Em 17de abril, serão anunciados os vencedores da 9ª edição dos Prêmios Quirino de Animação Ibero-Americana. Quatro produções brasileiras disputam prêmios: o longa-metragem Coração das Trevas, de Rogério Nunes; o curta-metragem Safo, de Rosana Urbes; o curta-metragem de encomenda 18 Months, de Paulo Garcia e Natalia Gouvea, e a segunda temporada da série Tainá e os Guardiões da Amazônia, de Natália Freitas.
Os Prêmios Quirino destacam obras de 27 países, a partir de 265 filmes inscritos. Em entrevista ao Meio Amargo, a diretora da instituição, Silvina Cornillón, explica a missão do Quirino, suas ambições, e a relação com outras formas de premiação no setor da animação.
Ela trabalhou durante quinze anos como produtora de animações, e foi uma das fundadoras da Liga da Animação Ibero-Americana. Também atuou como subgerente de animações no INCAA, o equivalente argentino da ANCINE.

Qual é a importância de ter anunciado as indicações pela primeira vez no Brasil?
Silvina Cornillón: O Quirino vem trabalhando há 9 anos no sentido de potencializar e destacar todos os países ibero-americanos. Mas já sentíamos, há algum tempo, que seria importante fazer um gesto a mais com o Brasil, demonstrar a sua importância, enquanto território determinante nesta região. Assim, desde o ano passado, começamos a pensar em mais ações na América Latina.
Eu assumi como diretora no ano passado, e sou argentina. Como neste último ano nós fomos a Buenos Aires, pensamos: “Agora é a vez do Brasil.” Era como uma pendência, além de uma boa oportunidade para conhecer mais do país. Assim, podemos compreender melhor o setor, as suas dificuldades, enfim, aprofundar a nossa missão.
Como percebe o lugar que o Brasil ocupa na animação ibero-americana?
Silvina Cornillón: Este ano, o Brasil tem quatro indicações, o que é um bom número. Mas o dado mais relevante é este: das 265 obras inscritas nesta edição, 52 vieram do Brasil. Nós fazemos um ranking com os países que inscrevem mais obras. Nos últimos quatro ou cinco anos, o Brasil sempre esteve em segundo lugar, atrás apenas da Espanha, conhecida pela produção muito expressiva.
Então, esses números falam por si só. Além disso, é interessante que a presença brasileira não se encontre apenas em uma categoria — ela não está apenas nos longas-metragens, mas em todos os segmentos. Isso demonstra a riqueza e o potencial da animação brasileira.

Você mencionou a Espanha, que segue como uma referência mundial na animação. A quais fatores atribui tamanho desenvolvimento neste país?
Silvina Cornillón: O caso da Espanha está muito relacionado com a indústria local, já bastante consolidada. A produção de animações costuma lutar contra os fundos insuficientes, mas a Espanha sempre teve mais recursos. Entre os países ibero-americanos, a Espanha se firmou enquanto parceiro ideal para coproduções, devido à sua maior estabilidade e desenvolvimento, além do tempo de trabalho nesta linguagem.
Além disso, me parece que políticas de aporte foram construídas nas diferentes regiões do país — porque também há diferentes apoios regionais —, permitindo a consolidação de uma indústria com ampla capacidade produtiva. Isso se encontrou com um mercado e um circuito adequados. Isso significa que as obras têm condições de circulação e exibição, algo muito importante.
Nós falamos muito de cinema, mas a televisão também é fundamental para o trabalho da animação. De que maneira estas duas plataformas se relacionam?
Silvina Cornillón: Elas se completam na importância no trabalho. Eu converso muito com os trabalhadores brasileiros da animação, e muitíssimos trabalham mais com televisão do que com cinema. Ainda há mais oportunidades na televisão. Quando se desenvolve uma série, por exemplo, são formatos mais curtos, que podem ser mais acessíveis. Mesmo assim, a produção para a temporada completa de uma série de animação pode exigir mais tempo de trabalho do que um longa-metragem.
Com as séries, às vezes é possível conseguir o financiamento aos poucos, para formatos muito mais curtos, de episódios bem breves. Um longa-metragem é um empreendimento que leva anos em produção, e você só vai descobrir o resultado quando todo esse trabalho estiver pronto. Já as séries se tornam mais acessíveis. Não se exige a mesma estrutura de um roteiro “à prova de falhas”, que um longa necessita para se sustentar, quando se pensa em uma história de 15, 20, ou 25 minutos.

Que popularidade ou visibilidade acredita que os prêmios Quirino tragam aos indicados?
Silvina Cornillón: Em todas as nossas etapas, os prêmios contribuem muito aos criadores, como um aval. Isso vale desde os pré-selecionados até os indicados e, claro, os vencedores. Essa também é uma parte dos objetivos dos prêmios Quirino, porque a animação sempre luta por espaço. No audiovisual, ela é percebida como menos importante, menos relevante, como se fosse algo secundário — o que não é verdade.
Então, sentimos que os prêmios Quirino podem recuperar um pouco desse valor ao colocarem o foco numa perspectiva internacional. Isso permite que, dentro do próprio país, comecem a olhar de forma diferente para um cineasta ou uma cineasta, ou ainda para um produtor que venceu o prêmio Quirino. Afinal, é um prêmio internacional, na Espanha, celebrado numa noite de gala. Este reconhecimento é um benefício adicional.
Mesmo tendo assumido a direção dos prêmios Quirino há um ano, como percebe a evolução da animação ibero-americana desde a primeira edição até hoje?
Silvina Cornillón: O prêmio Quirino nasceu no momento em que estavam surgindo muitas iniciativas para o setor. Nesta época, eu estava em outras áreas de atuação, na Argentina. Mas, nos últimos dez anos, começou a haver maior circulação da animação nos mercados, e esses espaços começaram a se abrir. Então, o Quirino detectou essa necessidade e gerou esse espaço de negócios.
Em todo esse tempo, houve uma evolução e uma maturidade por parte do setor, que começou a participar de mercados, formando uma sinergia muito interessante com comunidade de eventos. O Quirino faz parte da Liga da Animação Ibero-Americana, junto com o Ventana Sur e o Pixelatl, no México. Sentimos que estamos potencializando também a circulação dos profissionais. Às vezes, é necessário esse acompanhamento para que todos compreendam os códigos do mercado. Então, o evento cresceu junto do setor.

