
A única parcela de explicação temática surge logo no princípio deste longa-metragem. A cidade de Nazarezinho, no sertão da Paraíba, é apresentada enquanto “polo produtor de rapadura de excelência”. Mesmo assim, “hoje, apenas dois engenhos mantêm viva a tradição”. Passada esta sucinta descrição, acompanhamos em particular os esforços de Zizinha, homem que se dedica ao ofício há décadas. O filme o admira, mas, em primeiro lugar, decide aprender com ele. Por isso, observa-o em silêncio, à distância, tal qual o aluno esperando pacientemente o ensinamento do mestre.
Isso implica em imagens fixas, frontais, de enquadramentos bastante abertos. Os homens são devidamente associados à natureza vizinha, aos espaços do engenho, e ao vazio dos terrenos. O diretor Ramon Batista compreende a necessidade de atrelar a representação dos homens àquela da natureza, ou ainda, à configuração da geografia em que se inserem. Por isso, trabalha com uma direção de fotografia elegante, de evidente prazer na composição dos enquadramentos, e esmero impecável de iluminação. O filme sabe observar, assim como sabe escutar. Ele está disposto a compreender, ao invés de se munir de um conhecimento pronto para transmitir ao espectador.
Batista demonstra uma rara atenção aos processos. Em paralelo, combina seu interesse social com uma poesia rara.
Moagem possui a particularidade de ter sido filmado durante cerca de treze anos. Isso implica numa persistência rara do cineasta junto ao produtor, Alexandre Soares Taquary, além da disposição a incorporar mudanças de estilo decorrentes dos distintos profissionais que assumiram o comando das funções de fotografia, som e montagem ao longo dos anos. Por isso, o segmento inicial traz uma belíssima atmosfera de sonho graças às cores pastéis, de pouco contraste, em ar levemente esfumaçado. Adiante, esta característica desaparece, e voltamos a ter um padrão de contraste e nitidez comuns ao cinema digital contemporâneo.
As mudanças de textura e luz soam condizentes com as transformações nesta ocupação durante mais de uma década, razão pela qual as variações nunca despertam o sentimento de pouca coesão. Em contrapartida, o emprego de intertítulos poéticos jamais contribui à organização da narrativa. “2011: um tempo passado”, “2015: energia para a vida e para o engenho”, “2020: atravessando o tempo presente”, “2021: novos tempos”, “2024: derradeiros dias”, etc., pontuam a trama, embora não sustentem diferenças essenciais entre cada passagem. Soam como alusões metafóricas a mudanças que nunca testemunhamos, graças sobretudo ao desejo da direção em observar, em detrimento de explicar.
Logo, Moagem se sai melhor enquanto retrato antropológico de um modo de vida do que de descrição das mudanças sofridas na indústria de rapadura — em outras palavras, ele retrata melhor os espaços do que os tempos. Muitos acontecimentos captados em 2011, 2015, 2020, e assim por diante, poderiam ser reagrupados em outros segmentos, sem real prejuízo ao resultado. Não fossem pelas mudanças estéticas entre capítulos, a passagem do tempo mal seria percebida: aqui, a linguagem se atualiza muito mais do que as técnicas de trabalho com a cana.
Em paralelo, o desenho sonoro despertou algumas reticências — sobretudo em virtude da qualidade dos equipamentos no Cine São José, onde foi exibido ao público do Comunicurtas, ao invés das características da obra em si. Mesmo assim, torna-se impossível avaliar o som direto e a mixagem, compreendendo o pensamento por trás do casamento entre ruídos e diálogos. Do modo como foi apresentado, o som necessitaria de legendas, em especial, nos primeiros trinta minutos, para tornar compreensíveis as falas de Zizinha. Ao menos, o longa-metragem conta com pouquíssimas conversas, e permite que as imagens falem bastante por si próprias.
Ao final, Batista demonstra uma rara atenção aos processos. Em oposição a tantos documentaristas que buscariam conflitos evidentes, ou questões ligadas ao cotidiano familiar e afetivo do protagonista, o cineasta prefere descobrir como é feita a rapadura. Observa cada instrumento, cada cana moída, o melaço agitado nos caldeirões, o transporte, o armazenamento. Desvenda algo que nunca foi um segredo, somente uma prática invisibilizada enquanto profissão e manufatura. O diretor manifesta a mesma curiosidade saudável da criança que desmonta o brinquedo para entender como ele funciona por dentro.


Em paralelo, combina tamanho interesse social com uma poesia rara. O documentário nunca convida o espectador a se indignar com o desaparecimento dos engenhos, a lamentar a perda progressiva desta prática, nem a se revoltar contra possíveis responsáveis por tais mudanças (nunca apontadas deliberadamente pela direção). Mesmo quando Zezinha chora, a montagem permanece distante, inabalável, evitando converter o retrato num convite ao sentimentalismo. Moagem consiste numa obra fatual, direta, e rigidamente fiel ao dispositivo adotado mais de uma década atrás.
É possível que tamanho distanciamento seja interpretado como frieza por parte dos espectadores. Afinal, os documentários recentes se acostumaram a procurar o espectador por meio de uma simplificação das ações, uma explicação voluntariosa dos conflitos, uma ânsia de agradar, divertir, entreter. O projeto paraibano acredita numa linha documental distinta, um tanto austera, porém mais respeitosa em relação à capacidade do espectador em tirar conclusões e levantar hipóteses por conta própria. Existe uma beleza pictural próximas das artes plásticas nestas composições, e também na disposição a observar o ofício com um encantamento estético primoroso. A empatia e afinidade da direção com seu objeto de estudo se transmite sobretudo na nobreza como ela o filma.



