
Um assaltante mascarado invade uma casa de luxo. Aparentemente, ele tem todo o tempo do mundo para sua ação. O rapaz não precisa arrombar nenhuma porta, tampouco enfrenta o problema de algum alarme — o roteiro decide facilitar a sua tarefa. Mesmo assim, nós observamos o jovem pela primeira vez do lado de fora do imóvel, de longe, para deixar claro que não estamos com ele (portanto, não somos cúmplices, e sim, voyeurs). Um lento zoom-in se aproxima da cena do crime com curiosidade: o que ele fará a seguir?
O diretor Igor Bezerra sabe muito bem construir uma atmosfera de perigo, enquanto se diverte em oferecer pistas falsas — vide a câmera de segurança que nunca resulta em perseguição, ou a bandeira brasileira na parede, sugerindo um confronto ideológico jamais explicitado. De qualquer modo, sabemos que algo grave vai acontecer. Devido à referência imediata às fábulas de Esopo — o livro se encontra convenientemente sobre uma bancada —, somos convidados a ler este percurso pelo viés fabular, o que implica na promessa de uma lição de moral no desfecho. Sabemos, portanto, que o macho alfa desta história será punido por sua infração.
O castigo não tarda a aparecer (o homem é o lobo do homem, de fato). Ao encontrar outros colegas ladrões, que assaltavam casas vizinhas — o acesso a estes domicílios é surpreendentemente inconsequente —, eles encontram sacos de dinheiro na floresta ao lado. Pensam na solução mais plausível ao estranho contexto: um policial teria escondido o produto de seu roubo ali. Ora, o trio não precisará de policiais, vigias de condomínios, nem moradores para lhes aplicar um corretivo. Neste caso, a ganância motiva os rapazes a se voltarem rapidamente uns contra os outros.
O projeto combina os prazeres extremos do horror com a polidez do suspense, revelando uma equipe em sintonia entre as funções de direção, fotografia, som, arte e montagem.
A velocidade desta escalada de tons poderia soar abrupta, porém, o cineasta conduz com impressionante segurança sua revanche fratricida. Seja pela fotografia segura e muito elegante, seja pelo ótimo trabalho de som, ou ainda pela composição bastante competente do elenco (Caio Marcel possui firmeza na voz e no olhar, digna dos líderes), o resultado impressiona pelo profissionalismo. É uma alegria nos deparar com o velocíssimo desenvolvimento do projeto Nós do Audiovisual que, em poucos anos, capacitou jovens para criarem audiovisual no alto nível exigido pelos nossos melhores festivais.
É certo que alguns excessos ou arestas poderiam ser aparados. O martelo surge convenientemente no chão, quando um amigo ataca o outro; e o plano de detalhe num frasco de vidro explicita, de maneira didática, algo que havia se tornado suficientemente claro no plano anterior. Mesmo a moral da história, introduzida numa longa imagem (“Não há honra entre ladrões”), pode ser questionada: por que esmiuçá-la a tal ponto, introduzindo-a tão cedo na narrativa? Uma vez que a frase é sublinhada junto ao espectador, já podemos antever os próximos passos.
Mesmo a reiteração da imagem do Diabo pode diminuir a sua força — no cinema de gênero, uma criatura é muito mais impactante pelo que imaginamos dela do que por sua materialização. Em outras palavras, a curta aparição ao final teria mais impacto sem o ensaio fotográfico com o personagem durante os créditos finais. Já a utilização da máscara de animais remete demasiado a blockbusters recentes de terror (Você É o Próximo, Jogos Mortais: Jigsaw, Massacre no Texas, etc.). O título também poderia ser questionado, visto que o cinema brasileiro possui outro projeto homônimo de terror, bastante recente (2018).
Mesmo assim, trata-se de detalhes perto das inúmeras qualidades da obra. O Nó do Diabo investe num terror sem concessões, orgulhoso das ferramentas do cinema de gênero, e bastante competente na condução da trama. Ele possui a duração exata ao curta-metragem, sem uma única cena excessiva. Além disso, pelo refinamento da sequência de abertura, solicita ao espectador que leve a sério a carnificina que seguirá depois. (É um prazer quando os cineastas percebem a enorme importância das primeiras e últimas cenas). O projeto combina os prazeres extremos do horror com a polidez do suspense, revelando uma equipe em sintonia entre as funções de direção, fotografia, som, arte e montagem.






