
Perto do Sol É Mais Claro nasce de uma dubiedade, uma incerteza. Por um lado, oferece a Reginaldo Faria um papel diferente de si próprio: o protagonista é um engenheiro (ou seria mestre de obras?), supervisionando a construção de casas e lidando com uma patroa desumana. Ele assiste a espetáculos de teatro com o maravilhamento de quem não comparece a estes espaços com frequência — podemos falar em um homem de alma poética, embora não diretamente associado às artes. Mesmo assim, ele deseja escrever um livro, e toca violão.
Por outro lado, o filme insiste em nos lembrar que esta figura constitui, sim, Reginaldo Faria, o cineasta e ator de longas-metragens fundamentais do cinema brasileiro (Assalto ao Trem Pagador, Pra Frente Brasil, Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, Memórias Póstumas), além de povoar o imaginário popular com inúmeras novelas. Regi (o nome do protagonista é o apelido real do ator) possui os cartazes de filmes estrelados e dirigidos por Reginaldo na parede, além dos troféus recebidos nas estantes.
Além disso, os personagens mantêm seus nomes: Vanessa (Vanessa Gerbelli), Marcelo (Marcelo Faria), Candé (Candé Faria), etc. O diretor Regis Faria insiste que aquele contexto é, e não é, uma biografia de seu pai. Efetua esforços evidentes para dissociar a ficção da realidade, apenas para acenar e sublinhar que se trata, sem dúvida, de uma homenagem. Esta indefinição conceitual prejudica o longa-metragem, no sentido de nunca se descolar por completo das pessoas e contextos, nem assumir a obviedade de referenciar o artista que, aos 85 anos, ainda cria, toca música, escreve, faz cinema.
O filme se equilibra entre a vida como ela é e como poderia ser; entre o retrato do homem ordinário e a homenagem a um ícone do audiovisual brasileiro; entre o envelhecimento como bênção e como maldição.
Isso porque o envelhecimento constitui o tema central da iniciativa. O drama possui a tese de que a idade avançada não precisa coincidir com uma interrupção das atividades. Por isso, apresenta um homem que ainda sobe escadas de madeira nas construções, apaixona-se e faz sexo (exclamando, ao espectador, “Asilo é o cacete!” durante o ato), nada na piscina, caminha, vai a bares. Em especial, sustenta uma ampla gama de vontades para o futuro, o que implica no desenvolvimento do romance intitulado “O projeto dos projetos que ainda não fiz”. O cineasta deseja imortalizar o pai em sua plena potência, vigor e inspiração. Qualquer mácula ou defeito será devidamente suprimido deste elogio.
Assim, cria-se um mundo para Regi. Trata-se de um universo repleto de presentes e coincidências: por acaso, ele encontra na rua a atriz Vanessa, que decide ir à casa do homem e, a partir daquele momento, não sai do domicílio dele. A namorada súbita também possui o contato de um grande editor — veja só — disposto a editar o livro do protagonista. Após um quiproquó inicial envolvendo a construção, a sequência dos fatos vem lhe dar razão quanto ao projeto. Os filhos, inicialmente ausentes, se arrependem e o prestigiam. Ele possui condições financeiras suficientes para manter a casa principal, além de um casarão de veraneio, sessões de psicanálise e todas as atividades que lhe derem vontade. Opta-se por um otimismo redentor, providencial — tudo dará certo, porque o autor assim o deseja.
Para um longa-metragem dirigido, roteirizado, produzido, fotografado, sonorizado e montado por Regis Faria, o resultado impressiona, sem dúvida, graças à polidez incomum a um one man show. Entretanto, desconsiderando este fato, e comparando o resultado com tantas outras obras apresentadas no mesmo festival de cinema, ou nas salas escuras ao lado, a estética ainda transparece algumas fissuras. Durante o Comunicurtas, a projeção sofreu com inúmeros problemas de som, que nos impedem de contemplar justamente a captação e a mixagem. Tal qual foi exibido ao público, o desenho sonoro de Perto do Sol É Mais Claro se mostrou desigual, com eventual aparência de uma captação diretamente da câmera (caso das cenas do chuveiro e do médico).
Já a fotografia se permite hesitar, tremer a câmera, estourar demasiadamente a luz (na cena da farmácia). Em paralelo, para facilitar o trabalho do roteiro, o protagonista exterioriza diversos pensamentos em voz alta, de modo a informar o espectador: “Porra, acabou a tinta!”, “Pelo menos, com essa coisa do passado, eu escrevo e não apaga” (em referência a uma máquina de escrever), etc. Estes recursos convenientes afastam o resultado do naturalismo almejado. Por mais que o humor alivie algumas passagens (vide o difícil carregamento do saco de cimento), no caso das demais interações, o projeto ainda busca retratar a vida média de um homem “comum” (ainda que privilegiado e de classe média-alta, entenda-se).


Caso o espectador ainda não tenha captado a discussão a respeito da finitude e da maturidade, o final multiplica as frases de efeito poéticas sobre esta questão: “Sem percebermos, a vida corre depressa, como um sopro”, enquanto Regi dispara, ao filho: “Um dia você vai entender o quanto é difícil envelhecer”. Assim, o drama se encerra com as mesmas contradições fundamentais do início, sugerindo que a idade avançada pode ser dificílima, mas também uma delícia; pode tornar a pessoa invisível, embora Regi seja solicitado e visto até demais; pode te impedir de continuar, apesar de o homem produzir, criar e se deslocar sem parar.
Em suma, o filme se equilibra entre a vida como ela é e como poderia ser; entre o retrato do homem ordinário e a homenagem a um ícone do audiovisual brasileiro; entre o envelhecimento como bênção e como maldição. Pretende ser a carta de um filho cineasta ao pai cineasta, mas também um modelo no qual todos os espectadores poderiam enxergar suas próprias figuras paternas. Ironicamente, na ânsia de retratar os dilemas da velhice, retira estes dilemas de cena, oferecendo, com surpreendente felicidade, uma nova namorada, dinheiro, trabalho, apoio terapêutico, amigos. A obra tenta segurar, num abraço só, o mundo e a ilusão.




