Xingu à Margem (2025)

A política comentada

título original (ano)
Xingu à Margem (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
97 minutos
direção
Wallace Nogueira, Arlete Juruna
elenco
Raimunda Silva, João Silva, Arlete Félix Juruna, Kauani Juruna
visto em
58º Festival de Brasília (2025)

Em 2016, a usina hidrelétrica de Belo Monte foi inaugurada na região de Altamira (PA), prometendo levar energia elétrica a toda a região. No entanto, como previsto, a gigantesca construção alterou completamente o fluxo do rio Xingu, prejudicou a biodiversidade e, em consequência, a vida dos ribeirinhos que dependiam da pesca. Afetou, em paralelo, as comunidades indígenas ao redor, nunca devidamente recompensadas por suas perdas. Diversas famílias precisaram abandonar a região, ou aceitar as magras indenizações do Estado. No entanto, Raimunda Silva, militante pelo direito à terra, se recusa a compactuar com as propostas de empresas.

Este é o ponto de partida de Xingu à Margem, documentário político de abordagem convencional. A narrativa é sustentada por denúncias, apontando o nome de culpados e sublinhando as justiças e desigualdades de um caso jamais resolvido. Por isso, ressalta as dores das vítimas (perda financeira, doenças devido às águas contaminadas, suicídios entre moradores), em conjunção com a resistência, enquanto se aponta a ganância de instituições governamentais e financeiras. As intenções dos diretores Wallace Nogueira e Arlete Juruna são obviamente defensáveis, a partir de um tema de grande relevância social. É difícil discordar da veracidade dos fatos apresentados.

Cena após cena, Raimunda repete os efeitos danosos da barragem de Belo Monte. Logo, Xingu à Margem soa redundante. A montagem, em particular, carece de refinamento para valorizar os discursos, sons e imagens.

No entanto, os meios escolhidos para veicular tal discurso merecem questionamento. Ao elegerem uma protagonista única, os autores sugerem que Raimunda possa falar em nome de todo o coletivo, embora não estejam claros os motivos pelos quais ela representaria tantas vozes. Nunca se conversa com vizinhos, moradores de comunidades distintas, nem mesmo representantes indígenas (tanto aqueles que criticam as ações da Nova Energia quanto os que compactuaram com a apropriação das terras). Mesmo o marido de Raimunda e a amiga servem como exemplos secundários, para escutarem a protagonista e lhe darem a réplica. 

Eles se expressam em uníssono, repetindo um discurso inequívoco. Belo Monte e a Nova Energia “trouxeram grande confusão”. São “um inferno”, “um veneno”, “uma desgraça”, “uma frieira roendo as pessoas”, nas palavras da personagem principal.  Questionada a respeito das divergências com povos indígenas, ela pondera: “Eu não tenho inimigo: meu inimigo é a Norte, é o governo”. “Ou me paga, ou me mata”, ela conclui, a respeito das ameaças de morte que sofre. Cena após cena, Raimunda repete os efeitos danosos da barragem. Uma vez tornado seu caso suficientemente claro, ela continua afirmando, sozinha, os horrores desta construção, de novo e de novo. 

Logo, Xingu à Margem soa redundante. A montagem, em particular, carece de refinamento para valorizar os discursos, sons e imagens. Além de permitir diversas repetições, deixa que as cenas se estendam para muito além do entendimento e da contemplação. Um rapaz, denunciando os suicídios ao seu redor, afirma se tratar de uma tragédia. Ele lamenta, cita casos, lamenta de novo, cita mais casos. A montagem demora uma eternidade para interromper a sequência. Talvez o montador estime tornar o caso ainda mais potente devido à reiteração, em diálogos, da crise humanitária. Ora, ele apenas enfraquece a potência das palavras, que provocam distanciamento no espectador por meio do efeito hipnótico das repetições.

Isso porque a obra depende excessivamente das falas de seus poucos personagens. Nogueira e Juruna evitam efetuar uma investigação própria, de ordem cinematográfica e política. Precisamos acreditar nas palavras (bastante dignas de crença) de Raimunda e seus colegas, porque praticamente inexistem materiais de arquivo. Após a forte apresentação do prólogo, incluindo o enfrentamento dos povos indígenas em 1989, e a aprovação da usina em 2016, a câmera mergulha no cotidiano da mulher. Enquanto isso, evita se aproximar da barragem, da empresa, das discussões comunitárias, ou mesmo dos embates entre opiniões distintas. Já as construções poéticas nunca ultrapassam o tradicional sobrevoo com drones pelos rios, banhados por música triste e doce.

Muito mais forte do que explicar a existência de divergências, teria sido filmá-las. Muito melhor do que mencionar as dificuldades da pesca, teria sido registrá-las em imagens e sons. Os representantes locais foram contatados? Alguma das ameaças da Raimunda foi registrada? Sua dificuldade de passar da atividade pesqueira à cacaueira lhe traz danos econômicos? Não sabemos. O documentário se limita a uma descrição em terceira pessoa e voz indireta. Fala-se de um problema que não vemos, de fato. Citam-se aspectos (a evangelização dos povos locais, o preço do cacau) jamais contextualizados pelo debate. Nenhuma imagem captada pelos autores possui a força do material de arquivo inicial, quando os ativistas indígenas confrontam as autoridades brancas.

Além disso, na ausência de materiais de arquivo, teria sido fundamental que as captações contemporâneas cumprissem, sozinhas, aos propósitos estéticos e à complexidade do discurso. Ora, não se demonstra em Xingu à Margem um cinema rigoroso. Apostando na prioridade do conteúdo sobre a forma, os autores utilizam uma captação digital de baixa qualidade, tremendo excessivamente, graças a uma câmera na mão não-estabilizada. Os poucos letreiros contêm erros de digitação; a lente apresenta sujeiras, e o boom invade o enquadramento, forçando a fotografia a fechar apressadamente o quadro, para esconder o dispositivo. Surpreendentemente, tudo isso sobrevive à montagem.

Em alguns instantes, a captação do som direto e da fotografia, durante as entrevistas, resulta bastante competente. Em outros, apresenta problemas na edição sonora, nos cortes “internos” durante a fala de um personagem, além do foco e da composição. Algumas conversas resultam quase inaudíveis. Abraça-se um cinema da urgência, pouco preparado para lidar esteticamente com o acaso. Ironicamente, os cineastas capturam uma rotina bastante pacífica. Posto que os conflitos políticos são evocados na fala, mas não filmados in loco, ao vivo, é difícil justificar tantas dificuldades no tratamento de som e imagem. Estes desníveis se explicariam, talvez, caso os cineastas filmassem um enfrentamento diante de seus olhos, ou corressem entre as florestas. Nada disso ocorre. Na maior parte da narrativa, Raimunda somente conversa.

A mulher constitui uma excelente personagem, sem dúvida. Ela possui falas assertivas, movidas por amplo conhecimento da realidade retratada. Em contrapartida, Raimunda ocupa um projeto muito mais disposto a discutir política do que representá-la. Há dilemas morais e éticos evidentes dentro da própria comunidade de Altamira. Pode-se ressaltar as contradições de Belo Monte ter sido aprovada durante o governo Dilma Rousseff. Seria possível atestar os confrontos inesperados entre dois povos prejudicados pela construção: ribeirinhos e indígenas. Mas nada disso se concretiza diante dos nossos olhos. Cinematograficamente, o filme fica aquém da importância e complexidade do tema abordado. Abraça grandes e importantes causas com uma simplificação de linguagem que depõe contra as nobres intenções de seus criadores.

Xingu à Margem (2025)
4
Nota 4/10

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