Maspalomas | “Vivemos ignorando a sexualidade das pessoas idosas”, aponta Jose Mari Goenaga

O drama Maspalomas aborda um tema raro, até mesmo para o cinema queer: a sexualidade de pessoas de mais de 70 anos. Na trama, Vicente (José Ramon Soroiz) se assumiu gay aos 60 anos, o que levou à ruptura com a filha e os demais familiares. No entanto, quinze anos mais tarde, separa-se do namorado, e decide explorar a vida de festas e pegação em Maspalomas — um destino gay nas Ilhas Canárias.

Entretanto, quando sofre um AVC, o homem é colocado numa clínica de reabilitação. Em meio a desconhecidos, Vicente acaba voltando ao armário, ocultando tanto a sua orientação sexual quanto o simples fato de ter desejos sexuais. Os diretores Jose Mari Goenaga e Aitor Arregi acompanham este percurso com bastante sensibilidade, numa produção espanhola falada em língua basca.

Goenaga esteve presente em São Paulo, durante a exibição do filme na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ele conversou com o Meio Amargo a respeito da obra, vencedora do prêmio de melhor atuação no Festival de San Sebastián:

Por que quis se dedicar à sexualidade dos homens idosos neste projeto?

Jose Mari Goenaga: Bem, isso apareceu por dois caminhos. Por um lado, me interessei por Maspalomas, e por outro, por esse fenômeno — ou fato — de que as pessoas mais velhas da comunidade LGBTQ+ acabam, de certo modo, voltando para o armário quando são internadas em uma casa de repouso. Esse tema me chamou muito a atenção.
Mas o primeiro impulso veio mesmo de Maspalomas. Fui pela primeira vez de férias para lá, em 2016, e me fascinou o microcosmo que encontrei. Muita gente idosa na praia de nudismo, também praticando sexo, fazendo cruising ou frequentando bares — algo que não estamos muito acostumados a ver. Mesmo deixando o sexo de lado, o fato de ver pessoas idosas se divertindo num bar já é algo incomum, pelo menos em San Sebastián, onde moro.
Então aquilo me interessou muito, e quis retratar essa realidade. Mas me faltava uma história. Mais ou menos na mesma época, li um artigo sobre idosos LGBTQ+ que “voltavam ao armário” ao entrarem em lares de repouso. Então, pensei em unir essas duas ideias e criar a história de Vicente — um homem que acabou de se separar do companheiro, está descobrindo coisas novas em Maspalomas, tentando viver sua sexualidade dentro do possível, até que, por ironia do destino, vai parar numa casa de repouso. Lá, ele precisa se reencontrar com os fantasmas do passado.
No fim, há um “voltar ao armário”, mas, a longo prazo, o filme desenha um percurso de autoaceitação. Talvez Vicente encontre na casa de repouso algo que acreditava já ter superado, mas, na verdade, não superou — apenas reprimiu. Acho que, no fundo, o filme fala sobre como alguém pode ser aceitar, sendo diferente.

A Mostra está repletas de filmes queer, mas poucos se concentram em homens mais velhos. Como vê a imagem das pessoas idosas no cinema queer?

Jose Mari Goenaga: É verdade que há alguns filmes, mas são poucos, e tenho a sensação de que o tema raramente é tratado de maneira frontal. Às vezes os personagens estão lá, mas não se explora o que se passa na cabeça deles, ou como vivem tudo isso. Algo que me chamou muito a atenção, e que fui descobrindo ao longo do processo do filme, é que vivemos ignorando a sexualidade das pessoas idosas. Mesmo durante a produção, muita gente questionava: “Mas isso realmente existe? Idosos fazem sexo?”.
E basta ir a Maspalomas para ver… ou nem precisa, vá a uma sauna e verá.
Por outro lado, conversando com funcionários das casas de repouso, eles próprios dizem que frequentemente precisam lidar com questões relacionadas à sexualidade dos residentes. Por exemplo, no filme, há duas pessoas com Alzheimer que ficam se tocando — eu escutei essa história de uma assistente social. Eram dois idosos que acabavam fazendo sexo em qualquer lugar da instituição, e os profissionais tiveram de encontrar um lugar onde pudessem fazer isso. É só um exemplo, mas mostra que os idosos desafiam nossas ideias pré-concebidas. Você vai a uma reunião das casas de repouso e de repente estão discutindo se devem comprar um vibrador para um homem que anda introduzindo outros objetos no ânus. Pode soar cru, mas são conversas reais nestas instituições. Acho que a sociedade não tem consciência disso.
Na Espanha, a sexualidade das pessoas idosas sempre esteve ligada à figura do “velho tarado”, como se a sexualidade não lhes pertencesse mais. Quando escrevi e dirigi o filme, não pensei “vou tocar num tabu”, mas depois, ao participar da divulgação, percebi que, sim, é um tema ausente na sociedade. No final, o que faz algo evoluir são nossas referências. As pessoas idosas também precisam delas — sejam homossexuais ou não. Elas precisam se ver na tela, assim como nós, gays, também precisávamos. Ver-se representado pode te impulsionar a viver de outro modo. Ainda há muito terreno a ser explorado aí.

O filme também aborda a solidão dos idosos. Mostra os personagens tratados como crianças, sem autonomia.

