No Início do Mundo (2023)

A juventude além dos clichês

título original (ano)
No Início do Mundo (2023)
país
Brasil
gênero
Drama, Musical
duração
24 minutos
direção
Gabriel Marcos
elenco
Júlia Mattos, Hynoto, Anna Verdan, Kelly Coimbra, Matheus Smith, Eliana Gonçalves, Lígea Lana
visto em
8ª Mostra de Fama (2025)

A primeira reação ao curta-metragem talvez seja de choque: trata-se de um videoclipe? A montagem fragmentada, o som limpíssimo da gravação em estúdio, e a coreografia no interior de um ônibus despertam a impressão de que o filme possa estar deslocado numa competição reservada ao cinema narrativo. Logo, o teor pop se acalma para revelar a história de Vitor (o músico Hynoto) e Katlyn (Júlia Mattos), dois jovens da periferia de Contagem.

O diretor Gabriel Marcos brinca de subverter clichês clássicos do romance. Quando a menina deixa cair seus papéis no chão, esperando que o galã os recolha, o encontro termina numa briga entre ambos. A insistência em acompanhar os dois protagonistas em paralelo também desperta a sensação de que, mais cedo ou mais tarde, se tornarão namorados. No entanto, descobrimos a homossexualidade da menina. Nota-se um prazer saudável, e bem-humorado, em manipular as expectativas do espectador, a partir de nosso longo treinamento diante do cinema clássico norte-americano.

Em seguida, a jornada alterna entre o drama de formação, as cenas musicais e o naturalismo engajado. O título, bastante próximo de No Coração do Mundo, o posiciona como primo mais novo dos vizinhos da Filmes de Plástico, enquanto o encontro dos jovens pelos corredores de um trabalho mal remunerado remetem diretamente ao belo Lapso, de Caroline Cavalcanti. O aspecto queer e a intromissão assumida do gênero musical lhe conferem a personalidade necessária para se distinguir (um pouco) dos referenciais.

Infelizmente, algumas escolhas prejudicam o resultado, desde problemas de sincronia nas cenas musicais, até o caráter didático de algumas falas a respeito de nossos amores (repetidas no final, de modo redundante), passando por pequenas escolhas de direção (a mãe confinada ao mesmo canto da sala). Algumas sequências, a exemplo da confusão com a colega chamada de “Mãe”, parecem desengonçadas em termos de mise en scène, enquanto se pode apontar a velocidade excessiva com que se passa de uma briga feroz à amizade profunda, em nível “Deixa eu ser família pra você, e você pra mim”.

Logo, podem-se apontar excessos. No entanto, No Início do Mundo é um filme vibrante, sem medo de se arriscar, de combinar gêneros distintos, de romper com percursos conhecidos. Em meio a tantas ficções seguras e acadêmicas, ou documentários meramente explicativos, curtas-metragens como o de Gabriel Marcos são aqueles que se destacam, de fato, numa seleção. Nota-se a vontade de fazer cinema, e de experimentar com formas e rumos, algo que nos faz acreditar bastante no percurso do cineasta. Às vezes, os filmes mais vigorosos são aqueles com diversas arestas a aparar, porém, com mais acertos no modo de representar uma juventude repleta de potencial. 

No Início do Mundo (2023)
6
Nota 6/10

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