Seu Cavalcanti | “Meu avô sempre vai estar presente na minha cinematografia”, diz Leonardo Lacca

Durante quase vinte anos, o diretor Leonardo Lacca filmou o próprio avô. Muitas vezes, estava sozinho com a câmera na mão, acompanhando este policial aposentado andando pelo bairro, ou tomando seu uísque em casa. Sem se incomodar com a presença do dispositivo, o homem começou a aceitar propostas de ficcionalização: algumas cenas foram solicitadas, e falas foram dubladas. Até a grande atriz Maeve Jinkings entrou em cena, para interpretar a namorada do avô, em instantes improvisados por ambos.

O resultado está presente em Seu Cavalcanti, misto de documentário e ficção que chega aos cinemas dia 11 de setembro, com distribuição da Cajuína Audiovisual. Produzido por Émilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho, além do próprio cineasta, o filme aborda as contradições do familiar conforme sua saúde se degradava, e se confrontava às transformações do país. O resultado é marcado pela leveza e o bom humor. Lacca conversou com o Meio Amargo a respeito da obra:

Por que decidiu se colocar como narrador dessa história, no formato de uma carta direcionada ao próprio avô?

Leonardo Lacca: Quando surgiu a ideia de narrar, eu tinha uma aversão pessoal a esse estilo. Queria que o filme fosse universal, e não algo ensimesmado. Por isso, tinha medo de entrar nessa narração. Então eu comecei a assistir ao filme e comentava, improvisando. Fiz isso umas cinco vezes e comecei a entender que esse material teria que ser olhado com calma, e editado. Mas eu não conseguia escrever uma narração prévia; ela surgiu desse contato com as imagens. Em algum momento, por algum motivo, eu comecei a conversar com ele. Então, não foi algo muito refletido. Quando a narração aparece, ela também modifica as imagens. Eu já montei um filme narrado, Animal Político, e percebo a loucura que surge quando entra a narração. Mas quando entrou, entendi que era a melhor opção, porque muitas coisas ficaram mais enfáticas assim.
O filme tinha funcionado muito bem com amigos, com familiares, ainda sem narração. Eu tenho a sensação de que fiz o filme para o meu avô, inclusive, no aniversário de 95 anos dele. Essa sensação foi incrível. Pensava assim: “Caramba, comunica muito bem esse filme”. É engraçado, porque a minha relação com ele também funciona como veículo de contato para que as pessoas conheçam melhor e vejam o meu ponto de vista sobre ele, sobre o que está acontecendo.

Você também constrói uma espécie de filme-processo, incorporando o próprio making of. Você explica quando quis incluir uma trilha sonora, mas não conseguiu, ou quando o microfone falhou. Por que quis compartilhar essas circunstâncias com o espectador?

Leonardo Lacca: Porque achava muito interessante. É engraçado, tem alguns casos na história do cinema em que o filme-do-filme é mais interessante do que o próprio filme, sabe? Antigamente, recentemente, a gente tinha os DVDs com extras, incluindo o comentário do diretor e o making of. Esse filme já vem com tudo: comentário e making of junto. E eu achava muito interessante o processo de feitura do filme, porque não tinha set de filmagem. No final das contas, isso era o mais precioso para mim.
Por exemplo, tem a questão da dublagem. Eu não tinha como não registrar, porque não sabia o que ele iria dizer. Eu nunca sentei e disse: “Vamos lá, vovô, vou te entrevistar”. Nunca aconteceu isso. Primeiro, eu não me considero um documentarista, e não tinha essa ideia para o filme. Mas eu sabia que, na hora que ele sentasse na frente de alguém, ele ia começar a falar sem a pessoa nem perguntar. Como ele era uma pessoa muito sociável, ele gostava. Foi uma vontade deliberada. Ele começava a falar e eu sabia exatamente o que ele iria dizer, porque conheço o roteiro dele. Então, é um filme de apostas, e o que voltava era muito genuíno e bonito. Eu criava as circunstâncias, e assim acontecia.

