
Nos palcos do Cine São José, durante a apresentação no 20º Comunicurtas, o ator Luiz Carlos Vasconcelos descreveu este curta-metragem como “o encontro de duas pessoas”. Trata-se de uma descrição surpreendentemente simples, e também precisa, para um filme de exceção, navegando entre a fantasia, o suspense, o romance e a fábula filosófica. No caso, um homem encontra, de fato, uma mulher. O único cliente de um café minúsculo (Luiz Carlos Vasconcelos) começa a interagir com a triste garçonete do estabelecimento (Ingrid Trigueiro).
O crachá com a palavra Marta, colado ao peito, o motiva a chamá-la incontáveis vezes pelo nome. “O senhor gostou do meu nome, né?”, ela brinca. A cena é descrita pelo personagem masculino, que se dirige com frequência ao espectador, quebrando a quarta parede. Para nós, ele descreve a presença feminina no local enquanto figura deprimida, perdida, de aparência carente. Com ela, começa a discutir a natureza e os hábitos das moscas (o díptero braquícero do título), a partir do instante em que o inseto cai em seu prato.
Ao contrário da mosca, que luta desesperadamente para sobreviver, Marta parece ter aceitado sua sina, ele conclui. A mulher escuta suas falas por simples distração, já que, aparentemente, não possui outras atribuições no café naquele momento. Algo neste dispositivo nos remete à dramaturgia de A Mais Forte, de Strindberg, onde duas mulheres se confrontam num café. Uma fala demais, e a outra, nenhuma palavra sequer. A primeira insulta a segunda, que a escuta sem parar. Quem detém o poder, entre as duas? Aquela que parte para o ataque, ou a outra bastante confortável na defesa? Algo semelhante ocorre aqui: quem de fato controla o espetáculo? (Enquanto isso, o gesto de devorar o inseto nos remete à Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector).
Outras referências seriam possíveis neste cruzamento tão complexo de sentimentos e falas. O texto denso e provocador, adaptado do livro de Bruno Ribeiro, faz com que a interação entre eles passe da arrogância à sedução, da empatia à provocação. Luiz Carlos Vasconcelos devora um monólogo longuíssimo, através de um personagem que se esforça até demais para impressionar. Já Ingrid Trigueiro evita o estereótipo da melancolia, ocultando o olhar cansado por baixo do súbito interesse na fala deste cliente histriônico. Ele constitui o típico narrador em off, com a exceção de estar bem presente em cena, tal qual um mestre de cerimônias, buscando entreter a única figura da plateia.
Rodolpho de Barros suspende o realismo por meio de escolhas formais que apontam ao horizonte de fantasia: o cinemascope bem elegante, o preto e branco distante do naturalismo, a fala empolada do ator. Este mundo representa claramente um cenário, uma espécie de ringue previsto para o enfrentamento entre ambos. Nada virá interrompê-los — nem a chegada de outro cliente, uma ligação telefônica, ou semelhantes. Durante a curta duração da narrativa, existem somente os dois em cena, com o acréscimo da importante mosca no prato. Adiante, o animal asqueroso e combativo apodera-se, quase literalmente, da trama.
Assim, A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero se converte numa fábula kafkiana, tão romântica quanto asquerosa, tão divertida quanto sinistra. O cineasta demonstra domínio impressionante da mise en scène — especialmente quando opta por deixar uma frase fundamental no texto sobreposta a um black, à tela preta, para que o espectador se projete naquela lacuna e construa por si mesmo as imagens que faltam. A narrativa possui a duração ideal para seu formato, assim como a compreensão de que o curta-metragem implica numa linguagem própria, ao invés de se contentar em ser um mini longa-metragem. Poucos filmes adaptariam tão bem um conto de natureza mais introspectiva do que imagética, com tamanha potência de imagem e som.






