
Em diversos aspectos, Sorry, Baby se assemelha a um filme de terror. A primeira cena apresenta um carro chegando à casa da protagonista. O veículo se aproxima no escuro profundo, e para em frente à residência. A câmera registra este instante de longe, tal qual faria um adversário à espreita. Adiante, Lydie (Naomie Ackie) revela sua gravidez à amiga Agnes (Eva Victor). Ao invés da habitual comemoração, as imagens seguintes são desfocadas, com estranha música atmosférica. O tom se faz incerto quanto à grande notícia.
Mesmo quando uma violência traumática afeta a protagonista, o evento é filmado pela parte externa da casa onde ocorre o abuso. O espectador permanece durante longo tempo diante da fachada, com plena ciência do que se passa lá dentro, e projetando no silêncio inquietante seu próprio imaginário do estupro. A aparente “vitória” da personagem mais tarde, ao ser promovida, carrega uma irônica dor, compartilhada somente com o espectador: Agnes ocupa, agora, o escritório do sujeito que a violentou. Existe um caráter de absurdo nesta estrutura, típico do cinema de horror, porém dividido unicamente com o público, na condição de cúmplice. Para as pessoas ao redor, nenhum estranhamento acontece. Neste sentido, estamos distantes da fábula de precaução, nos moldes de Pisque Duas Vezes (com o qual guarda algum parentesco, além da presença de Ackie).
As cenas nunca param de nos surpreender, graças à disposição a enxergar graça no trauma, e dor nos instantes alegres.
O projeto procura um equilíbrio raro de tons. Procura o humor num exame médico após o estupro (graças à flagrante falta de tato do profissional), assim como a melancolia num instante de afeto pós-sexo (quando a mulher admira o pênis flácido do companheiro), e o pavor numa sequência de drama comum (o medo e vontade de se encontrar sozinha com o bebê). As cenas parecem contradizer seu propósito “natural”, por assim dizer. Iniciam de uma forma, porém, terminam em outra tonalidade. Nunca param de nos surpreender, graças à disposição a enxergar graça no trauma, e dor nos instantes alegres.
O projeto dirigido, escrito e protagonizado por Eva Victor poderia se traduzir num exercício de vaidades — um presente a si mesma para brilhar. Ora, surpreende a disposição da criadora a colocar a linguagem cinematográfica em primeiro lugar. Nota-se o prazer nas composições fixas e distanciadas da diretora de fotografia Mia Cioffi Henry, valorizando os espaços enquanto minimiza as expressões e corpos dos atores. Já a montagem de Randi Atkins e Alex O’Flinn estica a duração de cada cena durante tempo suficiente para esfacelar o humor e introduzir uma nostalgia preocupante (seguindo a lógica clássica de que drama = humor + tempo). Ou seja, quando se admira pela primeira vez Agnes sentada num escritório, a ironia pode despertar algum sorriso. Em contrapartida, quando a mulher permanece sentada, com o olhar perdido, o humor desaparece.
A divisão em capítulos sintetiza bem este movimento inesperado da direção. “O ano do bebê”, “O ano da coisa ruim”, “O ano das perguntas”, “O ano do sanduíche gostoso” se referem a instantes muito curtos na vida da heroína — durando poucos minutos, cada um —, entretanto, batizam anos e segmentos como se definissem a existência da protagonista. O discurso adora brincar com estas simbologias ligadas às proporções e dimensões: a dissertação de Agnes literalmente cobre a janela e a protege dentro do quarto; ao passo que o gato lhe proporciona uma oportunidade de vingança simbólica, no intuito de expiar a dor da agressão.
Logo, cada dilema se sublima e desloca a outros objetos, num trabalho extremamente sofisticado de roteiro e direção. Algo semelhante pode ser dito das atuações: Victor permite um humor atrapalhado e físico, incomum para temas tão graves. Ela encontra na parceria com Naomie Ackie uma afinidade impressionante nas provocações e fabulações. Qualquer possibilidade de vitimismo das mulheres se dilui graças à condução madura das duas mulheres; à possibilidade de uma rivalidade feminina (com a personalidade de Kelly McCormack) e ao acolhimento do vizinho e amante (vivido por Lucas Hedges). Os diálogos são bruscos, como convém à comédia de costumes, entretanto, diluídos pelo aspecto etéreo da trilha, das cores e dos dias nublados.


“Agnes, não morra”, pede Lydie. A amiga consente: “Não vou morrer”. Trata-se de uma conversa nada esperada para uma noite de diversão entre colegas íntimas. Algo semelhante ocorre na cena final, que justifica o título, quando a rispidez das palavras se confronta a uma tentativa desajeitada, por parte de Agnes, de demonstrar acolhimento e afeto. “Desculpa pelas coisas ruins que vão acontecer a você”. Depois de se voltar inúmeras vezes ao passado, Sorry, Baby se encerra olhando para o futuro — no caso, para as perspectivas de família, de maternidade, e de reconstrução da libido e do prazer femininos. O otimismo surge progressivamente, com cuidado, respeitando o tempo de recuperação desta professora universitária.
Ao final, resta um curioso cinema de sensações, que sabe transmitir seu debate por meio de silêncios, da escolha de onde posicionar a câmera, e da predileção por atuações minimalistas, posto que as ações dizem muito por si mesmas. Victor atinge um grau de poesia pictural na maneira nada turística como admira as paisagens, e neste retrato cru, direto dos seres humanos, evitando idealizações e martírios. O salto entre capítulos, aparentemente pontuados por banalidades, abre espaço para que os personagens se desenvolvam nas lacunas, e que o espectador complete os significados com sua bagagem própria de traumas e conciliações. A cena final e, sobretudo, o instante em que se interrompe, transparecem a fina maestria da direção. A brutalidade se faz bela, e a beleza se faz bruta.




