido a algumas escolhas curiosas de iluminação — a luz avermelhada projetada sobre a heroína no interior da casa, a fotografia mal trabalhada no forró, à noite. Em paralelo, algumas ficcionalizações soam rígidas demais — caso dos filhos beijando a mãe, um por um, e depois se sentando de costas ao espectador, sobre um tronco de árvore. Esta espécie de ritual soa excessivamente coreografado para a câmera, rompendo com o pacto naturalista que se desenhava esteticamente até então.

Mesmo assim, sobressai a disposição do autor em observar esta mulher no cotidiano, por meio de ações simples. Nunca se maquia a realidade para torná-la melhor, nem mais grave do que é. Osani aparenta amar esta figura por ser tão excepcional e, ao mesmo tempo, tão semelhante a qualquer outra figura materna, em suas contradições e complexidades — ela possui dúvidas a respeito da própria identidade indígena, por exemplo. Não é nada fácil abraçar tantos aspectos em curta duração, sustentando um ritmo de tamanha fluidez. Maneja-se com evidente facilidade as questões de tom e ponto de vista.

Talvez o projeto pudesse dispensar parte de sua narração explicativa em off. Trata-se praticamente uma epidemia nas produções recentes, que se estimam mais sinceras, e conferindo mais lugar de fala, caso os personagens se apresentem e controlem o rumo da narrativa em textos escritos e lidos ao espectador. Ora, existem outras maneiras de conferir protagonismo, e dar voz à personagem, sem recorrer à ferramenta tão literal. Mesmo assim, o saldo é positivo, despertando curiosidade quanto aos próximos passos do cineasta.

Pupá (2024)
6
Nota 6/10

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