Sexa (2025)

Cinema fácil

título original (ano)
Sexa (2025)
país
Brasil
gênero
Comédia, Romance
duração
90 minutos
direção
Glória Pires
elenco
Glória Pires, Thiago Martins, Isabel Fillardis, Danilo Mesquita, Eri Johnson, Rosamaria Murtinho, Dan Ferreira, Déa Lúcia  
visto em
Cinemas

Bárbara (Glória Pires) acorda de mau-humor no dia do seu aniversário de 60 anos. “Tenho que deixar de gostar das coisas boas da vida, porque eu virei sexagenária?”, ela reclama. “Eu queria tanto não odiar a passagem do tempo!”, acrescenta. A melhor amiga responde: “Mas foi exatamente a passagem do tempo que te trouxe até aqui!”. Quando Cristina (Isabel Fillardis) elogia a maturidade, a heroína contesta: “Para com essa glamourização da velhice”. Então, reclama do fato que homens de sessenta anos continuam charmosos, ao que a outra interrompe: “Para com esse discurso sexista”.

Em Sexa, o debate a respeito da idade vem pronto, e com forte insistência. Todas as falas acima ocorrem nos primeiros minutos de filme, que ainda nos presenteiam com uma dezena de diálogos semelhantes: “É isso que dá não aceitar a idade!”, vocifera o filho odioso; “Deixa de ser velha”, retorque uma pessoa no bar. “O que você tem de mais idoso aí?”, Bárbara pergunta ao barman, com o linguajar mais estranho já empregado para pedir uma bebida. Ao encontrar Davi (Thiago Martins) neste local, ele confessa: “Eu adoro músicas antigas, filmes antigos”. A protagonista se encanta de imediato: “Pelo jeito você tem um pé no passado, né?”.

Como se percebe, o começo do longa-metragem é muito, muito ruim. O roteiro de Guilherme Gonzalez coloca na boca dos personagens tudo o que pensa a respeito do envelhecimento, como se todos fossem máquinas de frases feitas, extremamente conscientes de seus sentimentos, e obcecadas pelo tema único de discussão. Nada soa fluido, ou minimamente orgânico, nesta exposição do tema principal. Passados quinze minutos de narrativa, a overdose se atenua (um pouco, pelo menos), porém, o projeto enfrenta dificuldades de se recuperar desta masterclass tão artificial a respeito dos deleites e agruras do amadurecimento.

Glória Pires aposta num terreno seguro até demais. Esperava-se o mínimo vigor na abordagem — o que não implicaria em ausência de leveza, nem de humor.

O dilema logo se desloca da esfera íntima para o amor romântico. Envolvida com o rapaz de 35 anos, Bárbara tem receio de ser rejeitada pelos amigos dele, ou de se encontrarem em fases distintas da vida, com preocupações incompatíveis. Questiona seu direito a um relacionamento, e enfrenta a reprovação furiosa do filho músico (um dos personagens de construção mais violenta de qualquer feel good movie recente). Portanto, o discurso não se questiona mais como a mulher se sente em relação a si mesma, mas em relação ao outro (ao homem). Ela tem ciúme, se sente abandonada, menosprezada. Quer sexo, porém, ao mesmo tempo, quer ficar sozinha e se preservar.

Pelo menos, esta revisora de livros semi-aposentada, cujo apartamento gigantesco e luxuoso não condiz com a sugestão de uma classe média, possui uma fiel colega com quem se confiar. Cristina constitui uma figura onipresente na vida da heroína: trata-se da melhor amiga negra, gentil, disposta a ajudá-la em todos os momentos. Bárbara nunca pergunta pela vida da outra, nem a ajuda, apesar de receber conselhos e acolhimento na integralidade das cenas. Esta sidekick serve a dar a réplica à personagem principal, simplesmente. Mesmo que o roteiro sugira uma bissexualidade livre por parte de Cristina, nem Bárbara, nem a narrativa se importa de fato com as atividades dela, nos instantes em que se afasta da sexagenária.

Em sua primeira experiência na direção, Glória Pires aposta num terreno seguro até demais. Há diversas maneiras de explorar variações na fórmula da comédia romântica (vide os trabalhos de Julia Rezende e André Novais Oliveira, para citar alguns), entretanto, a atriz e cineasta se atém aos códigos mais desgastados do registro da televisão e do cinema de streaming. Isso significa que os cenários constituem, em primeiro lugar, meros fundos decorados diante dos quais os personagens conversam seus dramas. Há pouquíssima interação com os espaços, ou experimentação da câmera em termos de dinamismo. Caso os apartamentos se transformassem em fundos pintados para um espetáculo teatral, não surtiriam nenhuma diferença no projeto inteiramente dependente dos diálogos para se desenvolver.

Em segundo lugar, o imperativo da leveza significa que todas as passagens de tempo entre cenas oferecem ao espectador uma paisagem genérica das praias cariocas, decoradas com trilha sonora de samba. Na hora do sexo (curto, casto e vestido), a profundidade de campo se desfoca ao máximo para sugerir sensualidade e delicadeza. A exemplo da dramaturgia novelesca, os personagens possuem profissões, entretanto, nunca trabalham de fato, podendo se ocupar inteiramente com o dilema de amar e ser amados. Passam tardes e noites contemplando o vazio, nos sofás confortáveis de seus apartamentos bege e marrons. Nada é urgente, e nenhuma obrigação os aguarda.

Durante um diálogo, Glória Pires satiriza a si própria: “Não sou capaz de opinar!”, ela dispara a Davi, em referência à frase que tantas vezes repetiu durante a cerimônia do Oscar. Caso a autora seguisse por este caminho autorreferente, talvez atingisse níveis cômicos muito mais interessantes. Ora, a pequena piada se perde num mar de autocondescendência e reinado do amor romântico. (Ganha um doce quem adivinhar o final reservado ao casal). O filme soa fácil, no sentido de conduzido com pouca inventividade e ambição. Seus personagens jamais possuem problemas de fato (o filho recebe um trabalho de presente, por parte do colega que ele trata muito mal; Bárbara é perseguida pelo homem amado), e tudo se resolve magicamente, como convém a certa vertente do otimismo.

O problema se encontra na tentativa de costura entre a estética do conforto e a intenção de oferecer ao espectador algo sério e profundo a respeito do envelhecimento feminino. Ou se aposta numa linguagem capaz de complexificar o debate, ou se assume a voluntária superficialidade do tema e das relações. A linguagem da fábula doce contradiz a proposta de encarar as nuances do tema — em outras palavras, não é possível ser, ao mesmo tempo, realista e escapista. “Autoajuda a essa hora?”, reclama Bárbara, dentro de seu extenso cardápio de falas acerca da idade. É preciso concordar com ela neste aspecto. Para uma artista tão querida, com farto conhecimento do nosso audiovisual, e experiência pessoal no tema retratado, esperava-se o mínimo vigor na abordagem — o que não implicaria em ausência de leveza, nem de humor.

Sexa (2025)
4
Nota 4/10

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