
Amargo traz uma história de violências. O curta-metragem se abre com o incêndio num canavial, que logo compreendemos possuir origem criminosa. Em seguida, atestamos a presença de profundas cicatrizes nas costas do protagonista. Do início ao fim, a montagem insiste em aproximar a natureza que queima e o corpo que arde, como se as chamas tomando conta do campo fossem uma metáfora para este cortador de cana, cansado de sua sina, e prestes a se revoltar contra o sistema.
A direção possui uma curiosa estratégia de sugerir significados, somente para explicá-los em seguida. Inicialmente, revela as marcas em seu personagem de modo suficientemente claro. Depois, no entanto, faz com que o próprio se esforce em contorcer o corpo para admirar o sinal destas agressões no espelho. Uma vez revelados os incêndios, e uma pessoa ateando fogo às plantações, chega uma reportagem de rádio, conveniente e explicativa, relembrando os perigos das queimadas, e suas consequências para as pessoas ao redor. A mise en scène parece lançar uma pista, porém, voluntariosa e gentil, soluciona a charada sem nos dar tempo de fazê-lo sozinhos.
A estratégia de sugerir e esclarecer se mantém com o nosso protagonista silencioso e sem nome. Este homem solitário não aparenta ter relações afetivas, familiares, nem de amizade. Vive sozinho na casa modesta, e sustenta uma personalidade misteriosa — ele sempre foi assim? Não conversa com outros cortadores de cana? O que sente em relação aos incêndios crescentes? Mesmo assim, instaurado o ataque de fúria contra o açúcar em seu café, ele explode de modo a lançar o produto pelo chão. Há uma mistura, ou talvez indecisão, entre a busca por sutileza e a tentativa de ser claríssimo, algo que nem sempre resulta coeso.
Isso vale, igualmente, para o encontro entre a atuação dedicada de Jailson Silva, de corpo embrutecido e olhar forte, frente a um trabalho menos aprimorado de som — vide os estrondos ao abrir e fechar uma gaveta de madeira, e mesmo o ruído do uniforme vestindo o corpo. Por um lado, as imagens das queimadas são impressionantes, inclusive pelo ângulo e enquadramento nos quais a fotografia escolhe captá-las. Por outro lado, o interior da casa, onde se passa a maior parte da narrativa, careceria de maior cuidado com texturas e volumes. A luz neste espaço permanece chapada demais.
Logo, Amargo soa como uma bela iniciativa, ainda que de desenvolvimento modesto. O filme possui seu discurso político muito claro, assim como as metáforas que lhe parecem adequadas (o café, o açúcar, as formigas). Falta, em contrapartida, humanizar este homem-arquétipo, conferindo-lhe subjetividade e deixando que se expresse (mesmo que simbolicamente, ainda em silêncio). Quando a narrativa se encerra, ela parecia enfim começar — como se aquela fosse a preparação para uma explosão do trabalhador precarizado, fora de quadro.






