A Voz de Hind Rajab (2025)

Por outro cinema humanitário

título original (ano)
Sawt Hind Rajab (2025)
país
Tunísia, França, EUA, Reino Unido, Itália, Arábia Saudita, Chipre
gênero
Drama
duração
89 minutos
direção
Kaouther Ben Hania
elenco
Saja Kilani, Clara Khoury, Amer Hlehel, Motaz Malhees
visto em
Cinemas

Uma garotinha de seis anos de idade está presa dentro de um carro, durante um tiroteio em Gaza. Todos os familiares ao lado dela já foram alvejados e morreram. Através de uma ligação do tio, ela consegue o contato do Crescente Vermelho, uma associação humanitária. Espremida entre os corpos ensanguentados, a menina implora: “Por favor, me salve!”. “Eles estão todos mortos!”. “Não consigo respirar!”. “Estou morrendo!”. “Tenho medo do escuro!”. “Venham logo!”. No escritório da instituição, os atendentes se desesperam. Como mandar ajuda em meio aos bombardeios? Como garantir a segurança dos socorristas?

A gravação é real, atestam os letreiros iniciais de A Voz de Hind Rajab. Trata-se da voz da garota verídica, cujo nome foi preservado, assim como as circunstâncias em que se encontrava. Adiante, quando a garotinha começa a falar, os letreiros retornam para reforçar a veracidade do áudio. Enquanto ela conversa com os funcionários, legendas como “Recording_File_240129.WAV” insistem no caráter fatual deste registro. Mais tarde, o vídeo de um celular é colocado em frente aos protagonistas, para que a diretora Kaouther Ben Hania comprove a escolha de atores muito semelhantes aos socorristas reais, no dia em que a menina efetuou a ligação. Eles fazem as mesmas poses, vestem roupas idênticas, possuem cortes de cabelo e barbas parecidíssimos com seus referentes.

As motivações são, obviamente, nobres e justificáveis. Mas a cineasta solicita nossa adesão através de uma profunda chantagem emocional.

Assim, a cineasta deseja provar, a todo instante, que sua reconstituição é verídica, real, rigorosa. Confia em mim. Aconteceu assim mesmo; eu posso provar. Em tempos de manipulação de imagem, e numa época da ficção enquanto representação livre da realidade, surpreende tamanha insistência neste pacto de confiança com o espectador. A diretora pretende se mostrar boa aluna, dedicada, tendo efetuado a mínima intervenção naquela trama. Assim, sugere que sua ficção não seria tão fictícia assim, e deveria ser lida enquanto documento. Reconstruímos as falas, mas o dia se passou exatamente desta maneira. Em pleno 2026, estimava-se que a era da imagem enquanto prova do real já teria se esgotado.

As motivações são, obviamente, nobres e justificáveis. A cineasta procura denunciar os ataques gravíssimos do governo de Israel sobre Gaza, implementando um plano genocida que nunca visou, de fato, aniquilar apenas os grupos terroristas palestinos. Através de uma figura-símbolo da inocência (a garotinha gentil, assustada, clamando por socorro), busca sensibilizar as pessoas a respeito das flagrantes violações de direitos humanos na região. Hind Rajab se converte, por esta perspectiva, num ícone da situação degradante em que foi colocado o povo palestino na totalidade, diante da letargia ou conivência de órgãos políticos e potências mundiais. A menina ilustra o micro, o grito palpável e de fácil identificação, servindo a colocar um rosto humano na guerra de dimensões possivelmente abstratas para quem está distante (caso do público internacional a quem se destina a obra).

Entretanto, cabem questionamentos de ordem estética e, portanto, moral. Não se duvida dos belos objetivos de Ben Hania, mas dos meios empregados para atingi-los. A cineasta evita contextualizar o conflito, talvez por viabilizar sua obra em pleno calor dos fatos. Estima, portanto, não precisar debater motivações, nem as transformações do xadrez geopolítico internacional. Ela prefere dialogar com os sentimentos mais epidérmicos do público médio: a indignação, a revolta, a raiva, a tristeza. Em tempos de anestesia em frente à barbárie, e de descrença face a notícias falsas e imagens pouco confiáveis, ela solicita nossa adesão através de uma profunda chantagem emocional.

