
Apesar do forte conteúdo social deste documentário, o elemento que mais chama atenção na empreitada é de ordem estética. Si Vas para Chile se inicia com uma infinidade de planos aéreos acompanhando o trajeto entre Venezuela e Chile, o que inclui o altiplano andino e o deserto do Atacama. Em planos zenitais, as imagens sublinham a beleza desta geografia árida, montanhosa e diversa. A sequência de abertura permite ao espectador se deslumbrar com a amplitude das paisagens, com o vazio dos espaços, e com a imaginação de imigrantes atravessando, a pé, aqueles quilômetros sem fim. Nosso primeiro contato com o sofrimento dos imigrantes reside numa tentativa de maravilhamento audiovisual.
Em seguida, entra em cena uma pesada trilha sonora — menos uma melodia triste do que uma intensa vibração, uma única nota de notável gravidade, sugerindo ao espectador que se inquiete diante da situação retratada. Logo, as incontáveis imagens de andarilhos, crianças famintas e acampamentos de refugiados são embebidas pelo estrondo interminável — lembrete da sensação buscada junto ao público, durante a totalidade da experiência. Ora, os diretores Amilcar Infante e Sebastián González Méndez não estimam que a pauperização extrema desses personagens seria suficiente para nos alertar e sensibilizar? Consideravam importante acrescentar esta ferramenta acessória em pós-produção, para garantir nossa empatia e piedade? Era esta, afinal, a forma de comunicação visada pelos autores: a emoção, em detrimento da razão?
Os moldes de produção se assemelham bastante ao documentário “de luxo” norte-americano. Parte desta beleza se constrói em detrimento das dores dos indivíduos que o projeto pretende honrar.
Não bastasse tamanho arsenal de valor de produção (a magnitude dos cenários, a sensação de estar presente, ao vivo, colado aos corpos dos imigrantes venezuelanos), os autores prolongam o escopo do fascínio plástico. Optam por diversas cenas em pôr do sol, onde os corpos são contornados, em contraluz, pelos tons vermelho-alaranjados do horizonte. Concentram-se em diversas crianças, seja brincando alegremente com a câmera, seja reclamando para a mãe, aos prantos, sua fome e sede. Os autores encontram, em peno solo árido, um carrinho de bebê abandonado, que tomam como símbolo central desta desumanidade — ainda que o objeto seja filmado com tamanho cuidado de enquadramento, e preciosismo de composição (além de ser emprestado ao cartaz oficial) que denota a apropriação deste item enquanto ornamento da imagem. O discurso político está condicionado, em primeiro lugar, ao deleite visual que possa proporcionar à direção de fotografia.
Nestas composições, diversos personagens são convidados a compartilhar, diretamente para a câmera, suas experiências pessoais de travessia. Denunciam o presidente chileno Sebastián Piñera por incentivar a chegada de venezuelanos, embora o país não estivesse preparado para a chegada de tantos imigrantes. Detalhem a caminhada de longas semanas, e protestam contra as condições brutais vivenciadas na fronteira. Apontam casos de estupro, roubo, extorsão e agressão física, além da fome e sede. Um homem que percorreu quase 150 km a pé, em três dias, narra a lembrança de seu desmaio à beira da estrada. Em diversos instantes, o formato se assemelha bastante àquele da reportagem jornalística, visando informar o espectador acerca de uma crise distante, concentrando-se nos aspectos mais chamativos para valorizar a matéria (as paisagens, as crianças tristes, os andarilhos abandonados).
Os melhores instantes de Si Vas para Chile residem na complexa discussão a respeito dos ataques xenofóbicos. Infante e Méndez estudam com parcimônia o crescimento do ódio conservador contra os imigrantes, taxados de delinquentes pelos chilenos. Estudam de que forma a precariedade das situações motiva o aumento da violência por parte de alguns poucos venezuelanos, o que leva ao preconceito contra todos os estrangeiros em solo chileno. Logo, o povo em deslocamento é atacado, mesmo quando tem filhos pequenos e crianças de colo. A sequência de fotografias desta violência (novamente, de uma beleza estetizante e questionável) esclarece a configuração de uma sociedade voltada contra os próprios vizinhos, a quem culpa por problemas macroeconômicos de ordem local. De repente, chilenos pobres voltam-se contra venezuelanos pobres, enquanto os governantes de suas respectivas nações são poupados da cobrança pelo atual estado das coisas.


Mesmo assim, resta uma obra cujos moldes de produção se assemelham bastante ao documentário “de luxo” norte-americano. Os filmes produzidos por HBO, Netflix e National Geographic possuem uma verve semelhante, no que tange ao embelezamento da miséria e à crença de que uma crise humanitária apenas interessará ao espectador caso ele possa se deparar com impressionantes paisagens, testemunhando um caos que não nos pertence. Há certo exotismo no olhar ao calvário alheio, no sentido de nos reconfortar, enquanto público de classe média, face ao cenário geopolítico de um país longínquo. Nunca nos sentimos particularmente interpelados pelo discurso em nossas escolhas e nossa ideologia cotidiana. A crise migratória entre Venezuela e Chile soa como um problema único das duas nações envolvidas (além daquelas situadas no caminho entre ambos os países, que não possuem fronteira direta).
Cabe questionar, em 2026, este humanismo de exportação que, ao invés de observar seus personagens de igual para igual, o faz de cima para baixo, com um misto de piedade e paternalismo. O que houve com Piñero e seus ministros depois deste caso? Alguma legislação foi implementada, ou aprimorada? Países semelhantes tiveram episódios menos degradantes de deslocamento em massa? O que isso nos diz a respeito do próprio governo venezuelano? Há fatos, arquivos, dados, comprovação de tantas acusações — certamente verídicas, ainda que nunca atestadas? Silêncio. Estas figuras se resumem às suas funções sociais (são imigrantes, venezuelanos e pobres), servindo a compor o enquadramento, diante um belo pôr do sol alaranjado, ou no agrupamento de criancinhas em abrigos improvisados. Parte desta beleza se constrói, por fim, em detrimento das dores dos indivíduos que o projeto pretende honrar.




