O Projeto (2026)

Por uma intelectualidade decolonial

título original (ano)
O Projeto (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
94 minutos
direção
Sabrina Fidalgo, Yvan Rodic
visto em
54º Festival de Gramado (2026)

O Projeto parte de ambições profundas. Os criadores Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic investigam o racismo estrutural em diversos continentes, no intuito de compreender os sistemas de exclusão em suas respectivas sociedades, e a evolução dos mesmos ao longo dos séculos. Como se manifestaria o racismo no Brasil, na Argentina, Nigéria, Argentina, França, Alemanha? De que forma o olhar de uma diretora negra brasileira e de um diretor branco suíço se combinariam ao abordarem questões raciais? Seria o caso de se debruçar sobre as origens da discriminação, os casos flagrantes, as medidas legais, os protestos populares, as manifestações artísticas a respeito? Que tal todos eles, e mais alguns?

Como se percebe, o longa-metragem adota um olhar panorâmico. Os cineastas poderiam ter escolhido uma cidade específica (Nova Friburgo, por exemplo, citada algumas vezes pelo roteiro) ou um episódio particular. Em chave oposta, preferem o escopo mais abrangente possível: a partir de uma ideia ou nação, saltam à próxima, que lhes conduz ao tópico seguinte, e assim por diante, numa livre associação de ideias. A escravidão na Suíça, a produção de chocolates, os povos indígenas, o show de uma travesti, a origem de Wall Street, a admissão em escolas alemãs, a imigração da África à Europa, e o preconceito em cirurgias estéticas pontuam a trama. Eles estão, de fato, conectados, como se percebe, embora não estivessem intrinsecamente associados antes deste generoso esforço de análise por parte da direção e da montagem.

A narrativa jamais perde tempo constatando o óbvio. Confia no espectador para dar um passo adiante, compreendendo como o pensamento colonial atravessa tantas estruturas contemporâneas.

Outro fato notável desta obra diz respeito à ponderação de suas reflexões. Muitos filmes a respeito do racismo estrutural adotam um teor de denúncia, repletos de ira e dedos apontados. Há motivos para tal, e esta abordagem se prova igualmente legítima. Entretanto, a dupla de diretores investem numa conversa calma com diversos intelectuais negros dos países visitados. Eles possuem distanciamento suficiente em relação ao tema para discursarem em torno de tópicos amplos, sem necessariamente torná-los (apenas) uma questão pessoal. Sabrina Fidalgo efetua o mesmo percurso, partindo de sua filmografia para se banhar nas ideias de três continentes e, então, retornar à própria produção cinematográfica.

Portanto, a narrativa jamais perde tempo constatando o óbvio. Não alerta a respeito da existência do racismo, nem de seu evidente impacto na sociedade. Felizmente, confia na inteligência do espectador para dar um passo adiante, buscando estudar e compreender como o pensamento colonial ainda atravessa tantas estruturas contemporâneas. Assim, não possui necessariamente uma mensagem a passar a um público pressuposto ignorante. Prefere convidá-lo ao debate, com plena consciência de estar iniciando uma conversa, ao invés de encerrando o assunto. Devido à amplitude desta jornada, aponta caminhos possíveis pelos quais a conversa poderia passar a seguir — em outros filmes, livros, debates. 

Em especial, O Projeto escuta grandes pensadores, ativistas e intelectuais negros, que trazem ideias valiosas a respeito dos resquícios de um funcionamento escravocrata nas democracias. Grada Kilomba, Djamila Ribeiro e Maxwell Alexandre são alguns dos pensadores convidados ao bate-papo. Ignora-se o motivo de os criadores convidarem médicos brancos e professoras brancas para comporem o painel, enquanto talvez fosse mais interessante escutar a perspectiva dos profissionais negros destas áreas. Mesmo assim, em geral, constituem um grupo excelente, capaz de pontuar tanto o preconceito contra negros em países de vasta maioria negra (caso da Nigéria) quanto a relação entre os navios de migrantes no Mediterrâneo e os navios negreiros.

Assim, enquanto pesquisa acadêmica, Fidalgo e Rodic efetuam um belo estudo. Talvez se questione, em contrapartida, o equilíbrio entre ambos os diretores enquanto personagens. Fidalgo assume o caráter autobiográfico da proposta, abrindo e fechando o roteiro através de sua experiência pessoal de negritude. Já Rodic possui uma participação modesta, um tanto desconfortável. Assume a função de porta-voz de uma branquitude consciente, e envergonhada pela conduta de seus antepassados. Efetua um mea culpa europeu e colonizador, disparando frases de efeito (“E se eu não fosse branco?”, “A Suíça não é inocente”). Em paralelo, permite que a montagem preserve o descontentamento de um entrevistado negro, queixando-se da espera de 2h pelo registro. Isso significaria o pressuposto de que “o seu tempo vale mais do que eu meu”, nas palavras do personagem, apontando a presença de um racismo tácito, mesmo no autor de uma obra a respeito de tal tema.

Outro ponto passível de questionamento diz respeito à estética. O documentário confia numa estrutura convencional de cabeças falantes, em entrevistas simples, de um único encontro, manifestando pouca variação imagética. A fotografia cru, sem embelezamentos nem cuidados particulares de direção de arte, deixa vários entrevistados conversando sob uma luz natural pouco recortada, diante de um fundo branco. Às vezes, a imagem treme em excesso (a conversa com a professora alemã), e os ruídos atrapalham a filmagem (as fortes buzinas durante a fala da mulher norte-americana). De resto, a narrativa segue colocando a reflexão sonora muito acima da importância da construção imagética destinada a representá-la.

É certo que a imagem de Sabrina Fidalgo com um pregador no nariz, belamente iluminada em estúdio, diz muito a respeito do impacto do padrão branco de beleza sobre corpos negros. Em contrapartida, a obra se ressente de maior incorporação destas tensões na forma — seja via atrito da montagem, ou via composições, e uso de luzes e cores. Avisa-se que a paleta de brancos do filme fotográfico foi determinada a partir da pele branca, mas de que forma este fato se traduziria em construções próprias dos autores, testando cores, contrastes, luzes (em especial, pelo fato de Rodic ser fotógrafo)? Como se representa a estética do racismo, para além de se falar a respeito? Descobrimos que as películas passaram a comportar baixas luzes devido às demandas das indústrias de chocolates e de móveis — não de indivíduos negros. Que tipo de construção, criativa e performática, o filme poderia efetuar por conta própria a partir disso?

Em suma, Fidalgo e Rodic oferecem um resultado intrigante, capaz de suscitar ricas discussões pós-sessão (como convém aos bons filmes). Em contrapartida, o aspecto um tanto posado e acadêmico de seu formato talvez diminua o alcance da empreitada. Ora, num filme focado essencialmente na arte e em suas manifestações, caberia maior esforço de elaboração estética, para além do estudo e da apreensão do real como ele é. O Projeto soa como uma extensa pesquisa de campo, aprofundada e polida, para que os diretores partam em seguida para a segunda fase deste percurso: a criação poética, metafórica, dotada de atritos internos, de provocações de luz e enquadramento, de falas opostas, de choques entre som e imagem orquestrados pela montagem. Após a intelectualidade decolonial, uma estética decolonial. A pesquisa oferece o estofo necessário para voos artísticos ainda mais altos.

O Projeto (2026)
7
Nota 7/10

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