Logo, o diretor de fotografia Juan Sarmiento G. opta por uma janela (formato da imagem) em scope, ou seja, bastante retangular, focada insistentemente no rosto dos quatro protagonistas. A câmera treme em excesso, mesmo quando se encontra diante de duas pessoas sentadas ao telefone. Agita-se aqui e acolá, buscando um rápido gesto com a mão, e também um olhar preocupado ao fundo do enquadramento. Desfoca o cenário sempre que possível, de modo a se concentrar unicamente nos rostos desolados, desesperados. A sensação de urgência é acentuada pelo recurso convencional e explorador da agitação artificial. Podemos nos sentir dentro de programas de televisão como Succession, ou de qualquer obra criada por Aaron Sorkin.

O aspecto de true crime se aprofunda graças às atuações. Saja Kilani, Clara Khoury, Amer Hlehel e Motaz Malhees são calibrados para permanecerem em grau altíssimo de emotividade: assim, passam os 90 minutos chorando, gritando, suplicando pela autorização da ambulância. O descontrole emocional é percebido como virtude, ou sinal de empatia. Omar, em especial, corresponde ao ideal norte-americano de herói, por se indignar com a lentidão do sistema, repleto de leis e protocolos. Danem-se as autorizações! Não quero saber de ligações! Existe uma criança morrendo! Vamos agora! Por isso, age pelas costas do chefe, atira equipamentos ao chão, grita com burocratas ao telefone. O trabalhador encarna um homem tão bom que não consegue se calar face às injustiças. Para quem reclamava do descontroladíssimo Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr) de Foi Apenas um Acidente, espere até ver os incontáveis acessos de fúria de Omar.

O longa-metragem convida, deste modo, a um olhar de compaixão e piedade. Nunca recorre à reflexão, tampouco inicia um debate. Ben Hania nos entrega o discurso pronto a respeito de quem amar e quem odiar; quem são os vilões, e quais são as vítimas. Mais uma vez, ninguém duvida das atrocidades cometidas por Israel na faixa de Gaza, e do número absurdo de civis assassinados cruelmente sob ordens de Benjamin Netanyahu. No entanto, o posicionamento motivado pela pena do outro, pelo lamento do infortúnio alheio, não necessariamente representa a melhor arma política de conscientização. Em geral, ferramentas do gênero apenas despertam uma reação epidérmica (choro, raiva) acompanhada do alívio de não nos encontrarmos em situação semelhante. Como é triste a vida por aqueles cantos, não? Sentados em nossas poltronas confortáveis, nos felicitamos de estarmos bem distantes disso. Um absurdo, a vida dos outros. Sorte que a nossa não é assim. Ufa.

Ao final, A Voz de Hind Rajab vai mais fundo na exploração do fazer-real, e do ativismo enquanto denúncia alardeada a-quem-interessar-possa. A direção entrevista a mãe da garotinha, ao lado do filho pequeno. Filma os destroços nas ruas, além do interior do carro onde a menina aguardou durante horas. Caso alguém ainda não tenha percebido, o que ocorreu e ainda ocorre na região é gravíssimo, sugere o projeto. De certo modo, a obra possui uma única mensagem, e uma única maneira de transmiti-la: no grito. Ela incomoda e gera angústia, é claro — como não se comover com uma garotinha implorando por resgate? Resta saber se esta chave da idealização e do maniqueísmo — a atendente materna aos prantos, o homem heroico gritando — equivale à melhor maneira de representar o tema. 

Terminada a fortíssima sessão, o resultado é um silêncio sepulcral. O que dizer diante de um caso tão contundente, de uma narração nunca aberta a contradições, disputas internas, metáforas ou pormenores? Tudo está dito. I rest my case. Nosso trabalho simples, enquanto espectadores, seria de absorver e nos apiedar sobre a tragédia alheia. O filme parte do pressuposto que nos falta empatia, sentimentos, lágrimas, e a melhor comunicação ocorreria ao nível emocional. Ora, talvez o problema seja mais amplo, e o cinema disponha de maneiras mais questionadoras de levantar o tema. Afinal, o audiovisual tem a capacidade de iniciar um debate, ao invés de encerrá-lo. O cinema humanitário é fundamental — mas não aquele baseado na virtude da tragédia.

A Voz de Hind Rajab (2025)
4
Nota 4/10

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