
Um jovem volta à cidade da sua infância. Assim que bota os pés na Praia Brava, recebe o aviso por um anônimo a respeito de coisas estranhas acontecendo na região. Por acaso, um monstro tem atacado os banhistas — algo que jamais mobiliza a polícia, nem desperta pânico nos moradores. A vida segue seu curso. Sabendo do possível perigo logo ao lado, o protagonista se banha tranquilamente no mar. Sua preocupação é outra: o namorado que não chega, e um amigo distante que o avista no local onde pretendia ficar sozinho.
Talvez o herói esteja tranquilo em relação aos fenômenos porque ele mesmo não tem imagem. Isso significa que ele não aparece em fotografias — característica compartilhada com o namorado ausente. Existiria algo mais violento e monstruoso, em nossos tempos de selfies e redes sociais, do que não possuir imagem própria? Não se trata de um vampiro, somente um sujeito dotado de tal característica (que tampouco choca o amigo). Estrela Brava mergulha num terreno de total inconsequência. Aqui, a estrela do título cai na cena inicial. Jovens são atacados. Monstros aparecem pela floresta. Mas nada disso importa.
Através desta fábula, o diretor Jorge Polo aborda com precisão nossos tempos de individualidade e indiferença em relação ao outro.
Através desta fábula, o diretor Jorge Polo aborda com precisão nossos tempos de individualidade e indiferença em relação ao outro. A verdadeira catástrofe, neste mundo de mortes e colisões espaciais, diz respeito a um término de namoro desrespeitoso, por meio de uma mensagem de celular. O resto do mundo que se dane. E o meu prazer? Tamanho apego ao hedonismo garante que, enquanto o serial killer age pelos arredores, os corpos se desejem, e o olhar esteja carregado de tensão erótica, desde o princípio (uma vítima agarrando o próprio pênis num plano de detalhe) até os quadrinhos repletos de homoerotismo.
O ataque do monstro, como não poderia deixar de ser, sugere o ato sexual, com uma mão inserida na boca de suas vítimas. Ora, nosso protagonista gay e blasé não teme este tipo de abordagem. A estranha criatura, ensanguentada e coberta de peças de roupa (adquiridas de seus alvos?) se converte em um pequeno inconveniente nos planos de aproveitar um dia de sol. Assim, o cineasta constrói uma monstruosidade exagerada, típica dos filmes B, mas também um universo avesso ao sensacionalismo e ao choque. Há perigo na trilha ao lado? Paciência, fico deste lado então. Sem problemas.
O curta-metragem brilha em termos de direção de fotografia, direção de arte e montagem. Nota-se o preciosismo na construção da libido — o olhar que espia o rapaz musculoso na mata pode corresponder à perspectiva do vilão, do herói ou mesmo àquele do espectador. Destaca-se igualmente a riqueza de detalhes nesta criatura-do-excesso, em comparação com o cenário-da-ausência. Afinal, deparamo-nos com um homem sozinho, numa praia isolada, demonstrando mínimas interações e objetivos. O exagero se confronta ao minimalismo, e a fantasia, a um drama da imprudência, em registro tipicamente avesso ao cinema de gênero. Há muitos contrastes sutilmente elaborados ao longo deste percurso.
Ao mesmo tempo, paira uma atmosfera inebriante, como se tudo não se passasse de uma ressaca (seja da festa da véspera, seja da queda da estrela na noite anterior). Em seus filmes, Polo tem confrontado o cinema de gênero a uma modernidade exacerbada, em chave tão crítica quanto isenta de lições de moral. Ele observa um funcionamento no qual os relacionamentos contemporâneos, da ordem do consumo, não comportam manifestações de empatia. Por isso, nada impede que o alvo dos ataques se deite de conchinha com o monstro, após uma espécie de laço erótico. Afinal, ele deseja ter contato físico de alguém, e quem mais estaria disponível?
Logo, o aspecto mais perturbador nos filmes do autor não reside nas mortes e no ambiente sinistro, mas na maneira acrítica como assimilamos este mundo, sem questioná-lo, nem tentar compreendê-lo de fato. Nestes cenários, o mal existe, nós o percebemos, e passamos a conviver com o incômodo. Fazer o quê? Assim, o diretor capta certo zeitgeist das novas gerações, além das amizades e namoros do século XXI, como poucos criadores conseguem fazer. Entre a crítica social e o carinho por estes personagens falhos, ele nos convida a observar um mundo de assombrosa impessoalidade.