A propósito, o filme vai se ficcionalizando cada vez mais. Várias interações são encenadas, o que inclui essa namorada interpretada pela Maeve Jinkings. Por que optou por estes recursos?

Leonardo Lacca: Acho que isso vem de mim, porque é muito difícil fazer filme. Eu tenho um segundo longa de ficção e, teoricamente, vou filmar ano que vem. Ou seja, eu lancei o primeiro em 2014 (Permanência), e devo lançar o segundo em 2027, treze anos depois. Então Seu Cavalcanti foi algo desenvolvido ao longo dos anos. Coloquei coisas que eu queria exercitar, para acalentar essa vontade de expressão. Eu sempre quis que fosse uma ficção — mas não apenas isso. No final das contas, acredito que todo filme é híbrido de alguma forma, mas numa proporção meio mágica, que não dá para dizer com precisão. É a mesma coisa desse filme. Em algum momento na montagem, eu me libertei deste rótulo das imagens. Apostei na potência que as imagens apresentavam para mim. Afinal, eu já tava ficcionalizando de alguma forma, pedindo coisas para eles. Pedia para meu avô atuar, andar para lá, falar coisas. A entrada de Maeve foi um desafio, porque significava improvisar. Mas tinha um norte, é claro. É como se eu colocasse dois animais cinematográficos no mesmo lugar para ver o que acontece. Era um experimento dizer para o meu avô: “Ela agora é sua namorada”, e isso representava um desafio para ela também. Maeve foi brilhante. Foram ideias sem planejamento, então eu tinha uma ideia, e a gente testava.
Isso permeou meu imaginário, digamos, nesses 20 anos. E ainda permeia porque, sem querer, eu ainda tenho ideias para esse filme. É muito louco isso. Agora, durante o lançamento, eu me pego falando sobre ele, e do nada tenho uma ideia que poderia ter entrado. Por isso eu perguntava: “Quando vou parar de filmar você?”. Acho que nunca, né? Porque a toda hora ele vai estar presente de alguma forma na minha cinematografia, seja uma referência sutil ou pelo menos na ideia que aparece.

Muitos cineastas brasileiros têm feito filmes sobre seus familiares, geralmente com os próprios diretores na condição de narradores em off. Como enxerga a filiação a esse grupo de filmes?

Leonardo Lacca: É interessante. Eu lembro que, quando estava fazendo, começaram a surgir também alguns curtas desse movimento do final dos anos 2000 e início de 2010. Alguém até intitulou de filmes-umbigo, mas isso era o oposto do que eu procurava. Queria que fosse um filme universal. Ele termina caindo nesse lugar por conta por questões estéticas. Mas Seu Cavalcanti é fruto de uma vontade, de um desejo, de uma condição específica. Talvez, se eu tivesse sempre um filme para fazer, ele nunca existiria. Então este projeto também se deve à ausência de possibilidade de filmar mais. Como diretor ou roteirista, a gente faz poucos filmes. É muito raro alguém filmar uma vez por ano. Ou então filma de um jeito precário, com poucas possibilidades.
Seu Cavalcanti é como se fosse o início dessa fase, mas depois teve um acabamento, uma lapidação. A pós-produção não teve nada a ver com a produção, são coisas totalmente distintas. A pós-produção teve equipe, teve gente trabalhando o som, reconstruindo o som. Teve correção de cor e mixagem. Já a produção não teve ninguém: era eu sozinho, e às vezes alguns amigos ajudavam ao longo desses anos. Depois conseguimos a grana de finalização, e todo mundo foi pago de alguma forma.
Então a filiação a este grupo de filmes acontece por conta da possibilidade de se expressar. Eu vi na Quinzena dos Realizadores, em Cannes, um filme chamado Tarnation, do Jonathan Caouette, sobre a mãe dele. Aquilo ali me tocou muito, no sentido de falar com o mundo inteiro a partir de você mesmo. É aquela coisa da aldeia que se torna universal. É um processo pelo qual todo mundo termina passando — uma vontade de produzir imagens e falar de si.

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