Os formatos e linguagens também parecem ter se desenvolvido muito, entre 2D e 3D, stop motion, animação para adultos e crianças… Acredita que todos tenham se desenvolvido na mesma proporção?
Silvina Cornillón: Algumas técnicas continuam tendo presença estável, como o stop motion. Ele me parece algo atemporal, que vai continuar existindo. Depois, em relação ao 2D e ao 3D, houve aquele momento do auge do 3D, quando se acreditava que todas as animações apostariam nele.
Agora, me parece que estamos em um momento interessante, de trabalho com técnicas combinadas, incluindo softwares como o Blender, que é de código aberto. Isso é incrível, é como se os monopólios também estivessem acabando. É o triunfo de outro tipo de ideais relacionados à produção, que começa a se democratizar. Mas as decisões artísticas vão continuar existindo: alguém que faz stop motion não vai deixar de fazê-lo. Pode variar, pode combinar, pode ter uma evolução quanto às ferramentas que utiliza.
Por exemplo, no Brasil, nós visitamos o ateliê do César Cabral, a Coala Filmes. Pudemos perceber a qualidade, desde os primeiros bonecos até os filmes posteriores, além da quantidade de impressoras 3D às vezes utilizadas para fazer estudos de personagens. Antes, isso era um luxo, ou nem existia. Então ainda é algo super artesanal, porém, combinado com elementos que facilitam.
O prêmio Quirino está vinculado a incentivos à produção?
Silvina Cornillón: Bom, o Quirino é um prêmio honorífico, ou seja, os vencedores recebem uma estatueta, mas não há recompensa econômica. Mesmo assim, cada país tem os seus próprios incentivos. A partir dos prêmios Quirino, sobretudo nos primeiros anos, fizemos um trabalho muito forte com instituições, por exemplo, o Ibermedia. Foram organizadas reuniões de trabalho com o Ibermedia, e com associações de animação da Ibero-América. Um dos resultados foi o aumento nos valores de apoio à animação, que estavam muito defasados. Essa foi uma conquista da gestão naquele momento, porque conseguiu reunir as autoridades, colocá-las para trabalhar e dizer: “O que pode ser feito, o que pode ser alcançado?”. Naquele momento, eu fui ao Quirino enquanto participante. Duas semanas depois do fim do evento, houve uma reunião interna, que levou à aprovação de novos valores.
Então, o trabalho do Quirino está mais relacionado às articulações com instituições, mas nós, infelizmente, não temos a possibilidade de dar esses incentivos. Mas, na medida em que podemos contribuir com os diferentes países — porque às vezes é mais fácil nos escutarem, do que alguém do próprio setor — estamos sempre dispostos a fazê-lo.

Pensando nas grandes premiações internacionais, como o Oscar, acredita que a animação receba seu devido reconhecimento?
Silvina Cornillón: Mais ou menos. Isso depende de cada prêmio. O Goya permite certa visibilidade, algo positivo, embora seja uma premiação restrita um país. Mas em outros prêmios, não sinto que exista o reconhecimento adequado. Às vezes, no Oscar, a categoria de curta de animação ainda é tratada como algo menor. Esses prêmios dependem de muitos outros fatores não relacionados com o talento: dependem de lobby, da pressão… Sabemos que sempre vai aparecer o curta da Disney, ou de outra grande empresa… E às vezes entra algum curta independente ali, por acaso. Quando acontece, é muito bom, porque os obstáculos para uma indicação são muito grandes. Mas não acredito que seja um termômetro de como anda o setor ou a produção, ou do nível artístico da animação.
Acredita que seria mais interessante que as animações fossem incluídas em categorias gerais — melhor filme, ao invés de melhor filme de animação? Que disputassem diretamente com os filmes em live action?
Silvina Cornillón: É uma boa pergunta, mas não sei se tenho uma resposta clara. Porque é verdade que, quando existe uma categoria específica, você sabe que vai haver animações presentes — e isso é bom, porque garante a presença. Por outro lado, se estamos defendendo que a animação não é apenas uma técnica, e que um filme de animação esteja no mesmo nível de qualquer longa-metragem — seja live action ou animação —, então existe uma tensão nestas separações.
Mas, caso as animações disputassem junto do live action, isso seria um sinal de que seriam consideradas com o peso que merecem. Enquanto não chegamos neste patamar, acho muito bom que existam categorias específicas, porque, pelo menos, não é preciso lutar tanto por visibilidade. Em um mundo ideal, não deveria existir uma categoria específica para a animação, no caso de uma premiação geral. Poderia inclusive acontecer de, em alguma edição, haver apenas filmes de animação concorrendo à categoria de melhor filme. Por que não? Mas isso nunca vai acontecer.



