
O melhor aspecto de Filhos do Mangue decorre do choque entre ficção e realidade. Acostumada a misturar atores profissionais e moradores locais, a diretora Eliane Caffé transpõe este procedimento a uma comunidade ribeirinha. A partir do livro de Sérgio Prado, ela imagina a história de Pedro Chão (Felipe Camargo), empresário explorador de pescadores, lucrando igualmente com o turismo sexual — até ele perder completamente a memória em decorrência de um acidente. Quando retorna ao vilarejo, depara-se com dezenas de pessoas furiosas com o suposto roubo do dinheiro dos cidadãos. Entretanto, o homem nem mesmo recorda o próprio nome.
A amnésia constitui um motor acessório à trama, além de um facilitador conveniente. Ignorando seu passado criminoso, o sujeito pode recomeçar do zero, provar-se uma pessoa digna. A ficção sempre adorou a possibilidade que o esquecimento correspondesse a uma mudança brusca de caráter — algo que não necessariamente teria qualquer respaldo científico, mas passemos. Retornando à cidade onde espancava mulheres e maltratava trabalhadores, Pedro pode aprender a pescar por conta própria, ganhando seu dinheiro e mostrando-se digno. Neste percurso, ele revela ao espectador as atrocidades que foi capaz de cometer em algum momento anterior à narrativa.
Filhos do Mangue cai na armadilha de confundir barraco com dinamismo; gritaria com espontaneidade. Há muito caos para pouco sentido narrativo de tantos enfrentamentos.
A dinâmica do caos constitui o foco da direção. Interessam à cineasta as cenas de coletividade, quando os moradores gritam com o anti-herói, prometendo represálias, e acusando-o de seus atos. A câmera treme para todos os lados conforme o grupo despeja suas frases violentas, de aparência improvisada, ou meramente sugerida pela cineasta em termos de temática. O aspecto de naturalidade possui seus méritos: o vocabulário cabe na boca dos atores, que se comunicam com expressões típicas do linguajar oral. Com exceção de uma cena envolvendo atores infantis, marcada pela artificialidade das falas decoradas, as interações entre adultos decorrem de insultos e provocações dignos de crença.
Entretanto, Filhos do Mangue sofre com a falta de organização entre tantos estímulos visuais e sonoros. A montagem se prova o aspecto menos eficaz da obra, que fragmenta demais o ponto de vista, dispersando noções de causa e consequência. Assim, uma sequência parte dos chutes do personagem de Roney Villela ao sujeito desmemoriado, ainda que se ignora ao certo de onde surge o homem, e as motivações para este acesso de fúria em particular. A edição articula a casa queimada do protagonista com outras casas arrumadas ao redor, levando ao questionamento sobre a relação entre os domicílios, e da temporalidade de cada um.
Já flashbacks (com as mulheres no barco) e cenas sonhadas (com o pai) irrompem a trama aos atropelos, sem introdução, nem desfecho satisfatório para cada episódio. Subitamente, Pedro desempenha uma performance artística, coberto de lama, manipulando gravetos em meio ao mangue. Ora, o que este instante significa para ele? Para o filme? O que ele sente em relação à ex-companheira, e à filha recém-descoberta? Por que constrói uma cabana precária, à vista de todos? O homem permanece na condição de um protagonista opaco. Nem avança em sua busca pelo passado, nem evolui na redenção por seus crimes. Ele somente contempla, perambula, espiando os demais no mangue e jogando-se às águas.
Assim, o roteiro se arrasta, como se o único conflito (a descoberta do esconderijo do dinheiro) jamais avançasse de fato. Não há investigação neste sentido, nem uma oferta de indícios que permitam ao espectador tecer suas hipóteses. Permanecemos à distância de tudo, inclusive das mulheres abusadas pelos maridos. Para um filme tão focado nos temas da violência doméstica e do feminicídio, surpreende a escolha pelo protagonismo do tirano em busca de perdão, incapaz de reconhecer as atrocidades cometidas. Já as mulheres se convertem numa massa indistinta e intercambiável, enxergadas pelo olhar de terceiros. Elas nunca adquirem protagonismo, ou controlam o ponto de vista — convertem-se em vítimas, apesar de serem resistentes e fortes. Entretanto, é difícil acreditar em tantas agressões descontextualizadas, espetacularizadas pelos gritos e choros abruptos (excessivamente fragmentados pela montagem).
Assim, Filhos do Mangue cai na armadilha de confundir barraco com dinamismo; gritaria com espontaneidade. Há muito caos para pouco sentido narrativo de tantos enfrentamentos, que poderiam ser reordenados em qualquer outro sentido, sem prejuízo real à trama. O filme se agita muito, assim como a câmera (vide o resgate de Pedro no início, além da cena dos pescadores no mangue). Entretanto, apesar do caráter estridente das brigas e acusações, a trama avança pouco. Surge, então, a incômoda sensação de um filme ao mesmo tempo agitado e parado; frenético e inerte. Agita-se, chacoalha-se, porém, não sai do lugar.


Terminamos por conhecer pouco da vida destas pessoas, de sua atividade profissional, da relação com outras comunidades ao redor. As mulheres descamam o peixe, embora não presenciemos a venda; e a coletividade se reúne com frequência, mas nunca se tornam claras as circunstâncias em que o dinheiro foi reunido e roubado. Insiste-se nos elos bastante horizontais entre estes moradores, que regulam e gerenciam as suas vidas sozinhos. Entretanto, faltam indícios acerca de como esta rotina se estruturava, antes (e para além) do tirano redimido. O senso de coletividade que dominava positivamente filmes como Narradores de Javé (2003) e Para Onde Voam as Feiticeiras (2020) não retorna com mesma potência, nem verossimilhança.
Restam belos momentos esparsos, incapazes de beneficiar o restante da trama — caso do ofício das pescadoras, e das cenas muito intensas com a ótima Titina Medeiros. Felipe Camargo, ator competente, minimiza as expressões, evitando tanto vilanizar quanto vitimizar seu personagem. Trata-se de uma composição segura, discreta, e conveniente para se equilibrar face à gritaria generalizada. No entanto, o drama se conclui sem dizer ao certo o que pensa a respeito de tantos temas jogados na espiral de enfrentamentos. A história corre o risco de se ater à mera constatação de dilemas — o feminicídio, a pobreza, a exploração econômica — sem investigar origens, consequências ou alternativas aos mesmos.




