
O primeiro filme exibido no 20º Fest Aruanda representou uma escolha bastante ousada da curadoria. Nada de produções consensuais ou populares para abrir os trabalhos, mas uma videoarte, desprovida de narrações ou diálogos, representando os desenhos rupestres encontrados nos rochedos das Itacoatiaras do Ingá (PB). Em outras palavras, nove minutos de pesquisa estética, a partir de uma câmera sempre móvel, sobrevoando e mergulhando pelas paisagens do local.
O cineasta e artista visual João Lobo permite, então, que nossa tecnologia mais contemporânea (a captação em drones, em especial) encontre a arte de muito tempo atrás, promovendo um contraste de formas e percepções a respeito da produção humana. A imagem desliza pelas matas, pelos rios, circundando a paisagem, até mergulhar nas águas. Chega às inscrições antigas, e em seguida, percorre estes desenhos numa voracidade panorâmica — passeando sem se atentar a nenhuma destas formas em particular.
Em consequência, o espectador ganha a oportunidade de um primeiro olhar acerca destas inscrições, sem jamais contemplar nenhuma delas em detalhes. As sobreposições, fusões e o onipresente trabalho de trilha sonora tampouco contribuem a uma fruição estética autônoma. A orquestração sugere tamanha grandiosidade e autoimportância que somos condicionados a observar as imagens com um senso de solenidade. A música nos induz a compreender aquela experiência enquanto ritual de grande importância.
Ironicamente, tamanha pompa sonora se costura a uma construção imagética muito menos elaborada. Para um filme tão focado no desbunde estético, surpreende a captação digital de baixa qualidade, marcada por pixelizações, além dos movimentos bruscos do drone, e de cortes abruptos na passagem da terra ao mar, por exemplo. Em determinados instantes, o projeto se aproxima de uma apresentação institucional, ou mesmo turística, voltada ao olhar estrangeiro — ou seja, criando um imaginário consensual de beleza, evitando explorar as especificidades deste local em particular.
Isso significa que admiramos rapidamente a arte rupestre, ao invés de refletirmos a respeito dela. Há quanto tempo existe? Estas inscrições estão presentes somente nas Itacoatiaras do Ingá? Como são preservadas? O que nos dizem a respeito da natureza, e dos povoados que ali viviam? O autor cria sua obra a partir deste local, porém, nunca demonstra interesse em compreendê-lo de fato, nem expressar um posicionamento (ecológico, político, ideológico, que seja) a partir desta raridade. Utiliza a natureza enquanto matéria-prima para sua própria escultura, sem nos permitir entender o valor destes rochedos tão especiais.




