Sorry, Baby (2025)

Triste alegria

título original (ano)
Sorry, Baby (2025)
país
EUA, Espanha, França
gênero
Drama
duração
103 minutos
direção
Eva Victor
elenco
Eva Victor, Naomi Ackie, Louis Cancelmi, Kelly McCormack, Lucas Hedges, John Carroll Lynch
visto em
Cinemas

Em diversos aspectos, Sorry, Baby se assemelha a um filme de terror. A primeira cena apresenta um carro chegando à casa da protagonista. O veículo se aproxima no escuro profundo, e para em frente à residência. A câmera registra este instante de longe, tal qual faria um adversário à espreita. Adiante, Lydie (Naomie Ackie) revela sua gravidez à amiga Agnes (Eva Victor). Ao invés da habitual comemoração, as imagens seguintes são desfocadas, com estranha música atmosférica. O tom se faz incerto quanto à grande notícia.

Mesmo quando uma violência traumática afeta a protagonista, o evento é filmado pela parte externa da casa onde ocorre o abuso. O espectador permanece durante longo tempo diante da fachada, com plena ciência do que se passa lá dentro, e projetando no silêncio inquietante seu próprio imaginário do estupro. A aparente “vitória” da personagem mais tarde, ao ser promovida, carrega uma irônica dor, compartilhada somente com o espectador: Agnes ocupa, agora, o escritório do sujeito que a violentou. Existe um caráter de absurdo nesta estrutura, típico do cinema de horror, porém dividido unicamente com o público, na condição de cúmplice. Para as pessoas ao redor, nenhum estranhamento acontece. Neste sentido, estamos distantes da fábula de precaução, nos moldes de Pisque Duas Vezes (com o qual guarda algum parentesco, além da presença de Ackie).

As cenas nunca param de nos surpreender, graças à disposição a enxergar graça no trauma, e dor nos instantes alegres.

O projeto procura um equilíbrio raro de tons. Procura o humor num exame médico após o estupro (graças à flagrante falta de tato do profissional), assim como a melancolia num instante de afeto pós-sexo (quando a mulher admira o pênis flácido do companheiro), e o pavor numa sequência de drama comum (o medo e vontade de se encontrar sozinha com o bebê). As cenas parecem contradizer seu propósito “natural”, por assim dizer. Iniciam de uma forma, porém, terminam em outra tonalidade. Nunca param de nos surpreender, graças à disposição a enxergar graça no trauma, e dor nos instantes alegres.

O projeto dirigido, escrito e protagonizado por Eva Victor poderia se traduzir num exercício de vaidades — um presente a si mesma para brilhar. Ora, surpreende a disposição da criadora a colocar a linguagem cinematográfica em primeiro lugar. Nota-se o prazer nas composições fixas e distanciadas da diretora de fotografia Mia Cioffi Henry, valorizando os espaços enquanto minimiza as expressões e corpos dos atores. Já a montagem de Randi Atkins e Alex O’Flinn estica a duração de cada cena durante tempo suficiente para esfacelar o humor e introduzir uma nostalgia preocupante (seguindo a lógica clássica de que drama = humor + tempo). Ou seja, quando se admira pela primeira vez Agnes sentada num escritório, a ironia pode despertar algum sorriso. Em contrapartida, quando a mulher permanece sentada, com o olhar perdido, o humor desaparece.

A divisão em capítulos sintetiza bem este movimento inesperado da direção. “O ano do bebê”, “O ano da coisa ruim”, “O ano das perguntas”, “O ano do sanduíche gostoso” se referem a instantes muito curtos na vida da heroína — durando poucos minutos, cada um —, entretanto, batizam anos e segmentos como se definissem a existência da protagonista. O discurso adora brincar com estas simbologias ligadas às proporções e dimensões: a dissertação de Agnes literalmente cobre a janela e a protege dentro do quarto; ao passo que o gato lhe proporciona uma oportunidade de vingança simbólica, no intuito de expiar a dor da agressão. 

Logo, cada dilema se sublima e desloca a outros objetos, num trabalho extremamente sofisticado de roteiro e direção. Algo semelhante pode ser dito das atuações: Victor permite um humor atrapalhado e físico, incomum para temas tão graves. Ela encontra na parceria com Naomie Ackie uma afinidade impressionante nas provocações e fabulações. Qualquer possibilidade de vitimismo das mulheres se dilui graças à condução madura das duas mulheres; à possibilidade de uma rivalidade feminina (com a personalidade de Kelly McCormack) e ao acolhimento do vizinho e amante (vivido por Lucas Hedges). Os diálogos são bruscos, como convém à comédia de costumes, entretanto, diluídos pelo aspecto etéreo da trilha, das cores e dos dias nublados.

“Agnes, não morra”, pede Lydie. A amiga consente: “Não vou morrer”. Trata-se de uma conversa nada esperada para uma noite de diversão entre colegas íntimas. Algo semelhante ocorre na cena final, que justifica o título, quando a rispidez das palavras se confronta a uma tentativa desajeitada, por parte de Agnes, de demonstrar acolhimento e afeto. “Desculpa pelas coisas ruins que vão acontecer a você”. Depois de se voltar inúmeras vezes ao passado, Sorry, Baby se encerra olhando para o futuro — no caso, para as perspectivas de família, de maternidade, e de reconstrução da libido e do prazer femininos. O otimismo surge progressivamente, com cuidado, respeitando o tempo de recuperação desta professora universitária.

Ao final, resta um curioso cinema de sensações, que sabe transmitir seu debate por meio de silêncios, da escolha de onde posicionar a câmera, e da predileção por atuações minimalistas, posto que as ações dizem muito por si mesmas. Victor atinge um grau de poesia pictural na maneira nada turística como admira as paisagens, e neste retrato cru, direto dos seres humanos, evitando idealizações e martírios. O salto entre capítulos, aparentemente pontuados por banalidades, abre espaço para que os personagens se desenvolvam nas lacunas, e que o espectador complete os significados com sua bagagem própria de traumas e conciliações. A cena final e, sobretudo, o instante em que se interrompe, transparecem a fina maestria da direção. A brutalidade se faz bela, e a beleza se faz bruta.

Sorry, Baby (2025)
9
Nota 9/10

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