A Fabulosa Máquina do Tempo (2026)

Elas sonham; nós sonhamos

título original (ano)
A Fabulosa Máquina do Tempo (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
70 minutos
direção
Eliza Capai
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

A Fabulosa Máquina do Tempo constitui um projeto bastante raro — um destes filmes tão agradáveis que despertam um sorriso genuíno do primeiro ao último minuto de projeção. Uma obra onde infância nunca se confunde com ingenuidade; e na qual o lirismo permite reflexões políticas mais complexas do que aparentam a princípio. A experiência equivale a um passeio com as crianças, apenas para descobrir que elas têm muito mais a nos dizer do que nós teríamos a elas. Esqueça os filmes de infância destinados a ensinar mensagens valiosas aos pequenos: este é, acima de tudo, um espaço de escuta. O protagonismo se encontra junto às meninas de Guaribas (PI).

No caso, a diretora Eliza Capai visita a cidade conhecida pelo baixo IDH, porém transformada desde as políticas do governo Lula, especialmente o Bolsa Família. Este programa destina os fundos exclusivamente às mulheres da família, com a condição que as crianças estejam na escola. Isso confere autonomia às mães enquanto aumenta a taxa de escolaridade na região. Surpreende, entretanto, que o programa seja mencionado muito brevemente, nos letreiros finais, posto que aparentam ter justificado a escolha inicial pela geografia humana filmada. Da maneira como se encontra na narrativa, a descrição do Bolsa Família nem se aprofunda a ponto de se tornar um tema, nem é ignorada para deixar em evidência somente a voz das crianças. Permanece num curioso meio-termo — uma nota de rodapé.

Capai respeita o imaginário e o ponto de vista de suas personagens, confrontando-as aos dilemas do amadurecimento.

Ressalvas à parte, o longa-metragem decide fabular com suas jovens protagonistas. A partir de pequenos estímulos, propõe que discutam a origem do mundo, a diferença entre homens e mulheres, o emprego dos sonhos, a importância da religião. Mais do que isso, elas se dedicam a encenar as profissões e sequências imaginadas, utilizando objetos e roupas caseiros. Surgem então o Deus feminino, o casamento com a garotinha usando um bigode postiço, e até uma encenação de violência e morte. Elas se divertem, entendendo o dispositivo cinematográfico enquanto espaço para uma imaginação sem limites. Neste contexto, a câmera representa aquele parêntese da vida, o instante onde podem qualquer coisa que desejarem. “Elas só estão me ajudando porque vocês estão gravando”, confessa uma garota, a respeito do jogo filmado.

As meninas não param de provocar a equipe cinematográfica e discutir com ela. O projeto gera instantes riquíssimos, além de muito divertidos, quando os pequenos decidem entrevistar uns aos outros, ou quando retornam às perguntas à cineasta. Após Capai lhes provocar sobre os pecados que cometeram, uma garota devolve a questão à autora, que responde: “Eu não acredito em pecado”. “É esse o seu pecado”, retruca a menina de imediato, bastante safa na retórica religiosa assimilada nos cultos evangélicos. O elenco proporciona diversos instantes de notável espontaneidade, como raras vezes se encontra no cinema documental. 

Em consequência, as meninas fogem à condição habitual de objetos de estudo: elas são sujeitos e agentes da narrativa, aproveitando a oportunidade para elaborarem suas performances pessoais. Capai deixa o jogo acontecer, atenuando a hierarquia entre direção e personagens, e elaborando junto delas, a partir delas. Existe notável espaço ao acaso e ao imponderável, muito bem captado por fotografia e som. As entrevistas com elas, diante de um fundo verde, conservam certa dose de humor graças ao teto excessivo do enquadramento (sugerindo a baixa estatura das crianças) junto ao trabalho impecável de luz e do som direto. 

Logo, o improviso e o naturalismo nunca se convertem em desculpa para uma construção estética desajeitada, muito pelo contrário. Capai e a diretora de fotografia Carol Quintanilha valorizam as encenações das pequenas, registradas com respeito e admiração. Filmam à altura delas, focando-se em suas propostas conforme fazem perguntas delicadas às mães. Diante da imagem do grupo segurando booms e outros equipamentos profissionais, nasce a impressão de que A Fabulosa Máquina do Tempo também seria, em certa medida, um despertar para a linguagem cinematográfica — uma primeira oficina audiovisual para as jovens personagens. Sugere-se que, através do cinema, podem encontrar uma maneira de se colocarem no mundo. As noções de cultura enquanto política pública, e da arte enquanto ferramenta de democratização, passam por esta estrutura.

A autora também dispensa o preconceito comum de que seria necessária certa inocência, ou a diminuição da complexidade, para abordar temas graves numa obra envolvendo crianças. Ora, a obra visa precisamente medir a compreensão infantil da vida adulta. Por isso, as garotas leem livros a respeito de educação sexual, e escutam tanto as músicas gospel quanto um funk sugerindo que, na falta de água, as mulheres se banhem em leite. (E não, elas não compreendem o duplo sentido da letra). Retrata-se tanto a religiosidade imperativa na vida destas meninas (muito mais do que a escola) quanto a evidência fatual de inúmeras garotas grávidas aos 12, 13 anos, ou casadas com homens dez anos mais velhos, quando ainda se encontram na adolescência.

Desta forma, o roteiro busca uma bela abordagem dialética. Estuda o discurso da religião; escuta a interpretação das meninas acerca da feminilidade, e então as confronta aos dados socioeconômicos de Guaribas. Discute o papel dos homens (convenientemente ausentes das imagens) e a percepção das crianças sobre o álcool, para chegar ao registro de casos de alcoolismo, abuso doméstico ou abandono do lar. Enquanto as crianças riem e se divertem, reproduzem a crença de que mulheres cuidam da casa, enquanto os homens ocupam as ruas; de que mulheres geram filhos, enquanto homens bebem. A imagem de um sujeito embriagado, com uma cobra morta em torno do pescoço, simboliza muito bem esta masculinidade falida de um sistema patriarcal.

A Fabulosa Máquina do Tempo se concentra, portanto, nas contradições sociais: a imaginação riquíssima em meio ao cenário pobre de recursos materiais; as crianças imaginando viagens ao futuro, enquanto as mães amariam voltar ao passado e mudar suas vidas. “Você acha que o futuro já existe?”, dispara uma garotinha, numa formulação surpreendentemente complexa. Capai respeita o imaginário e o ponto de vista de suas personagens, confrontando-as aos dilemas do amadurecimento, sem impor nenhuma perspectiva às mesmas. Existe uma vontade genuína, e bastante ambiciosa, de compreender o Brasil a partir desta metonímia das próximas gerações de mulheres, decorrentes de políticas públicas. Trata-se de um importante convite ao debate por trás da divertidíssima encenação com tantas cores, luzes, sons, músicas e afagos. 

A Fabulosa Máquina do Tempo (2026)
8
Nota 8/10

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