Fraternura (2026)

Betto e seus irmãos

título original (ano)
Fraternura (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
64 minutos
direção
Evanize Sydow, Américo Freire
visto em
21ª CineOP (2026)

Há Frei Betto escritor, teólogo, ativista, jornalista. O defensor dos direitos humanos, militante contra a fome e porta-voz em nome de educação popular. Mas também existe o Betto irmão. Este curioso viés é privilegiado pelos cineastas Evanize Sydow e Américo Freire em Fraternura, um olhar ao protagonista em terceira pessoa — embora o próprio esteja disponível a entrevistas. Mesmo assim, os criadores preferem se focar nos diversos irmãos do Frei, que recordam a infância, a descoberta da vocação religiosa e o enfrentamento político ao pai extremamente conservador. Ao invés da pessoa pública, preferem o aspecto privado, longe dos holofotes.

Por isso, o roteiro nos lembra que Betto foi namorador, e tinha diversas estratégias para entrar em festas como penetra. O próprio confessa suas relações sexuais quando era jovem. Já os parentes lembram o ativismo desde criança, além do contato inicial com os ideais progressistas. Felizmente, os cineastas evitam os comentários laudatórios. Apesar do evidente carinho pelo protagonista, preferem se focar em episódios pessoais a qualidades morais. Somente nos minutos finais surgem os habituais elogios, sugerindo que ele seria doce, “inteiro”, e teria uma “lealdade canina” — antes da trilha sonora entoando “Betto beija as faces de Deus”. Mas isso não retira os méritos de um olhar mais ponderado do que hagiográfico.

Os criadores pretendem nos sensibilizar para a trajetória pessoal de Frei Betto. A comunicação passa essencialmente pelos sentimentos.

Em paralelo, os criadores fogem à obrigação de um panorama dos “melhores momentos” de uma vida tão extensa, assumindo a escolha por um recorte parcial. Os longas-metragens que buscam dar conta de uma trajetória inteira sempre resultam apressados ou ingênuos, de modo que a segmentação por um aspecto não encontrado na imprensa parece benéfico — Sydow e Freire de fato possuem um ponto de vista próprio a respeito de seu tema, evitando se contentar com os aspectos típicos de uma página do Wikipédia. Este não é um projeto de viés jornalístico, embora sua apresentação linear e cronológica demonstre uma preocupação didática com a clareza das explicações e dos fatos.

Com estes aspectos em mente, o documentário se mostra comportado. Esta é uma escolha curiosa, em se tratando precisamente de uma figura ousada e excepcional — uma autoridade religiosa progressista, um Frei amigo de Lula, um dominicano que conheceu os porões da ditadura militar. A respeito de tamanha violência, a narração deixa que a emoção dos irmãos, ao se recordarem dos fatos, se encarregue de representar a tortura por parte dos militares. Os criadores evitam significar esteticamente a brutalidade do regime, ou a crueldade dos agentes que prenderam Betto, torturaram Tito e tantos outros. Nota-se pudor ao lidar com um dos aspectos mais importantes da vida do personagem.

Em termos de linguagem, aposta em entrevistas simples, com Frei Betto posicionado ao centro do enquadramento, e cada irmão sentado confortavelmente em seu sofá. Apesar da discrepância da qualidade da luz (algumas conversas sob luz natural, e outras amareladas, devido aos refletores e ao ambiente noturno), o som se mostra limpo, claro. Para atribuir alguma dinâmica às conversas, inúmeras fotografias são animadas, duplicadas, e introduzidas a um álbum de fotografias virtual. Em geral, trata-se dos habituais registros de família, seja dos irmãos pequenos , seja do pai — isso sem falar nos recortes de jornal apontando a perseguição a Betto, e sua prisão, posteriormente. Estes são alguns dos recursos mais habituais do documentário biográfico. 

Ora, raramente se propõe um encontro entre os irmãos, ou o deslocamento deles para outro cenário de relevância à trama. Permanecem em suas casas, nesta pressuposição de que as falas, neste caso, valem mais do que as imagens, os cenários, as luzes e os enquadramentos. Tamanha doçura se reflete inclusive no uso ocasional de trilha sonora bastante melodramática, reforçando o caráter emotivo de uma carta da mãe, ou a tristeza da perda do irmão. Aliás, todo o extenso segmento dedicado à dependência química de Tonico soa deslocado na trama. Por mais que episódio tenha sido muito importante para Betto — conforme ele mesmo confessa —, acaba desviando a atenção do protagonista, parcialmente esquecido no relato do outro irmão. Por que apenas Tonico teria recebido tamanho destaque? Tamanha exposição de suas feridas (logo ele, que não está presente para falar por si próprio?). O outros depoentes não mereceriam igual atenção às sua intimidade? 

Aliás, a dosagem do aspecto emotivo se prova vacilante na obra. Às vezes, o tom se assemelha a uma amigável conversa entre amigos, um encontro informal de fim de tarde. Em outros momentos, entretanto, a montagem segura o plano no rosto dos irmãos, quando se esforçam para não chorar, diante da recordação da prisão e dos abusos cometidos pelos militares. Em duas cenas seguidas, o plano simplesmente aguarda o choro, e então, observa a lágrima e o pedido de desculpas de dois personagens. A maneira como as cartas da mãe e do pai são filmadas, em detalhe, e depois com frases destacadas, também reforça este apelo às emoções. Para além de informar ou vangloriar Betto, os criadores pretendem nos sensibilizar para sua trajetória pessoal, para os pesares dos irmãos, para a lembrança saudosa dos pais. A comunicação passa essencialmente pelos sentimentos.

Por fim, este recorte específico nos priva de conhecer os principais feitos de Betto na esfera política. Nenhum livro é citado, ou mesmo algum pronunciamento relevante. Ao invés de pontuar o que Betto fez, frisa-se o que fizeram a ele — a prisão, a perseguição, a difamação, a pressão psicológica sobre familiares. Tendo o próprio personagem disponível, surpreende que ele se pronuncie tão pouco. Seria, novamente, o pudor (ou respeito) que impede os criadores de perguntarem ao próprio as suas lembranças da prisão e da ditadura? Betto se desenha em voz passiva, pelo olhar de terceiros, através de impressões alheias. Mesmo a escolha de personagens pode ser questionada — por que introduzir apenas um amigo, e não outras pessoas próximas? Outros religiosos? Ou, então, se focar estritamente nos irmãos? Fraternura resulta numa iniciativa modesta, certamente afetuosa, e crente no valor de uma humanidade individual, acima de conquistas sociais ou políticas.

Fraternura (2026)
6
Nota 6/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.