20º Fest Aruanda e os filmes universitários da UFPB

No dia seguinte à apresentação de vinte curtas-metragens universitários internacionais no Fest Aruanda — Festival do Audiovisual Internacional da Paraíba, chegou a hora de conhecer os equivalentes brasileiros. No caso, onze filmes da Universidade Federal da Paraíba foram apresentados ao público — sobretudo, aos próprios estudantes, que puderam prestigiar pela primeira vez seus projetos exibidos na gigantesca tela do cinema, com ótima estrutura de projeção e som. Neste momento, tanto as qualidades quanto os defeitos são ampliados ao olhar. 

Esta também representa a oportunidade para os criadores perceberem o efeito de seus trabalhos em outros espectadores — ou seja, quando os colegas engajam e quando se dispersam; quando riem ou comentam. Para a imprensa presente, a sessão prometia revelar o melhor dos trabalhos produzidos pela nova geração universitária paraibana, após filtragem da curadoria do festival. Por isso, é possível alinhar alguns pontos e reincidências entre os trabalhos exibidos na tarde de 9 de dezembro, no Manaíra Shopping.

O Morcego, de Gealyson José Soares
O Morcego, de Gealyson José Soares

Em primeiro lugar, havia pouquíssimas ficções. O orçamento habitualmente superior para este suporte pode justificar a predileção por variações entre o documentário, o ensaio e o cinema experimental. A animação O Morcego, de Gealyson José Soares, talvez seja a única investida inteiramente fictícia do conjunto. Com apenas 48 segundos, apresenta o pavor de um homem face ao morcego que invade a sua casa. Desprezemos os letreiros explicativos no final: saltam aos olhos os belos traços de uma animação crua e agressiva, como exigia o tema. Há um teor expressionista nestas formas, que despertam curiosidade para os próximos filmes do cineasta.

Dois projetos dirigidos por Caroline Cavalcanti investem num hibridismo com a ficção. A cineasta mais experiente da turma, após a seleção do premiado Lapso no Festival de Berlim, representa violências cometidas contra as mulheres. No caso de Sem Efeito, parte de uma personagem feminina fictícia, que descobre um documento real. Já em Tire a Mão, co-dirigido com Jhofelix, o estilo assumidamente documental adquire ares de ficcionalização conforme um homem, cujo rosto está coberto por um capacete, começa a se aproximar perigosamente da estudante sozinha no ponto de ônibus. 

Tire a Mão, de Carol Cavalcanti e Jhofelix
Tire a Mão, de Carol Cavalcanti e Jhofelix

Trata-se do único instante de tensão, pensado em termos de mise en scène, com consciência de ritmo e montagem, entre os onze títulos. A discreta atuação não procurar chamar atenção a si própria, navegando organicamente pelo campo da reconstituição exemplar. Fosse captado com um dispositivo de textura digital um pouco mais nítida, e menos pixelizada, integraria com facilidade festivais nacionais de cinema, para além do âmbito estudantil. 

Uma das várias divisões possíveis para organizar as propostas diz respeito aos filmes com estilos e ornamentos em demasia, contra aqueles que careciam de novos materiais para se desenvolverem a contento. No grupo dos excessivos, encontra-se Meu Lugar, Existências Antropizadas Pelos Espaços Trópicos, de José Lacerda. O diretor divide sua trama em capítulos, e então adiciona subcapítulos, letreiros e demais informações em tela. Salta do presente ao passado, do colorido ao preto e branco, do corte seco à fusão e à sobreposição.

Meu Lugar, Existências Antropizadas Pelos Espaços Trópicos, de José Lacerda
Meu Lugar, Existências Antropizadas Pelos Espaços Trópicos, de José Lacerda

Munido de inúmeras vontades, não consegue estabelecer prioridades, nem direcionar o olhar e o foco — características que constituem um pré-requisito da direção. Algo semelhante ocorre, em menor medida, em Lugar de Fala — Purple Yosh, de Juscelino Batista. A biografia do jovem rapper ao menos possui a justificativa de procurar uma estética semelhante à arte de rua, e às cores emblemáticas do artista. Teria sido fundamental, no caso deste último, investir em algum equipamento minimamente eficaz de som (mesmo uma lapela amadora). Afinal, em se tratando de um filme a respeito da música, a captação de ruídos e das falas do protagonista mereceriam maior cuidado por parte do som e da montagem.

Algo semelhante ocorre com Recorte: Uma História Caianense, de Manoel Carneiro Feitosa. Há um claro senso de propósito neste documentário acerca dos representantes machistas que compõem a câmara de deputados em São José de Caiana, na Paraíba. Mesmo se aproximando demais do formato da reportagem jornalística, o cineasta sabe utilizar o material de arquivo de maneira assertiva (uma raridade em projetos universitários), orquestrando-os em ritmo ágil. 

Recorte: Uma História Caianense, de Manoel Carneiro Feitosa
Recorte: Uma História Caianense, de Manoel Carneiro Feitosa

Trata-se do filme que provocou uma resposta mais epidérmica da plateia, entre todos os selecionados. É uma pena que possua tantos problemas de som e fotografia, além de incontáveis erros na legenda exibida ao público. Com um mínimo de esmero nestes quesitos, elevaria consideravelmente o resultado.

