Nightborn (2026)

Monstros geram monstros

título original (ano)
Yön Lapsi (2026)
país
Finlândia, Lituânia, França, Reino Unido
gênero
Terror, Comédia
duração
92 minutos
direção
Hanna Bergholm
elenco
Seidi Haarla, Rupert Grint, Pamela Tola, Pirkko Saisio, Rebecca Lacey, John Thomson
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

“Essa casa é perfeita!”, exclama o casal formado por Saga (Seidi Haarla) e Jon (Rupert Grint), diante da propriedade em ruínas. Ao entrarem no local, descobrem o solo aos pedaços, as paredes se desfazendo, a natureza invadindo a estrutura. Sorriem e declaram se tratar de um verdadeiro paraíso. Ora, como de costume no cinema de terror, eles serão punidos exemplarmente pela profunda ingenuidade, seguindo o destino trágico de tantos protagonistas em situação semelhante. Não tarda até a floresta revelar suas criaturas assustadoras, e o bebê oriundo desta união se mostrar, claramente, uma figura perigosa.

Saga possui plena consciência de que o filho não é humano. Ele possui pêlos, garras, alimenta-se apenas de sangue. Crava as unhas afiadas no braço da mãe e arranca um pedaço de orelha da avó. Levanta-se e anda, com poucos dias de vida, além de emitir grunhidos graves. O espectador, cúmplice da pobre heroína, testemunha sua dor. Mesmo enxergando o bebê unicamente através de sombras, ou à distância, é evidente aos nossos olhos que o fruto daquele ventre possui alguma origem maléfica. Seria um troll, um lobisomem, um alienígena, o anticristo? Uma formação inédita? A própria mãe se recusa a dar amor ao pequeno, a quem chama de “isso”, ao invés de “ele”. Rejeita o que lhe soa como o resultado de alguma maldição.

O filme preserva a tortura física e psicológica ininterrupta à personagem central. A única maneira de alertar o público para o martírio feminino seria criando novas mártires?

Para o mundo ao redor, em contrapartida, não há problema nenhum com Kuura. Algumas crianças têm pêlos mesmo. Os gritos altos apenas revelam pulmões saudáveis. Certos bebês mordem o seio da mãe — é fome, nada mais. Se ele bebeu o sangue, é porque estava tão faminto que engoliria qualquer coisa. Nightborn dedica-se a uma enésima análise cinematográfica do gaslighting durante o puerpério. O ponto de vista se posiciona, evidentemente, ao lado desta mãe-esposa considerada louca, esgotada, histérica. Como pode rejeitar um bebezinho que acaba de nascer? Como teria coragem de sugerir uma procedência satânica ao pobrezinho? Aos poucos, todos se afastam da mulher selvagem, desumana, agressiva. 

A diretora Hanna Bergholm não busca exatamente uma originalidade. Bebe em inúmeras fontes semelhantes, retirando dos principais cânones do horror e da comédia aquilo que mais lhe interessa: o senso de paranoia de O Bebê de Rosemary (1968), o recém-nascido sedento por sangue humano de O Mistério de Grace (2009), o filho troll, com cauda e pêlos, de Border (2018). Abraça igualmente a decisão de não revelar a criança diretamente ao espectador, visível desde Polanski até excelentes obras recentes, caso de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (2025). Projetos como Nasce um Monstro (1974), Bebê Infernal (1974), Eraserhead (1977) e Mãe! (2017) dialogam com este imaginário, que constitui praticamente um subgênero autônomo.

Mesmo assim, a cineasta (e co-roteirista junto de Ilja Rautsi) busca formas de incorporar algumas novidades à fórmula. Em primeiro lugar, decide que a monstruosidade da criança espelhará aquela da mãe. Além das transformações esperadas do corpo de Saga, graças ao parto recente, ela desenvolve uma pele inumana, e unhas semelhantes a garras de animais. Começa a rastejar e urrar para o filho animalesco. Possui certas saliências saindo do pescoço, além de novos pêlos. Gradativamente, o marido, a irmã e a mãe idosa sugerem que ela havia sido uma criança dificílima aos pais e coleguinhas, razão pela qual estaria pagando pelo mau comportamento. Aparentemente, o carma é implacável.

Em segundo lugar, a finlandesa busca associar Kuura ao folclore de seu país. Permite que as árvores, galhos e crendices se associem ao desenvolvimento anormal do pequeno. A natureza estaria chamando por ele? Protegendo-o, ou tentando eliminá-lo? Os galhos cobririam a casa e tomariam os espaços no intuito de destruir a casa, ou se aproximar dela? De fato, a ambiguidade relacionada aos troncos, raízes e folhas torna-se interessante, até pela decisão do roteiro em não esclarecer definitivamente as suas metáforas. Ao contrário do esperado, a casa não representa um calvário para o casal — nada os espera no fundo do corredor, nem existem figuras assustadoras no sótão. O problema se encontra unicamente junto aos residentes. 

Mesmo assim, preserva-se a tortura física e psicológica ininterrupta à personagem central. Esta sempre foi uma contradição ética nesta forma de terror: por um lado, diversos criadores reivindicam o direito à sobrecarga de sofrimento feminino no intuito de demonstrar tudo o que elas enfrentam face às pressões sociais. Portanto, a opressão intensa exigiria uma representação intensa. Por outro lado, diversos teóricos (e teóricas mulheres, em particular) chegam à conclusão de que este seria um caminho evidente e literal demais. Sugerem que, por trás da aparência de honraria ao calvário, estariam se divertindo perversamente (e oferecendo ao espectador a mesma diversão) através dos maus-tratos ininterruptos. Então, a única maneira de alertar o público para o martírio seria criando novos mártires?

Além disso, Nightborn incomoda ao culpabilizar a mulher, não somente em virtude de sua natureza feminina — o terror adora olhar para a capacidade reprodutória enquanto um mistério grotesco da biologia humana —, mas por ter sido uma criança intragável. Logo, a natureza teria o direito de puni-la. As amigas se sentem vingadas ao verem a má colega amamentando o bebê que lhe dilacera os seios; a mãe estoica se delicia com o cansaço da filha; o pai adora se converter na única figura responsável em meio à crise de nervos da esposa. (Como de costume, os pais ausentes serão percebidos enquanto voz da razão, ao contrário das novas mães descontroladas). O filme não se esforça o suficiente para se dissociar da interpretação de seus personagens mesquinhos. Parece apoiá-los.

Ao menos, a produção finlandesa-lituana-franco-britânica ostenta o orgulho de se inserir tanto na comédia quanto no terror trash. Nunca busca se esconder por trás de uma pretensa elegância do cinema de arte, ou da necessidade de soar aprazível a espectadores muito sensíveis. Revela-se exagerado, kitsch, assumidamente grosseiro desde o princípio. Mistura suas simbologias (entre a maternidade e a floresta obscura), deixa pontas soltas, enrola-se em excesso, em sinal da indisposição a fazer concessões. Resulta heterogêneo, com bons momentos costurados a outros bastante fracos que, ao menos, transparecem uma franqueza e uma brutalidade bem-vindas nesta forma de linguagem. Se existe um gênero maleável a tais experimentações, é o horror.

Nightborn (2026)
5
Nota 5/10

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