Jose Mari Goenaga: É verdade. Tudo isso surgiu à medida que eu pesquisava e conversava com funcionários de casas de repouso. Muitos deles são bastante críticos ao sistema. No País Basco, há várias residências — nem todas, mas muitas — que estão tentando mudar. Tentamos mostrar isso no filme: a passagem de um modelo baseado em serviço, com grandes refeitórios e pessoas tratadas como números, para outro baseado na pessoa, respeitando o projeto de vida de cada um, ao menos, enquanto tiver lucidez.
Mas é verdade que essas iniciativas sempre esbarram na falta de recursos. Muitos nos disseram que a residência do filme parece “boa demais”, porque há mais cuidadores do que existiriam na realidade. É verdade, mas não queríamos fazer uma denúncia direta do sistema, e sim criar uma residência que acompanhasse a psicologia do personagem.
Queria mostrar como esse novo modelo entra em choque com Vicente, que já voltou para o armário. Ele se sente violentado quando perguntam “O que você quer para a sua vida?”. Ele não quer responder, não quer se expor. Está num tipo de síndrome de Estocolmo: “Deixem-me em paz, estou bem assim”. As mudanças são violentas.

Enfrentamos as cenas [de sexo] sem preconceito, sem querer provocar, mas também sem procurar o confronto. Às vezes, a perversão está no olhar de quem assiste.

Gosto muito das imagens do corpo, da sexualidade. Elas não parecem querer chocar, mas também não escondem nada.

Jose Mari Goenaga: Enfrentamos essas cenas sem preconceito, sem querer provocar, mas também sem procurar o confronto. Às vezes, a perversão está no olhar de quem assiste. Algumas pessoas me dizem: “O começo é muito violento”. E eu penso: “Vejo um senhor se divertindo, aproveitando o sexo — onde está a violência?”. Queríamos mostrar o cruising, o sexo anônimo, de maneira até certo ponto afetuosa. Inclusive, havia uma cena de cruising ainda mais carinhosa, que acabamos cortando. Nem sempre é assim na realidade, é claro, mas pode ser.
Nós nos inspiramos bastante em Um Estranho no Lago, especialmente na forma como filma o cruising. Na cena do bar, onde ele tem o AVC, há uma coreografia mais marcada — a música do lugar conduz o movimento. Mas o tempo todo vemos um homem descobrindo coisas, curioso, querendo participar. Trabalhamos a partir desse ponto de vista: o de um homem vivendo uma segunda adolescência, aos 76 anos. Quando você se conecta com a psicologia do personagem, tudo se organiza a partir daí. Não julgamos o que mostramos — apenas acompanhamos seu olhar.

Os encontros passageiros com outros homens, inclusive via aplicativo, também são cheios de ternura.

Jose Mari Goenaga: Sim. Isso não foi nada pensado desde o início, mas o roteiro naturalmente caminhou para esse terreno da ternura. A gente poderia mostrar situações mais duras, mas o desafio aqui era o equilíbrio: queríamos manter o foco no percurso psicológico do personagem. Se colocássemos um assalto, um golpe, algo muito dramático, desviaríamos a atenção. O mesmo vale para o final: alguém sugeriu que Vicente confessasse sua homossexualidade ao colega de quarto, Xanti, mas isso também desviaria o foco.

Há uma agressividade velada, uma violência interna. Nós, homossexuais, a sentimos — o simples fato de presumirem nossa heterossexualidade pode ser violento.

É muito bonito que o conflito de Vicente seja consigo mesmo, não com a aceitação dos outros.

Jose Mari Goenaga: Exato. Algumas pessoas reclamaram: “No filme, não há uma situação de homofobia explícita na casa de repouso.” De fato, o conflito é mais interno. Vicente tem uma homofobia interiorizada, e isso se vê claramente em relação a Iñaki, o enfermeiro. Em algum momento pensamos em incluir falas mais agressivas dos colegas, mas percebemos que, embora isso exista na realidade, não funcionava dentro da história.
O que me interessava era mostrar o processo interno dele. Mesmo que o entorno não seja explicitamente hostil, há uma agressividade velada, uma violência interna. Muitos heterossexuais talvez não a percebam, mas nós, homossexuais, a sentimos — o simples fato de presumirem nossa heterossexualidade pode ser violento, se não soubermos lidar com isso. Esse terreno da ambiguidade me interessa muito.

O trabalho de José Ramón Soroiz é impressionante. Ele parece outra pessoa, entre o início e depois do AVC. Como trabalharam essa transformação?

Jose Mari Goenaga: O trabalho da equipe de caracterização foi essencial — é uma equipe com quem já trabalhamos antes, sempre disposta a experimentar. Eles sugeriram, por exemplo, que em Maspalomas o personagem tivesse o cabelo tingido. Como filmamos em diferentes momentos, pudemos desenhar a evolução física dele — uma mudança que acompanhasse a transformação emocional. No fim, ele se aproxima do que era no início, porém, transformado. Há quem diga que Maspalomas é, no fundo, um grande armário — e talvez seja —, mas, para Vicente, não é algo necessariamente ruim. Ele “volta ao armário”, sim, mas agora se aceita como é.

Há quem diga que Maspalomas é, no fundo, um grande armário — e talvez seja —, mas, para Vicente, não é algo necessariamente ruim.

Você e José Ramón fizeram pesquisa em casas de repouso, ou em Maspalomas?

Jose Mari Goenaga: Visitamos uma casa de reabilitação de pessoas que tiveram AVC, para ele observar os movimentos de quem tem um lado paralisado. Antes das filmagens, fomos juntos a Maspalomas — algo fundamental para ele, que é heterossexual, e não conhecia o lugar. Visitamos um cruising bar, o que o ajudou a se familiarizar com o ambiente, a perder o medo. Ele foi muito generoso em tudo.
Nas cenas de sexo, tínhamos coordenadoras de intimidade, e ele entendeu perfeitamente a importância de mostrar aquela sexualidade de forma direta, sem embelezar, nem censurar. Não há sexo explícito, mas também não escondemos. Isso era essencial para gerar o contraste com a casa de repouso — porque, no fim das contas, o conflito do personagem está em sua sexualidade, em como a vive e a mostra (ou esconde) dos outros. E ele se entregou completamente.

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