Em paralelo, diversos curtas-metragens se apoiam em narrações explicativas em off. Esta não seria uma tendência restrita a este grupo de filmes, muito pelo contrário. A overdose de comentários oriundos dos diretores e/ou personagens principais tem levantado um debate fundamental a respeito da estética documental no cinema brasileiro recente. Mesmo assim, os títulos da UFPB mergulham nesta onda autoperformática, confessional, certamente muito associada aos vídeos pessoais e selfies para redes sociais.

18 Andares e Meio, de Kirk Simpson
18 Andares e Meio, de Kirk Simpson

18 Andares e Meio, de Kirk Simpson, promove um estudo do primeiro arranha-céu desta envergadura em sua cidade. Pode-se aplaudir a iniciativa de um estudante em arquitetura e urbanismo pelo audiovisual, afinal, o cinema sempre nutriu forte relações com a arquitetura (diretores como Éric Rohmer e Alain Resnais já foram estudados múltiplas vezes por este prisma). Entretanto, o curta depende excessivamente de uma narração monocórdica, um tanto blasé, que chama tanta atenção ao seu estilo indiferente que nos distrai da discussão proposta. 

Em paralelo, o resultado se ressente de mais imagens, precisando manter planos estáticos, e de pouco dinamismo, por tempo exagerado, no intuito de ocupar a duração do conteúdo sonoro. Aliás, os longos blacks se repetiram na montagem destes projetos, que recorrem em quatro ocasiões às longas telas pretas, sobre as quais se associam as infames narrações em off. C’est une Belle, de Will dos Santos, e Para Não Esquecer, de Águida Lays Vasques, adotam igualmente a descrição em primeira pessoa — ambos em registro existencial e autoanalítico. 

C’est Une Belle, de Will dos Santos
C’est une Belle, de Will dos Santos

Santos reflete acerca da natureza da representação e da repetição de imagens, baseando-se no registro amador de uma profissional do cinema, trabalhando em outro set de filmagem. O título também desperta curiosidade: “É uma bela”… o quê? Para Vasques, o foco reside na importância de registar, documentar, e preservar uma parcela do presente. Ambas preocupações de ordem fenomenológica seriam ainda mais profundas caso encontrassem imagens à altura da complexidade de seus textos. Mesmo assim, servem como ponto de partida para inquietações importantes.

Já dois curtas-metragens dedicam-se a uma linguagem quase institucional. Promovem causas e estabelecimentos nos quais acreditam, é claro — mas isso não as afasta do caráter sisudo, promocional. Eletrônica Barbosa, de Iasmim Barbosa, destaca o empreendimento familiar mencionado no título. Entrevista parentes que sublinham a importância deste comércio, além de seu pioneirismo nas áreas de tecnologia e difusão em sua cidade. Por fim, a imagem frisa a placa atual do estabelecimento, na qual se avistam o número de telefone e perfil no Instagram.

Eletrônica Barbosa, de Iasmim Barbosa
Eletrônica Barbosa, de Iasmim Barbosa

O Futuro Veste Verde, de Eduarda Galvão, se prova mais sutil neste aspecto. A cineasta busca o dono de um brechó, uma produtora de roupas preocupada com o meio ambiente, e uma consumidora de roupas usadas, para discutirem ações responsáveis relacionadas à indústria têxtil. Sem surpresa, os dois primeiros basicamente sublinham o valor de sua iniciativa e os esforços de suas empresas. Nunca são contraditos, nem confrontados às possíveis limitações do discurso: o filme permite que controlem o ponto de vista por completo. A esperta criadora de moda levanta, por conta própria, os impeditivos de uma confecção “100% limpa”, somente para revelar o quanto se ela aproxima desta meta.

No final, notam-se tantas iniciativas e vontades quanto carências e imaturidades. Isso é comum — mesmo esperado. Seria implausível cobrar algo diferente de produções universitárias. Dez anos atrás, os filmes de estudantes não chegariam nem perto do nível destes curtas-metragens, sinal da óbvia evolução por parte de uma geração habituada ao audiovisual portátil e ao faça-você-mesmo. Transparece a familiaridade dos criadores com as imagens e a autoimagem, acrescidas do aspecto caseiro e improvisado. Talvez por isso algumas falhas de som e de fotografia, que não careceriam de grande orçamento para contornar, passam despercebidas.

O Futuro Veste Verde, de Eduarda Galvão
O Futuro Veste Verde, de Eduarda Galvão

Durante a sessão, outro fator chamava atenção: a quantidade de celulares acesos por parte dos próprios estudantes. Terminadas as projeções de suas obras, voltavam imediatamente ao WhatsApp e aos Stories. Um grupo de cinco pessoas, numa fileira próxima à tela, se manteve durante as duas horas de exibição com os aparelhos ligados, deslizando freneticamente o dedo por vídeos caseiros, curtidas e visualizações. Na telona, filmes bem mais interessantes procuravam por estes olhares desatentos.

Perdeu-se, assim, a oportunidade raríssima de não somente assistir ao próprio filme no cinema, mas também de prestigiar as criações dos demais, e compreender a seleção na totalidade. Parte dos espectadores demonstrava interesse sobretudo em si própria (seus nomes aplaudidos, os trechos de seus curtas filmados com o celular e imediatamente publicados nos Stories), porém, reservava pouca atenção aos demais. Às vezes, o amadurecimento se prova menos cinematográfico do que da ordem da empatia. Pode-se discutir a qualidade da produção, e as ferramentas para produzir filmes ainda melhores. Entretanto, antes disso, é preciso estar disposto a olhar ao redor. Aí reside o principal desafio.

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